Gás e eletricidade: casamento duradouro ou amizade passageira?

A vigorosa expansão da indústria elétrica no mundo durante o século XX deve muito à flexibilidade do conjunto de tecnologias de geração. Graças a ela, foi possível adequar a expansão dessa indústria à diversidade das dotações dos recursos naturais.

Assim, se o país tinha um grande potencial hidráulico, havia uma tecnologia de geração – a turbina hidráulica – que permitia a construção da sua indústria elétrica baseada neste recurso. Se o país detinha grandes reservas de carvão, ou de petróleo, ou de gás, ou mesmo um grande potencial de biomassa, existia uma tecnologia – a turbina a vapor – que permitia, em suas várias configurações, a obtenção de energia elétrica a partir desses recursos.

Além disso, quando havia uma oferta estrutural de uma determinada fonte de energia no mercado internacional, em termos de disponibilidade farta e preço barato, o conjunto de tecnologias de geração disponível permitia aproveitar essa situação duradoura de abundância em prol da expansão elétrica.

A introdução e difusão da turbina a gás a partir dos anos 1980s alterou esse quadro tradicional de flexibilidade das tecnologias de geração e, por conseguinte, da própria indústria elétrica.

A confluência da generosa disponibilidade de gás na Europa e nos Estados Unidos e do encurtamento do horizonte das decisões de investimento, acirrado pelo processo de reforma do setor elétrico, atuou fortemente no ambiente de seleção das tecnologias de geração, privilegiando a turbina a gás – mais compacta, eficiente e limpa do que as térmicas convencionais - como a grande solução para a expansão da geração de eletricidade.

Este fato introduziu uma rigidez até então desconhecida na indústria elétrica, que passou a depender, cada vez mais, da oferta de gás para a sua operação e expansão. Dessa forma, a flexibilidade e a adaptabilidade às dotações naturais, assim como a capacidade de aproveitar condições favoráveis no mercado de combustíveis, desapareceram do cenário dessa indústria que passou a estar sujeita, de forma crescente, ao suprimento de uma única fonte: o gás natural.

No entanto, essa solução rígida, para ser sustentável no tempo, depende da manutenção dessa oferta em patamares confortáveis, tanto em disponibilidade quanto em preço. Caso contrário, o que era solução passa a ser um problema. E aqueles fatores que empurraram a indústria elétrica em direção ao gás passam a empurrá-la para fora dele.

Contemplando o futuro, a pergunta que se coloca é a seguinte: Será que a indústria elétrica irá abandonar a flexibilidade histórica da sua expansão, em nome da recém adquirida fidelidade ao gás; ou será que essa fidelidade foi apenas um interregno na sua evolução, com a mudança radical na disponibilidade do gás apontando para o desembarque no longo prazo da indústria elétrica dessa opção de geração?

A resposta a esta questão não é simples, contudo, tem importância tanto para a indústria de eletricidade quanto para a indústria de gás. Principalmente no que diz respeito à sua expansão; quer através de gasodutos, quer através do GNL. Considerando que é inegável a preponderância da geração elétrica no dinamismo do mercado de gás nas últimas décadas, mudanças significativas no front elétrico poderão ter fortes impactos no futuro desse mercado.

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