LILIAN MILENA
Da Redação - ADV
Encontro internacional discute a produção sustentável do biocombustível reforçando a viabilidade do etanol brasileiro à base de cana de açúcar. A competição de terras entre a produção agrícola para fins energéticos, produção de alimentos e manutenção da biodiversidade tem sido a principal preocupação de pesquisadores que acompanham o desenvolvimento de energias limpas no mundo.
Durante workshop "Scientific Issues on Biofuels", realizado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP), nos dias 24 e 25 de maio, cientistas reconheceram o potencial para a expansão da cana de açúcar, nos moldes da produção brasileira.
A área cultivada com cana de açúcar no país é de quase 9 milhões de hectares, sendo 4 milhões de hectares voltados exclusivamente para produção de etanol. Em contrapartida, a área total ocupada por todos os grãos cultivados no país é de 45 milhões de hectares. O Ministério da Agricultura estima que restam mais 92 milhões de hectares agricultáveis (descontando áreas urbanas, florestas preservadas e Amazônia) para a expansão agrícola brasileira nos próximos anos.
A atividade que mais pressiona as áreas florestadas é a agropecuária, hoje, com produtividade baixa de uma cabeça por hectare. Ao todo, são 200 milhões de hectares utilizados para pastagens no país.
O professor José Roberto Moreira, do Centro Nacional de Referência em Biomassa (CENBIO), ressaltou que para atender 20% da demanda automotiva mundial seriam necessários apenas 8 milhões de hectares para o plantio de cana de açúcar. Isso porque cada hectares da cultura atende o consumo médio de três carros. A frota mundial atinge hoje 1 bilhão de veículos. E regiões de clima tropical como África, Ásia e América do Sul poderiam ajudar a aumentar a oferta dessa matriz.
O pesquisador estimou, ainda, que a produtividade brasileira poderá atender nos próximos anos até 15 veículos por hectare de cana de açúcar plantada. O que será possível a partir do desenvolvimento de novas tecnologias, em especial, da segunda geração que consiste em transformar resíduos vegetais ricos em celulose (como o bagaço de cana) em biocombustíveis.
Atualmente o consumo mundial de gasolina (de base fóssil) é de 945 bilhões de litros. A produção de etanol para abastecer veículos representa cerca de 7% desse total, ou seja, 67 bilhões de litros que são misturados à gasolina. A expectativa para 2020 é que o consumo de etanol alcance 209,75 bilhões de litros, ou 20% dos combustíveis que serão queimados.
Segundo o professor José Goldemberg, coordenador de estudo da InterAcademy Council, sobre o papel da ciência na produção sustentável dos biocombustíveis, o crescimento anual da quantidade de energia produzida por fontes renováveis no mundo é de aproximadamente 6%. Ao passo que, o aumento do consumo de energia de combustíveis fósseis é de apenas 2% ao ano. Apesar disso, a participação mais significativa de fontes limpas na matriz mundial acontecerá no longo prazo.
Atualmente 80% da demanda mundial é atendida por fontes fósseis (27% carvão, 33% petróleo e 33% gás natural). As fontes renováveis modernas - produzidas da conversão de biomassa em combustíveis gasosos e líquidos - atendem apenas 3% do consumo; hidrelétricas 5% e biomassas tradicionais (carvão vegetal, resíduos agrícolas e animais) outros 14%.
Em contrapartida, a matriz energética do Brasil tem um percentual de uso de fontes de energias limpas de 44,5% - biomassas participam em 23,3% da demanda, e hidráulica 13,0%.
A produtividade do etanol no país cresceu numa média de 4% ao ano, nas últimas três décadas. Em 1975 o aproveitamento agrícola era de três mil litros do biocombustível por hectare plantado de cana de açúcar. Hoje, ultrapassa 6 mil litros por hectare. As 435 usinas de grande porte, em atividade no Brasil, produzem atualmente cerca de 27 bilhões de litros de etanol que substituem metade da gasolina que seria consumida no país.
O maior mercado de etanol do mundo é os Estados Unidos, que, até antes da crise financeira mundial, produzia internamente 45 bilhões de litros anuais, em 7 milhões de hectares. A matriz do biocombustível norte-americano é o milho, que tem características menos competitivas que a cana de açúcar.
A cultura de cana de açúcar para produção de etanol no Brasil também se destaca por ser mais sustentável em relação às espécies plantadas com a mesma finalidade pelo mundo, por apresentar baixas emissões de gases estufa, elevada produção de combustível por hectares e menores impactos sobre a poluição da água.
Recentemente, a Agência Norte-Americana de Proteção Ambiental (EPA) anunciou que o etanol brasileiro é o “biocombustível mais avançado” e reduz as emissões de gases de efeito estufa em 61% em relação à gasolina.
Goldemberg afirma que a eficiência energética da cana de açúcar no Brasil pode ser ainda maior. O bagaço da planta é queimado para gerar o calor que alimenta os fornos de destilação do melaço durante produção do etanol, com excedentes utilizados na geração de energia elétrica.
Essa é uma das características que tornam o biocombustível brasileiro mais competitivo em relação ao norte-americano. A produção do álcool a partir do milho não resulta na sobra de resíduos orgânicos suficientes para alimentar as caldeiras. Os Estados Unidos mantém uma tarifa de importação da matriz brasileira de US$ 0,54 por galão, estabelecida até o final deste ano, para proteger a produção interna.
“Existem estimativas de que se poderia gerar no Brasil todo aproximadamente 14 milhões de quilowatts”, completa o físico, referindo-se ao aproveitando do bagaço da cana de açúcar. Um potencial que equivale à capacidade instalada da usina hidrelétrica de Itaipu. Atualmente, as usinas canavieiras vendem às redes de distribuição de energia o excedente de 3 milhões de quilowatts.
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Tags: ambiente, biocombustível, etanol, meio, sustentabilidade
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