Meus amigos, é muito bom quando vocês chegam em casa e podem subir os dez andares de elevador, abrir a porta do apartamento, ligar a luz, ir na geladeira, beber uma cerveja gelada, tomar um banho quente no chuveiro elétrico, esquentar a refeição no forno de microondas, ir ver um bom filme no vídeo, sentar no computador e ficar navegando na internet e, ao final, dormir sossegados no bem bom do aparelho de ar condicionado.
Contudo, para que vocês possam desfrutar dessas maravilhas modernas é necessário que haja um sistema extremamente complexo que permita que, no momento em que vocês ligarem qualquer dos aparelhos eletrodomésticos citados no parágrafo anterior, seja gerada e transportada instantaneamente a energia elétrica que vocês precisam.
Na medida em que a energia elétrica não pode ser estocada em grandes volumes, não tem jeito, a sua geração, o seu transporte e a sua utilização têm que ocorrer simultaneamente.
Vamos supor que para atender tudo o que vocês podem demandar de eletricidade, eu precise gerar e transportar um fluxo de 100 Watt (W). Isto significa que eu tenho que ter uma capacidade instalada de 100 W de geração e transporte.
Pois bem, agora vamos imaginar que vocês mantenham todos esses aparelhos ligados ao longo de todas as 24 horas do dia. Isto implica que durante este período vocês irão consumir um total de 2.400 Watt hora (Wh). Em suma, durante o período de um dia vocês demandam um fluxo de intensidade de 100 W (potência) por 24 horas (tempo) seguidas e consomem 2.400 Wh (energia).
Trocando em miúdos, além da capacidade instalada de 100 W de geração, para satisfazer vocês eu tenho que ter uma fonte de energia que eu possa usar nesta planta que me permita produzir os 2.400 Wh que vocês consomem.
Essa fonte pode ser um estoque ou um fluxo.
Se a nossa fonte for um estoque (óleo combustível, por exemplo), eu só preciso ter uma quantidade dela armazenada que corresponda a 2.400 Wh, para ir usando-a ao longo do dia e, dessa forma, gerar toda a energia que vocês precisam.
Notem que nessa solução, assegurar que vocês tenham a energia que vocês necessitam é mais fácil, já que eu tenho a capacidade instalada (100 W) e o insumo energético estocado (2.400 Wh de óleo combustível).
Em termos de segurança de suprimento de energia elétrica, essa configuração é bem mamão - com- açúcar. Saiu disso, já começa complicar.
Vamos imaginar que a nossa fonte não seja mais um estoque, como o óleo combustível, e passe a ser um fluxo.
Nesse caso, se vocês vão continuar demandando um fluxo de energia elétrica com uma intensidade de 100 W durante todo o dia, eu vou ter que ter que arrumar uma fonte que me garanta um fluxo de intensidade de 100 W durante todo este período. Se isto não acontecer, vocês vão ficar sem energia para as suas necessidades.
O problema é que as fontes que se apresentam como fluxo – hidráulica, eólica, solar – não são tão bem comportadas como gostaríamos.
É possível que durante uma parte do tempo simplesmente não chova, não vente, não faça sol. E aí? O que é que a gente faz?
Bom. Algumas dessas fontes a gente pode armazenar -como é o caso da energia hidráulica. Assim, a gente constrói um reservatório, de tal forma que quando a intensidade das chuvas for maior do que aquela que a gente precisa, a gente armazena a água para usar quando essa intensidade for menor. Enfim, guarda-se a água dos momentos de abundância para usá-la nos momentos de escassez. Quanto maior a nossa capacidade de armazenamento, maior a nossa capacidade de regularização do fluxo, portanto, menor a nossa dependência imediata de São Pedro.
Contudo, não se iludam. A água que entra no nosso reservatório continua vindo das chuvas, portanto, estamos condenados, de um jeito ou de outro, a ter que prever o comportamento delas. Ou seja, querendo ou não querendo, no final das contas a gente tem que manjar de São Pedro.
Meus amigos, se vocês acham que isto é fácil, esqueçam. Nós lidamos com isso desde que a Light no início do século XX começou a construir as primeiras grandes barragens no Brasil, lá se vão mais de um século, porém, continuamos apanhando. Para constatar isso basta ver o
post anterior deste blog. Ali vocês vão poder ver que rapadura é doce, mas não é mole não.
Naqueles fluxos, como é o caso da energia dos ventos, que não se tem como fazer regularização, a gente depende inteiramente do comportamento da sua intensidade. E aí não tem meu – pé – me - dói: se venta, tem energia, se não venta, não tem energia.
Em função disso, não tem jeito, no período em que não ventar, outra central, que use outra fonte de energia, terá que cobrir a energia que não está sendo gerada pela planta eólica.
Agora, o problema é que para definir como vai se dar essa cobertura eu tenho que saber muito bem qual é o comportamento dos ventos, de forma a armar o esquema que vai garantir o suprimento de energia final. Enfim, adotando o sincretismo religioso, tenho que manjar de Iansã, a rainha dos ventos.
Assim, meus amigos, a gente pode ter três plantas com a mesma capacidade instalada de geração (100 W) – uma térmica, uma hidráulica e uma eólica – que, de fato, geram quantidades de energia completamente diferentes – térmica: 2400 Wh; hidráulica: 1200 Wh; eólica: 720 Wh -; em função das disponibilidades diferentes ao longo do tempo dos insumos energéticos que as movem – térmica: 100 %; hidráulica: 50 %; eólica: 30 %, por exemplo.
Desse modo, usar energias renováveis para gerar eletricidade é bom, mas exige uma configuração de segurança que não tem nada de simples. No final das contas, eu sempre vou ter que ter uma térmica velha de guerra que cubra as indisponibilidades naturais desse tipo de fontes. O seu papel é o daquele jogador que compõe a última linha de defesa é que cobre as falhas dos outros jogadores.
A montagem dessa última linha de defesa exige que eu saiba muito bem como jogam os jogadores que eu tenho que cobrir. Esse conhecimento é fundamental, caso contrário, eu posso ter excesso de defesa, que torna o sistema de segurança muito caro, ou falta dela, que torna meu sistema vulnerável. O primeiro caso aumenta a tarifa e quando a conta chega a casa de vocês é a maior chiadeira. O segundo faz com que vocês tenham que subir os dez andares de escada porque faltou luz e aí a chiadeira é maior.
Em suma, a nossa matriz de geração elétrica é uma das mais limpas do mundo. Usar fontes renováveis e intermitentes é um troço que a gente manja. Afinal, já fazemos isso há mais de um século. Por isso mesmo sabemos das dificuldades envolvidas nesse uso.
Nesse sentido, introduzir mais fontes renováveis na nossa matriz torna a gestão do nosso sistema e a segurança do suprimento mais complexas, e não mais simples. Isto significa que o papel das térmicas vai se tornar cada vez mais decisivo. Isto já está acontecendo com as dificuldades crescentes para a construção de novas hidrelétricas e com a redução do tamanho dos seus reservatórios e vai aumentar com a introdução de fontes como a eólica e a biomassa.
Portanto, há uma grande distância entre o discurso politicamente correto de aumentar de forma significativa a participação das energias renováveis na nossa matriz elétrica e as dificuldades e os custos reais de fazê-lo. Principalmente, quando a referida matriz já tem uma participação extremamente elevada de energias renováveis e, portanto, intermitentes.
Desse modo, adotar simplesmente o discurso dos países desenvolvidos, que têm matrizes de geração elétrica muito menos renováveis do que a nossa, sem levar em conta as nossas especificidades, pode ser muito bom para sair bem na foto, mas em termos de compromisso com a garantia do suprimento da energia necessária para o nosso desenvolvimento econômico e o bem-estar da nossa gente é muito pouco efetivo e esconde os custos e as dificuldades reais dessa proposta.
Isto não significa que eu seja contra a incorporação das chamadas novas renováveis na nossa matriz elétrica, mas, apenas que isso seja feito a partir de uma visão que privilegie todo o conjunto de recursos naturais que nós dispomos, que seja levada em conta toda a diversidade da nossa dotação natural.
Este é o nosso grande desafio e para ele não existem receitas prontas e acabadas, apenas um longo e difícil processo de aprendizado técnico, organizacional e institucional.
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