Gago Apaixonado(*):Nada chega perto do frescor de Noel Rosa

Quinta, 23 de setembro de 2010, 08h07
Terra Magazine


Paulo Costa Lima
De Salvador (BA)


Estamos em pleno centenário de Noel Rosa. Várias homenagens tem sido prestadas em todo o Brasil. Aproveitamos a oportunidade para refletir sobre seu papel e os múltiplos significados de sua trajetória, e isso através da 'divinação analítica' de uma de suas pérolas: O Gago Apaixonado.


Devo, não nego, uma crônica dedicada a Noel Rosa. Sua presença constante no cenário da música popular reafirma uma condição ímpar. A trajetória de vida não fica atrás: produziu mais de duas centenas de canções num período de sete anos, morrendo antes de completar 27 (1910-1937) - um verdadeiro vulcão. Chico Buarque reconhece que vem de sua lavra uma primeira formatação da canção popular no Brasil.

No entanto, pensar em Noel como patriarca fundador é um tanto estranho porque ele constrói um personagem tão malemolente, irônico, gozador, anárquico - dizem que gostava de escrever versões pornográficas do Hino Nacional - que espécie de pai seria?

É claro que no Brasil a figura do pai anárquico ocupa um lugar importante no imaginário**. A falta de coesão social resultou num grande vazio de força simbólica unificadora - fomos Colônia por vários séculos, e reunimos num mesmo território gente de culturas muito distintas. Xangô e Descartes nem sempre se entendem! Então, muitas vezes a liderança precisou ser exercida ao contrário, ao arrepio da sisudez e dos 'bons costumes'. No contrapelo dos limites.

É o que anuncia há mais de trezentos anos a figura de Gregório de Mattos, em sua recusa de ser porta-voz da oficialidade cultural, religiosa ou política. Traços semelhantes reaparecem em personagens e situações diversas a exemplo de Vadinho de Dona Flor, Macunaíma (herói sem caráter), ou na centralidade do carnaval (festa de alegria e de anarquia), e ainda na figura do malandro.

Ora, Noel está muito ligado ao mundo da boemia e da malandragem carioca do início do século XX. E exerceu sim, diversas vezes, o papel de reverberação de contra-discursos. Um dos mais densos e candentes é o que segue:


Quanto a você / Da aristocracia / Que tem dinheiro / Mas não compra alegria
Há de viver eternamente / Sendo escravo dessa gente / Que cultiva hipocrisia

Gosto de entender a canção 'Gago Apaixonado', uma de suas criações mais interessantes, como parte desse cenário. Imperdível conferir a gravação original, feita em 1931. Quase 80 anos depois e nada chega perto do frescor de sua originalidade - é samba, chorinho, modinha lírica, e não dispensa trejeitos de New Orleans, tudo no melhor estilo. Mas, sobretudo, lá está a voz e a presença irradiante de Noel.

 

Noel Rosa - Gago Apaixonado (1930)

 

 

 


A inteligência composicional da canção coloca em primeiro plano a situação hilária de um gago, extravasando sua decepção amorosa***, e olha que os gagos geralmente cantam sem tropeçar. Mas há outras leituras relevantes.

Trata-se de um gago paradigmático. Quem é que alguma vez não se engasgou com a paixão? A paixão faz engasgar, gaguejar, praguejar - e eis que o nosso personagem acaba afirmando que sua 'amada' vai ficar corcunda. Nesse sentido, rir do gago é rir da própria condição humana.

Um detalhe importante: a amada não recebe nome. A canção mudaria de perfil se fosse dirigida a uma mulher específica (Rosa, Marina, Rita...) como é tão comum no repertório romântico. Noel deixa o objeto da paixão no seu nível mínimo de personalização: mu-mu-mulher. Prevalece o lado passional, do qual a gagueira faz parte.

A série de rimas que acompanha esse processo é bastante sugestiva: estrago / gago / afago. A palavra 'estrago' é um capítulo em si mesmo****. O gago fica espremido entre o estrago e o afago. Não espanta que sua voz falhe. Ouve-se na gravação que Noel dá uma entonação toda especial à palavra afago, quase um arrepio, fazendo ainda por cima uma pequena cesura.

Outras séries de sonoridades significativas ampliam o processo. Na série 'crueldade/da saudade/que maldade', a repetição gaguejante acentua o ridículo e quase intoxica. Em outra direção surgem sonoridades mais pesadas, quase grosseiras (o estrago está feito): 'moribundo/vagabundo' até 'tu vais ficar corcunda'. Tudo isso torna a palavra 'afago' a única recordação doce (embora chorosa) de todo o episódio.

A segunda direção de leitura pode ser vislumbrada a partir de um insight inesperado. As situações constrangedoras para o gago vão se acumulando. A mais pungente é, sem dúvida alguma, o gesto final, onde o pronome 'tu' dá origem a uma bravata melódica: tu, tu, tu ,tu, tu ,tu ,tu ,tu, tu tens....

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Qual não é a surpresa quando nos damos conta que esse gesto finalizante evoca uma cadenza de ária de ópera*****. Ele navega pelos extremos da nota da Dominante (ré4 - ré3), e depois dos cromatismos de praxe, encerra com uma fórmula consagrada para arrancar aplausos das platéias: fi-fi-fin-gi-do.

Uma ária de bravura. O gago está bravo que nem só. Mas, ao mesmo tempo, é um gesto de samba. Sua rítmica chega a lembrar o samba de breque. Estamos em plena interface antropofágica?

Rindo do gago, estamos rindo também do cenário lingüístico onde ele trafega - um romantismo de gosto duvidoso e soluções piegas. Vale lembrar que o personagem de 'Conversa de botequim' não precisa de nenhuma moldura parnasiana. Fala em 'manteiga à beça', em 'média requentada', ou seja, é a linguagem do cotidiano, da vida - aliás, uma bandeira de Noel.

Mas o gago deriva parte de seu humor justamente desse absurdo. Alguém em sua condição, ainda ter que lidar com 'tu tens', 'teu coração me entregaste', 'depois de mim tu tomaste' - é demais para um pobre mortal. O gago acaba ridicularizando essa representação lírica que oblitera a realidade social em favor de 'uma hipocrisia que escraviza'. Que bálsamo ouvir o gago estropiar a sentimentalidade do 'co-co-ração'. Nesse sentido, a voz de Noel é modernista.

Por isso, os ritmos que desorganiza para criar o efeito da gagueira podem ser considerados como um experimento de crítica da representação. Como algo 'original', que nem os vizinhos ou papagaios conseguiriam reproduzir - tal como disse orgulhoso o próprio Noel a um jornalista.

Seriam, dessa forma, frestas de criação musical. E assim como a crítica da retórica vazia e a defesa da linguagem cotidiana prenunciam a bossa nova, esses ritmos tortos de gago, prenunciam essa incrível mania transformada em excelência e arte por João Gilberto, de imaginar que qualquer coisa pode ser tempo forte.
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* O artigo contou com a leitura prévia e comentários de Tuzé de Abreu, que sempre pensou a música popular brasileira a partir da seguinte trilogia: Noel / Caymmi / Gonzaga.

** Sendo a figura do tirano seu contraponto necessário.

*** Vale lembrar que o compositor checo Bedrich Smetana, coloca no palco um personagem gago, na famosa 'The Bartered Bride'. Essa ópera foi muito badalada pelo mundo afora, inclusive no Rio de Janeiro.

**** Lembro aqui de Mariana, nascida no interior da Bahia (Itiuba) e uma grande amiga da minha família. Ela usava essa expressão para fazer referência à ameaça feita por alguma mulher de capar um macho. Eis aí o pano de fundo da palavra 'estrago'.

***** Também aparentadas com as cadências da forma Concerto.




Paulo Costa Lima é compositor. Pesquisador pelo CNPq.
Professor de composição da Universidade Federal da Bahia.

www.myspace.com/paulocostalima
http://www.paulolima.ufba.br/

Fale com Paulo Costa Lima: paulocostalima@terra.com.br

 

Fonte: Terra Magazine

 

 

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