LILIAN MILENA
Da Redação - ADV
Jovens em idade escolar abandonam estudos mesmo tendo condições financeiras para prosseguir. O motivo está ligado a falta de conhecimento quanto aos benefícios da educação sentidos ao longo dos anos. Os adolescentes querem respostas rápidas as suas necessidades sociais e escola e comunidade ainda não foram capazes de provar a importância da formação para o futuro profissional.
Cada ano de estudo equivale a 15% a mais no valor do salário. A trajetória média da remuneração por nível educacional vai desde os R$ 392 dos analfabetos até os R$ 3.469 daqueles que já freqüentaram a pós-graduação. Ainda assim, a cada cinco jovens entre 15 e 17 anos que se matriculam nas escolas, um abandona os estudos.
A conclusão foi divulgada no relatório “Motivos da evasão escolar”, do Centro de Pesquisas Sociais da Fundação Getúlio Vargas (FGV), e coordenado pelo economista Marcelo Neri. Quando foram comparadas pessoas com as mesmas características sócio-demográficas (sexo, idade, raça e geografia), os salários dos universitários foi 544% superior ao dos analfabetos, e a chance de ocupação, 422% maior entre um grupo e outro.
Segundo o estudo, na faixa etária dos 15 a 17 anos “residem os maiores obstáculos para a repulsão escolar e onde começam a se multiplicar os fatores de atração trabalhista”. Em entrevista, feita para a Pesquisa Nacional por Amostra Domiciliar (Pnad), pais e adolescentes apontaram que os fatores que mais influenciam para o abandono dos estudos são: dificuldade de acesso à escola (10,9%); necessidade de trabalho e geração de renda (27,1%), falta intrínseca de interesse (40,3%), e outros motivos (21,7%).
Os dados obtidos pela Pnad permitem visualizar que a necessidade de geração de renda (27,1%), ao contrário do que se esperava, não é o principal motivo do abandono aos estudos. A falta de interesse, aparece em destaque, “talvez por desconhecimento dos potenciais prêmios oferecidos pela educação”, aponta o relatório da FGV.
Dessa forma, as políticas de oferta de crédito educativo, concessão de bolsas ou de transferências – como o programa Bolsa Família –, teriam impacto em menos de um terço das pessoas de 15 a 17 anos que estão fora da escola.
Principais motivos
Um dos motivos do abandono escolar é a falta de conhecimento quanto aos ganhos reais da educação. Além disso, o processo de aquecimento do mercado de trabalho brasileiro, em especial na última década, somada a má distribuição de renda entre as famílias, teriam condicionado o jovem a se interessar mais pela busca do primeiro emprego, vendo no mundo do trabalho uma porta de entrada para a sociedade do consumo.
A doutora em Ciências da Comunicação pela USP e especialista em Comunicação e Trabalho, Roseli Aparecida Figaro, explica que a maior parte da sociedade brasileira ainda não reconhece a instituição de ensino como um lugar para o desenvolvimento da autonomia do sujeito, por esse motivo, não só a falta de estrutura nas escolas, mas as próprias famílias são responsáveis pela evasão escolar, ao não reconhecerem a educação como fundamental para o futuro profissional dos filhos.
“Na cultura popular, tanto rural quanto urbana, o trabalho é uma necessidade que se coloca muito precocemente para a pessoa. É uma necessidade econômica, que visa a proporcionar autonomia em relação à família, ao mesmo tempo, que ajuda a provê-la; mas é também uma forma de sociabilidade, de formação”, explica Figaro.
Priorizar os estudos, seria uma prática nova para as famílias das classes populares. A psicopedagoga e orientadora familiar do Instituto Sedes Sapientiae, Geórgia Vassimon, afirma que a família, professores e pedagogos constituem a base fundamental para manter a freqüência dos alunos nas salas de aula.
Uma pesquisa feita em duas escolas públicas da região metropolitana de São Paulo, onde estudam cerca de dois mil alunos – acompanhada de perto pela pesquisadora Vassimon – confirmou que os estudantes ainda não são capazes de relacionar a importância dos estudos as suas vidas profissionais.
“Principalmente nos grandes centros urbanos, fica muito claro que a escola é colocada em segundo plano. O trabalho, ainda mais entre as classes desfavorecidas, é o que vai responder pelo sustento do dia a dia. Não existe um projeto para o futuro, por isso é importante trabalhar em cima de novas perspectivas do jovem sobre a escola”, ressalta.
A reafirmação pelo consumo
Roseli Figaro, acrescenta ainda que o forte “apelo ao consumo” é o que leva adolescentes de 15 a 17 anos a trocarem os bancos escolares pelo trabalho, mesmo que tendo condições sociais para prosseguir. “Fazer parte de uma turma requer portar marcas, adquirir determinados bens, sobretudo mídias, freqüentar determinados ambientes, o que requer recursos”, coloca.
Portanto, por mais que políticas públicas sejam importantes para apoiar famílias carentes com jovens em idade escolar, elas não atendem a todas as demandas “de uma sociedade tão desigual como a nossa”, completa.
De fato, a pesquisa da FGV conclui que se 40,3% das pessoas de 15 a 17 anos abandonam a escola, não por falta de renda, mas por desinteresse nos estudos, o trabalho tanto de professores quanto do poder público, deve ser esclarecer os benefícios da educação para alunos e seus familiares. Isso porque, como destaca a psicopedagoga Vassimon, “o conteúdo educação é muito amplo e sua responsabilidade não deve ser reduzida apenas à família, mas também à comunidade. E as decisões de políticas públicas podem contribuir muito para isso”, finaliza.
Tags: consumo, educação, gestão, pública, trabalho
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