@ especial de domingo # O REPÓRTER HERÓDOTO por ASTROJILDO PEREIRA em 1939 *****

From: Jose Roberto Guedes de Oliveira
fantástico escrito do "JILDO", publicado há 70 anos.

O REPÓRTER HERÓDOTO
Astrojildo Pereira

Abro uma enciclopediasinha barata e leio “Heródoto, historiador grego, nascido em Halicarnasso, cognominado o Pai da História...” Pego a Introdução à História da Literatura Portuguesa, do prof. Mendes dos Remédios, e vejo: “Heródoto... é cognominado com razão o “Pai da História”. O compêndio de Literatura Geral, do sr. Afrânio Peixoto diz a mesma coisa: “Heródoto, de Halicarnasso, 484-408 a.C., faleceu em idade avançada em Túrio, na Grande Grécia. Cognominado o “Pai da História”. Cem vezes, em cem livros diferentes, a gente lê que Heródoto é o “Pai da História”. Pois é o que eu estou fazendo agora, só agora – e na verdade encantado com a descoberta desta mina. Heródoto não escreveu, a bem dizer, uma História com H grande, mas sim muitas histórias com h pequeno, inúmeras histórias, mil e uma histórias curiosíssimas.

Evidentemente, está certo que o cognominem sem discrepância de “Pai da História”, no sentido de primeiro historiador cronologicamente havido e conhecido. Mas eu penso que haveria maior exatidão em chamá-lo de “Pai da Reportagem”. E digo “Pai da Reportagem” não só no sentido cronológico, como também num sentido intrínseco, essencial, qualitativo. Os seus nove livros de história constituem, com efeito a mais estupenda reportagem das coisas e dos homens da antiguidade grega e adjacente – “somme ou peuvent puiser à la fois l’archéologue, le folkloriste, l’historien, et dans l’aquelle se reflétent l’infatigable zèle d’um chroniquer ou d’un reporter”, conforme notou com excelente autoridade um de seus tradutores franceses, o sr. Henri Berguin, o qual pôs na sua versão o título bem adequado de Enquete...

Viajante sempre alerta, bisbilhoteiro e anotador de tudo, das grandes e das pequenas coisas, e mais até das pequenas que das grandes, Heródoto percorreu quase todas as terras do mundo conhecido de então – o que não é dizer pouco, tendo-se em vista a primitividade e a lentidão dos meios de transporte contemporâneos. A vasta “enquete”, a que ele procedeu durante estas viagens, lhe fornece a enorme soma de materiais para a composição dos nove livros de sua obra. Não o preocupava demasiado o grau de veracidade de tudo que lhe contavam: “eu devo relatar o que me contam, mas sem obrigação de crer que seja verdade”, explica ele a folhas tantas (VII, 152). Ainda nisto, afinal de contas, revela-se Heródoto autêntico repórter.

Não importa que os eruditos, séculos e séculos depois, fiquem a deblaterar com sizuda minudência acerca da probidade ou improbidade do autor. Muitas das suas histórias não serão cem por cento verdadeiras. Mas são verosímeis – e são sobretudo contadas e recontadas com o mais saboroso senso da arte de contar. Isto lhes basta para assegurar o interesse e a imortalidade – objetivos que nem todos os seus comentadores hostis terão conseguido ou conseguirão alcançar.

Há quem desdenhe da reportagem, acoimando-a de gênero literário inferior. Gênero inferior? Na realidade, não há nenhum “gênero” inferior de literatura; o que há, suponho eu, é literatura inferior de qualquer gênero. Um mau poema, por mais sublimidade que o autor tenha desejado inocular-lhe, será sempre um “mau” poema, portanto literatura inferior”. Uma boa reportagem, queiram ou não queiram os classificadores de hierarquias e preconceitos, será sempre uma “boa” reportagem, portanto, literatura “superior”. É o caso das reportagens de Heródoto. Elas perpetuaram o nome do autor, atravessando os séculos com a segurança de obra literária de primeiríssima categoria. Não falta mesmo (Schlegel entre outros) quem lhe empreste foros de epopéia – equivalente no seu gênero aos poemas homéricos. Que mais se poderia exigir para exalçar o gênero reportagem e conferir-lhe paridade ao lado dois demais gêneros literários?

Augusto Comte, que pretendia sistematizar e esquematizar tudo, organizou em seu tempo uma “biblioteca positivista” composta de 150 volumes e entre eles incluiu a obra de Heródoto. Mais tarde, sir John Lubbock igualmente meteu Heródoto entre os autores dos 100 melhores livros da literatura universal. E ainda recentemente, respondendo à pergunta que lhe fizeram a respeito dos livros que considerava de conhecimento indispensável à formação de uma cultura geral, o novelista Pio Baroja inscrevia a reportagem de Heródoto numa seleção rigorosa de 30 livros. O critério número é sempre muito precário nestes assuntos; mas quem sabe se daqui a algum tempo mais, ao indagar-se qual seja o melhor livro de todas as literaturas de todos os tempos, não responda alguém que é precisamente o das reportagens de Heródoto? Foi talvez nesta previsão que o pessimista Schopenhauer já afirmava que no livro de Heródoto se encontram todas as combinações passadas e futuras que a História humana podia tramar.


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Astrojildo Pereira. O Repórter Heródoto. Publicado no Diário da Manhã, Niterói, edição do dia 04.10.1939.

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Comentário de Delcio Marinho em 11 outubro 2009 às 3:07
Comentário de Delcio Marinho em 11 outubro 2009 às 3:07

Comentário de Delcio Marinho em 11 outubro 2009 às 3:09
Comentário de Antonio Barbosa Filho em 12 outubro 2009 às 21:19
Astrogido Pereira foi uma dos maiores críticos de Arte no seu tempo e no Brasil. Seu grande conhecimento de Marx, da História, lhe permitia uma visão muito ampla dos processos artísticos em andamanto no século 20.
Agradeço a ele minha inoiciação n conhecimento das Artes Plásticas e na Literatura. Abstraindo seus conceitos marxistas, lendo com a cabeça sem preconceitos, econtramos o grande intelectual.
Devo muito a ele, e sinto falta de outros críticos da mesma estatura.

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