EUA: A reação neoconservadora a Paulo Freire



A obra "Pedagogia do Oprimido" é um sucesso nos EUA há 30 anos. Fez de Paulo Freire um dos conceitualistas da Educação mais conhecidos internacionalmente. Nos EUA, ajudou a humanizar a educação, embora suas idéias não fossem barreira o suficiente para deter a falta de investimentos, a priorização de recursos para ações de guerra, o modelo ultra-mercadista e os males da guetificação, a diferença de tratamento entre as classes sociais e o preconceito racial, os efeitos da pobreza que levam 30 milhões de americanos a depender de food stamp.

Ou seja, Paulo Freire humanizou e sensibilizou a pedagogia americana, mas não ajudou a superar os problemas próprios da sociedade americana. Até porque o autor brasileiro passa a ser reconhecido em solo americano exatamente no início da era conservadora de Reagan, Bush pai e Bush filho, com o hiato democrata de Clinton. Era que deu baixíssima prioridade ao ensino público.

Respeitabilíssimo entre os os educadores sérios, com idéias de alta repercussão na academia, Paulo Freire, no entanto, é contestado por alguns especialistas. Natural. Isso faz parte do ideal do mundo intelectual: o embate entre as correntes, o questionamento antes da certeza.

Além das críticas propriamente pedagógicas, há também as críticas deliberadamente políticas, de alto teor ideológico, e quase todas de estirpe conservadoríssima. Não, não estou caindo na besteira de acreditar que tomadas de posição cientificas, teóricas, conceituais etc. não sejam sempre atravessadas por ideologias. Até a noção de objetividade científica nas ciências naturais (o olhar de
Deus da sociedade Ocidental) é sim uma posição ideológica.

Também não posso nem de longe dizer que o próprio Paulo Freire estaria - seria contraditório em relação ao que se disse mais acima - desinteressado de preocupações e posições ideológicas. Sua obra evidencia este forte valor.

Ainda que não evidenciasse, deve-se lembrar que é próprio do homem na história, do pensamento humano, ocupar posições dentro de um espectro político (em sentido lato), numa certa relação de forças.

Mas há críticas e críticas. Quando se traz pesquisadores (na verdade um intelectual comentarista e não propriamente um pesquisador) como Sol Stern, para a clareza da discussão é bom que se informe direitinho sua procedência.

Pesquisador do Manhattan Institute Schollar, de traço absolutamente conservador, Sol Stern tenta de forma um tanto quanto passional desancar Paulo Freire nos últimos artigos para o City Journal, uma revista de idéias neoconservadoras sobre urbanidade e que "treme" ante qualquer coisa que cheire a pensamento liberal (no sentido americano do termo).

Alguns veículos brasileiros e mesmo blogs vêm dando voz a Stern. Sem problemas. Mas é preciso que se esclareça suas posições.

Ainda mais quando este Sol tem um brilho bem menor do que o pensador brasileiro.

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