CANTORA: GLAUCIA NASSER

DISCO: VAMBORA

Glaucia Nasser é uma garota de sorte. Em um belo dia, há muitos anos atrás, foi assistir a um show com os amigos. Só que a vocalista da banda não foi cantar. E agora? Glaucia subiu ao palco, substituiu a cantora e encarou pela primeira vez uma plateia de verdade. Maktub.

 

Mineira de Patos de Minas, sua carreira já acumula quatro discos, shows fora do Brasil, prêmios, elogios públicos de um dos maiores jornalistas do Brasil, Nelson Motta, e principalmente, um trabalho construído pelo viés da qualidade, onde uma cantora e compositora ligada com o seu tempo constrói a sua obra de acordo com o tempo cedido pela arte.

 

Atualmente, Glaucia encontra-se em estúdio gravando o seu 5° disco. Enquanto ele não sai, vamos falar do seu último disco, “Vambora”, que foi lançado em outubro de 2010. Dois anos e um mês se passaram, mas a mensagem continua atual. As canções continuam fazendo sentido. E isso é muito bom nessa época em que vivemos, onde o supérfluo predomina, principalmente nas canções e tevês. É um disco onde as letras nasceram com a ajuda de compositores diversos, indo de Edu Krieger a Carlos Careqa, passando por Tiago Vianna e Carlos Rennó, dentre outros. Duas regravações íntimas e pessoais de repertórios alheios sincronizam com esse trabalho: “Pensando em você” e “Mais uma vez”.

 

“Vambora” sintetiza elementos e ritmos diversos da música brasileira a partir da ótica de uma moça esperta, que dá a cada interpretação a dose certa de emoção, tratando o seu repertório como ele merece de verdade. A voz aveludada preenche de vida composições que ninguém interpretaria melhor do que ela mesma. As parcerias nas composições acrescentam e somam ao seu mundo. Sem pressa, Glaucia construiu um disco que te ganha aos poucos.

 

Com destaque para o clarinete, “Canto, logo existo” (Glaucia Nasser, Tiago Vianna e Carlos Rennó) é uma canção bem propícia para começar esse disco: “Por cantar eu existo, eu canto por isto, não desisto de cantar, ao cantar não resisto, me rendo a isto, é mais forte que pensar, em cantar eu insisto”. O arranjo diversificado e bem feito funciona como um elo para as mudanças de andamento: partes faladas e outras mais lentas.

 

“Malandra” (Glaucia Nasser, Tiago Vianna e Edu Krieger) inicia-se de maneira discreta, bem suave. Um charme. O arranjo vai ao embalo da interpretação que segue o mesmo tom gostoso do início dessa faixa.  O flerte bem sucedido com o samba imprime mais vigor ainda.

 

“Olhar de prata – Líbano” (Glaucia Nahsser, Tiago Vianna e Chico Amaral) tem uma das melhores e mais inspiradas letras desse disco. O seguinte trecho exemplifica isso: “quanto tempo pra cruzar, a fronteira entre nós, meu caminho sai do mapa, busca uma paragem, sem ter pressa de chegar, pra guardar aquele olhar de prata, na madrugada, pra trilhar aquela longa, longa estrada, pra fugir na noite aberta”. O refrão envolvente, mais a voz que vai crescendo, iluminam essa canção. Algo mágico acontece...

 

Quer tomar um banho de samba? Comece por “Quebradeira” (Glaucia Nasser e Carlos Careqa). Ouvindo essa, o corpo começa a se movimentar obedecendo ao ritmo. Tem um verso interessante por demais: “a santa vai sair do altar”. E se fosse só instrumental ainda daria para dançar. Envolvente mesmo.

 

“Pensando em você” (Paulinho Moska), clássico do repertório do Paulinho, ganha uma regravação pessoal e intransferível da Glaucia. Ouvindo-a, logo concluímos: essa música necessitava de uma cantora. Algo acontece dentro do ouvinte. A simplicidade e a sutileza da interpretação dela basta e pronto. A letra ganha um novo sentido. A canção passa a ser dela.

 

“Vambora” (Glaucia Nasser, Tiago Vianna e Chico César) ganhou um arranjo forte, inspirado. A interpretação “soturna” é estranhamente sedutora.  Uma das melhores do disco (também). O jeito diferente que ela interpreta essa faixa, apoiado pelo arranjo, dá uma sensação ótima. Canta com mais força e entrega, enfatizando a palavra “amor” como quem possui algo valioso que não pode perder jamais.

 

“Daqui pra frente” (Glaucia Nasser, Tiago Vianna e Alexandre Lemos) é meio hipnótica. Canta-a exprimindo uma dor, como se fosse uma espécie de angústia, ou um sentimento que precisa ser defenestrado. As oscilações da voz provocam reações imediatas no ouvinte. A letra mostra uma bagunça sentimental inerente a pessoas intensas: “a miragem paira sobre nós, se você não sabe, tudo cabe na minha voz, é de pedra e não tem jeito de quebrar, é de vento e nem você vai me pegar, é de sal e vira mar, é de lua e tá guardado em meu olhar, é de fogo e eu preciso me queimar, vira asa pra voar”.

 

“Roda” (Glaucia Nasser, Tiago Vianna e Rodrigo Bergamota) é a faixa mais “solar” desse disco. Depois de uma faixa densa e noturna, essa mostra a esperança, positividade e coisas boas numa maneira geral: “chega de esperar o vento, vou partir e procurar água fresca, outra gente. Me livrei do tempo lento, fiz a bolha estourar, vi brotar uma nascente, eu olhei, ao amanhecer, claro céu, imenso mar”. Um belo contraponto para as coisas ruins da vida.

 

Especialmente em “Leleô” (Glaucia Nasser, Tiago Vianna e Magno Mello) o arranjo valoriza ainda mais a voz da Glaucia: como se estivessem de mãos dadas. Mudanças de andamento tornam essa faixa mais interessante ainda. Ganha destaque o coro de Marcio Nigro, que também cuida, nessa música, do violão, bandolim, guitarra, teclados, samplers e programação.

 

“O começo do infinito” (Glaucia Nasser, Tiago Vianna e Carlos Careqa) é mais uma canção que traduz o que a Glaucia Nasser é: “sou estradeira, meu destino é por aí”. Logo, a letra parece uma biografia poética dela, como os seguintes trechos afirmam: “quando a vida é vivida, é bem melhor, e pra quem ouve, este é o meu ofício, o precipício faz voar”.

Essa mesma letra é a melhor do disco: desperta imagens, faz refletir, é bonita na medida certa (mesmo que para essas coisas não existam medidas exatas) da emoção. A voz dela vai buscando as matizes dessa composição, e nessa busca o ouvinte é convidado para seguir junto gratuitamente, só cedendo o coração.

“Quem me falou?” (Glaucia Nasser, Tiago Vianna, André Abumjanra e Marcio Nigro) é a faixa que melhor mostra a potência vocal da Glaucia. O arranjo e a interpretação dela parecem “brigar” num baile. É uma música pra cima que tem um verso particularmente delicioso: “vou virar o jogo, pular no fogo, me embriagar de mel”. A letra te desperta a fazer o que ela descreve: “vou virar do avesso, tirar o gesso, deixar de ser um réu, respirar bem fundo e girar o mundo, brincar de carrossel”. Também  destaca-se muito nesse disco.

 

“Mais uma vez” (Flávio Venturini e Renato Russo) é interpretada com tanto frescor, que faz parecer que essa canção foi feita ontem. Como não acreditar na doçura deum canto que diz que “quem acredita sempre alcança”? Impossível não se entregar. É uma regravação bem gostosinha que faz o ouvinte se pegar cantando-a sem querer.

 

A última faixa consiste em um “bônus track” com a participação de Edu Krieger para “Malandra”, que aqui aparece num arranjo diferente. Mesmo sem uma voz marcante, o convidado especial se sai bem cantando com ela. A impressão que fica é que eles cantam sorrindo um para o outro.

 

Quer conhecer melhor o trabalho da Glaucia Nasser, Clique Aqui

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Comentário de Laura Macedo em 15 novembro 2012 às 20:10

Glaucia,

Parabéns pelo trabalho do qual sou admiradora.

Em 2011, aqui no PNL, fiz, também, uma divulgação do seu excelente trabalho. Veja, aqui.

Abraços.

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