Portal Luis Nassif

Desperto após um ano de silêncio no Portal, ao longo do qual havia esquecido até mesmo minha própria senha; o motivo não poderia ser melhor: alguém por aqui se lembrou de mim e me sacudiu da letargia poeirenta em que me encontrava: silenciosa da palavra escrita; desertora do pensamento compartilhado.

Me pergunta se estou bem e não sei bem como explicar que não estou; que farta da ignorância e da mediocridade decidi me recolher a um silêncio constrangedor e medíocre. Estou triste.

Perdi meu companheiro de vida e me tornei viúva em setembro de 2015 e como não fora perda suficiente, presenciei a perda da razão, da ética e da legalidade cujo marco recente foi 31 de agosto de 2016, com o impeachment de Dilma. Desde então as tristezas se somaram e não, não sou petista, mas sou advogada e, apesar dos pesares, ainda acreditava em nossa tortuosa democracia tanto quanto em nossa rota Constituição de 1988. Não, não acho que o Governo  Dilma foi perfeito ou mesmo bom, mas votei nela e esperava que cumprisse o seu mandato. E desde que seu impeachment se tornou um fato consumado assisto à crescente onda  de fundamentalismo direitoso somada à absoluta falta de cultura e capacidade intelectiva ascender de forma assustadora. Os Savonarolas estão  de volta (para quem não sabe, Girolamo Savonarola foi um temido inquisidor  que pelos idos de 1400 queimava livros, obras de arte e vidas). Nunca antes na história do Brasil (permitam-me a licensiosidade espirituosa) pensar foi tão perigoso e expressar tão letal; vivemos a ditadura do medo e sempre temi o medo mais do que a morte.

Perdi meu companheiro de vida e com ele se foi uma página importante da política, quase como se tivessem combinado: ele que amava a liberdade de ir-se antes que a tal  se fosse. Eu fiquei, por aqui, no cais da vida diária me desfazendo em despedidas  a cada barca que se ia. Estou triste.

Não há mais terra firme para quem pensa, apenas horizontes distantes a perseguir; as fogueiras estão acesas e o ódio inflama as ruas. Vivemos a ditadura do medo; se você acha que vivemos em um país de desigualdade social, se acredita na solidariedade cristã  ou mesmo gostaria que direitos e garantias individuais fossem respeitados, você é um comunista! E digo mais, se você é um comunista, você é um terrorista! E se você é um terrorista, já sabe: bandido bom é bandido morto!

Os tribunais de julgamentos sentenciados antes mesmo da denúncia estão instalados. Você já foi julgado! Estou triste.

Meu companheiro não voltará e a liberdade, sabe Deus quando, mas sei lá, melhor não mencionar Deus; afinal de contas ele tinha idéias estranhas sobre a entrada dos ricos  no reino dos céus e você já sabe: comunista...terrorista...e a morte.

Obrigada a quem pergunta por mim; estou voltando, me encontrando e perdendo o medo... de tão saudosa da liberdade arrisco tergivesar. Não estou mais triste.

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Comentário de Mirele Alves Braz em 2 agosto 2017 às 18:07

Amigo Mauro, obrigada pela mensagem. Te dedico este post.

Comentário de Mauro em 4 agosto 2017 às 1:31
Minha amiga Mirela, me sinto honrado com sua dedicatória. Sua postagem ultrapassou meu sentimento de lisonja, pois a medida que discorria suas palavras, variei minhas percepções sobre sua tristeza, indignação, coragem, inconformidade e sensibilidade. Ao fim, sua última frase foi um presente.
Sou solidário com seu sofrimento, mas também companheiro na luta por um país mais justo e democrático. Somos muitos, não estamos sozinhos. Obrigado por nos brindar com sua arte das palavras novamente.

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