Granma: A nanotecnologia em Cuba

Publicado no Vermelho

Força motora do que para muitos pesquisadores pode ser a revolução industrial mais transcendente dos últimos duzentos anos, a nanotecnologia foi potencializada, em seus inícios, por diferentes ramos da indústria militar do reduzido grupo de países altamente industrializados que, liderados pelos Estados Unidos, dispõem dos meios e a ambição do poder global.

Por Orfilio Peláez, no Granma


O anterior, embora menos divulgado e circunscrito, atualmente, a iniciativas estratégicas nacionais, teve como objetivos principais miniaturizar o armamento nuclear, melhorar blindados, o desenvolvimento de novas técnicas de camuflagem e coletes antibalas mais efetivos e leves, para a proteção dos soldados, e obter medicamentos capazes de controlar, de maneira imediata, as hemorragias e curar outras classes de lesões, a fim de garantir a plena capacidade combativa das tropas, nas circunstâncias mais difíceis.

Levando em conta as chances que oferecia a possibilidade de criar novos materiais ou transformar as propriedades dos já existentes, a partir da manipulação de estruturas moleculares e átomos, na escala nanométrica, onde 1nm é a milionésima parte dum milímetro, a nanotecnologia, termo definido, em 1974, pelo cientista japonês Norio Tamiguchi, ampliou seu campo de aplicações ao estender-se, progressivamente, ao setor aeroespacial, automobilístico, aos novos materiais, a eletrônica e as comunicações, geração de energia, saúde humana, alimentação, meio ambiente e à indústria de cosméticos.

Nos últimos anos, Cuba também incursionou no mundo do “diminuto” e por estes dias o Palácio das Convenções, de Havana, acolhe o 4º Seminário Internacional de Nanociências e Nanotecnologias. Para conhecer acerca de seu impacto e projeção internacional, e a atividade do país num campo tão promissor, o jornal Granma conversou com o assessor científico do Conselho de Estado e presidente do Comitê Organizador do evento, doutor em Ciências (DSc) Fidel Castro Díaz-Balart.

Qual é o estado atual da nanotecnologia no mundo e quais setores foram os mais beneficiados com suas contribuições?
“A nanotecnologia derrubou barreiras do que até apenas alguns anos se considerava pura ficção científica e hoje já mostra avanços concretos no design de tecnologias mais eficientes para tornar potável a água, a contínua miniaturização dos circuitos integrados utilizados em computadores e sistemas de transmissão de dados, e na obtenção de métodos mais ótimos no referente ao uso e conservação da energia”.

“Também há resultados animadores no desenvolvimento de meios diagnósticos avançados e novos fármacos, capazes de atuar de maneira seletiva no local específico onde houver uma lesão, tornando mais efetivos os tratamentos, com menos efeitos adversos (os chamados medicamentos alvos). Mas, apesar dos impactos mencionados, continua num estágio de pesquisa-desenvolvimento, liderado por grandes companhias norte-americanas, europeias e japonesas”.

“Para o ano 2015, o mercado internacional de produtos que tenham incorporados componentes nanotecnológicos superará os US$3,2 bilhões, enquanto sua consolidação definitiva, como indústria pujante, deveria ocorrer a partir de 2020 até 2025”.

“É conveniente salientar que, embora em publicações científicas, com notáveis diferenças, haja maior participação por regiões e países, a maioria das patentes outorgadas no planeta, nessa área, é para os Estados Unidos, a União Europeia e o Japão. Além de acentuar a tendência a privatizar o conhecimento e tornar mais onerosa sua transferência, tal panorama manifesta a enorme brecha tecnológica existente entre nações ricas e pobres, nas chamadas tecnologias habilitantes, em primeiro lugar a nanotecnologia, a qual pode agravar-se mais e chegar a um ponto sem retorno.

“Mudar esta situação desfavorável constitui um desafio urgente para os países em vias de desenvolvimento, que têm nas nanotecnologias a possibilidade de conseguir métodos mais limpos e baratos de produzir e armazenar energia, obter água potável, incrementar a produtividade agrícola e diagnosticar doenças”.

Que fatores fundamentam que em meio duma situação econômica tão complexa e dado os custos elevados que supõe incursionar nessa área, Cuba trabalhe na nanotecnologia?
“Os ritmos em que irrompem o novo conhecimento e as inovações científicas e mudanças tecnológicas são hoje tão acelerados, que se a partir de agora não criamos a infraestrutura apropriada aos fins previstos e formamos os especialistas para trabalhar em tão promissória disciplina, corremos o risco de ficar irreversivelmente excluídos do mundo do amanhã”.

“Como expressei há alguns dias, para sermos competitivos e conseguirmos um desenvolvimento futuro sustentável, baseado em nossas produções intelectuais, não se pode ignorar a nanotecnologia, pois nela convergem todas as ciências básicas, combinadas com as cada vez mais avançadas tecnologias, a bioinformática, bioengenharia e outras áreas do conhecimento, que vão transformar a indústria e os serviços, nas próximas décadas”.

“Igualmente, Cuba tem a vantagem de contar com um amplo grupo de cientistas, engenheiros e técnicos altamente qualificados em universidades e instituições de pesquisas e numa rede de instituições de primeiro nível dedicadas à biotecnologia, e à indústria farmacêutica, agrupadas no Polo Científico do Oeste, que operam com o ciclo completo de pesquisa-produção e comercialização”.

“Nelas, foram obtidos mais de 70 novos resultados, que incluem anticorpos monoclonais, vacinas, equipamentos médicos, meios para diagnósticos, e medicamentos, alguns únicos no mundo como o Heberprot-P, o Nimotuzumab, etc., e protegidos com propriedade industrial, os quais tiveram um notável impacto no melhoramento dos indicadores de saúde da população. Portanto, temos todo um caminho adiantado de conhecimento prévio e avanços científicos consolidados”.

“Pelo impacto social e econômico e o excelente sistema de saúde desenvolvido, é compreensível que sejam a nanobiotecnologia e a nanomedicina os pontos focais do desenvolvimento nacional nessa área, sem que isso signifique voltar as costas aos temas da energia, dos estudos ambientais e da procura de novos materiais vinculados. Já há centros, como o de Imunologia Molecular e de Imunoensaio, que utilizam a nanotecnologia na pesquisa de novos fármacos contra o câncer e para multiplicar, de maneira considerável, as possibilidades de diagnosticar um maior número de doenças, a partir duma amostra de sangue, com a tecnologia SUMA, respectivamente”.

Qual o andamento do Centro de Estudos Avançados de Cuba (CEAC), que preparação recebe o pessoal que trabalhará ali? Em sua criação foram levados em conta os critérios de várias entidades pertencentes ao Ministério do Ensino Superior, do Citma e espaços noutros organismos com experiência em nanotecnologia?
“Na concepção do CEAC foram escutados só critérios oferecidos e as recomendações dum grupo de dirigentes de instituições pertencentes ao Polo Científico, à Universidade de Havana, e ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Meio Ambiente, por mencionar alguns exemplos. Foi um projeto conciliado como resultado da participação direta dos atores afins, sem nenhuma improvisação, enfoques preconcebidos ou exclusões”.

“Também foi levada em conta a experiência internacional no design das edificações, dos laboratórios, dos equipamentos para a instalação e nos materiais para utilizar nas diversas áreas, através da parceria e contribuição dada por empresas estrangeiras com prestígio, experiência e know-how nesta área”.

“Para 2013, deve terminar o primeiro estágio previsto no processo de investimentos da obra, partindo do conceito de que seja uma entidade de caráter multidisciplinar, dedicada ao desenvolvimento das aplicações nanotecnológicas essenciais na saúde, e de maneira incipiente no meio ambiente e na energia”.

“O recurso humano do CEAC é formado, basicamente, por jovens profissionais, que procedem de diversas universidades, cujas idades compreendem entre 25 e 30 anos, muitos dos quais se preparam atualmente, com projetos próprios, que respondem às linhas principais de pesquisa do centro, conciliadas com diversas instituições”.

Como precisa o doutor Fidel Castro Díaz-Balart, a partir da aprovação das Diretrizes do 6º Congresso do Partido e da consequente atualização do modelo econômico cubano, está em andamento a fusão do Polo Científico e da Indústria Farmacêutica, numa organização superior de direção empresarial, baseada em empresas de alta tecnologia, com elevada produtividade, baixos custos e trabalhadores de elevada qualificação, capazes de conseguir medicamentos, equipamentos e serviços de máxima qualidade para a saúde, a geração de bens e o incremento das exportações.

“Baseado na obra já feita do país, a visão estratégica dum futuro plano nacional para o desenvolvimento da nanotecnologia em Cuba, deverá contemplar a nosso país, nos alvores de 2020, entre as nações que oferecem sua modesta contribuição, principalmente no setor da nanobiotecnologia”, indicou finalmente o reconhecido cientista.

Fonte: Blog Solidários

 

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