"Eu, vocês e nosso governo devemos evitar, o impulso de viver somente para o dia de hoje, pilhando para a nossa própria conveniência e comodidade, preciosos recursos de amanhã" - Dwight D. Eisenhower, 1961.
"[Eles] querem nos fazer crer que não há motivo para inquietação, que as reservas [de petróleo] vão durar milhares de anos, e que antes de acabarem, a ciência produzirá milagres. Nosso passado histórico e nossa segurança nos têm dado a crença ingênua, de que as coisas que tememos nunca vão realmente acontecer - que tudo acaba bem no final. Mas os homens prudentes irão rejeitar esses tranqüilizantes e preferir enfrentar os fatos, para poderem planejar de forma inteligente ..." - Almirante Hyman Rickover, 1957.
“A nação que destrói o seu solo destrói a si mesma” - Franklin Delano Roosevelt, 1937
As frases em epígrafe abrem o artigo Limitações dos recursos 2: separando o perigoso do simplesmente grave, saído no último informe trimestral, do Giga-Investidor Jeremy Grantham, analista e guru de Wall Street. Seus informes são muito lidos e apreciados. Ele é fundador e estrategista chefe da Grantham Mayo Van Otterloo (GMO), gestores de mais de cem bilhões de dólares em ativos. Nos seus informes, ele fez várias previsões de bolhas que vieram a se confirmar.
Já postei uma discussão do seu penúltimo informe trimestral aqui, vocês podem ter acesso neste endereço ao original. Sobre esse trabalho, ele diz que ali tentou mostrar que, "o descompasso inevitável entre recursos finitos e crescimento exponencial da população havia mostrado, finalmente, sua verdadeira face, depois de muitos alarmes falsos, manifestada por uma notável bolha explosiva dos preços das matérias primas", escalada jamais vista, superior ao efeito de alta causado na Segunda Guerra Mundial.
No último informe trimestral, Grantham volta a surpreender. Ele narra um potencial de catástrofes, em proporções que podemos taxar de bíblicas; traça um cenário preocupante, que exige intervenções planejadas e iniciadas, com a máxima brevidade de tempo possível. Esta análise da economia foge do padrão corriqueiro, que olha mais para a relação sócio-monetária da crise, visível nas manchetes, sobre quebras de estados pelo peso de dívidas impagáveis, na insolvência bancária e na provável falência de fundos previdenciários.
Tudo isso é grave, são perturbações que trarão abalos ao sistema sócio-político em vigor. A história registra crises em tal magnitude no século XX, com resultados de revoluções, golpes, guerras civis e entre as nações. Mas Grantham centra suas preocupações em outro aspecto, na relação sócio-ambiental da economia, algo que não ocupa as principais manchetes do cotidiano; ele procura mostrar, o estado em que se encontra a base material da atividade produtiva, do nosso oikos, o conjunto de recursos da natureza que sustentam e dão matérias primas para a atividade econômica e resultam na permanência da humanidade na Terra; ele vê que o sistema sócio-político dominante não tem capacidade para lidar com esse lado da crise, a relação equilibrada da sociedade com o ambiente, pelo conteúdo de medidas de largo prazo necessárias para contorná-la, algo que considera temerário deixar para a economia de mercado cuidar. Ele diz na introdução:
"Neste trimestre, gostaria de me concentrar nas partes mais perigosas da escassez que virá. Vou tentar separar aquelas que, para nós dos países ricos, vão apenas atenuar a taxa de crescimento da nossa riqueza, pela elevação dos preços, daquelas que não só isso, mas serão realmente uma ameaça, para a viabilidade a longo prazo de nossa espécie, quando atingirmos um nível de população de 10 bilhões. Em todos os casos, os países mais pobres serão os mais ameaçados. Situações que apenas irritam alguns de nós, como os preços mais elevados, a outros farão passar fome. Situações que farão alguns de nós enfurecer, a outros serão um autêntico desastre. Eu creio que isto, infelizmente, não será num futuro longínquo".
Para em seguida sacar, uma conclusão inesperada, de um giga-capitalista:
"O capitalismo não maneja com facilidade e nem corretamente esses problemas a longo prazo. A mim me dá impressão de que o capitalismo varia no espectro do horizonte do tempo: brilhante no curto prazo, mas perdido, irrelevante e até mesmo perigoso, em muito longo prazo".
Ele traça um cenário com perspectiva para este e o próximo século, um prazo muito longo, que ele entende como "até mesmo perigoso", para ser manejado pelo capitalismo. Embora sombria, sua perspectiva é otimista, ele crê em uma saída para o impasse, que com sabedoria e conhecimento, possamos superar, as dificuldades que aparecerão já no futuro imediato e contornar o status quo de desperdício; defende medidas de intervenção e planejamento, que a longo prazo possa reequilibrar nossa relação com o meio ambiente. Entre as medidas de planejamento, inclui incentivos para redução lenta e voluntária da população, para um número que estima de , 1.500 a 5.000 milhões de habitantes.
Grantham crê que nesta década, atingiremos o pico de produção do petróleo, mas este é um problema que ele coloca na parte dos "simplesmente graves"; situa também nessa parte a escassez de metais. Ele concentra o artigo no que considera o "perigoso", as questões que envolvem a agricultura; suprimento de água, o abastecimento de fertilizantes insubstituíveis, como Potássio e Fósforo, e a erosão dos solos. Na sua visão, ele procura estabelecer uma possível hierarquia dos problemas, dos graves aos perigosos, que iriam da escassez de energia à erosão dos solos.
Aqui faço a observação, de que esses problemas elencados estão interligados, não é simples fixar uma hierarquia; a escassez de energia está correlacionada a escassez de matérias primas de origem fóssil; com energia escassa teremos limitações para obter outros recursos e elementos; sem energia e fertilizantes, entra em crise a agricultura. Mas concordo, que o impacto mais cruel está relacionado à segurança alimentar da humanidade.
Uma planilha diabólica.
Erosão dos solos é o problema, sobre o qual Grantham discorre com mais ênfase, nessa análise, trata como o mais perigoso dos problemas. Faz um breve histórico, desde a Antiguidade até os dias de hoje, de processos gradativos de erosão que levaram várias regiões ao declínio produtivo. Ele conta uma fábula moderna, para mostrar como o capitalismo não só é incapaz de tratar esse problema, mas de ser ele, o capitalismo, o próprio problema.
A fábula conta a história, de um fazendeiro do Meio-Oeste que faz um acordo com o diabo, disfarçado na figura de um agente de uma companhia do agronegócio. O diabo consegue convencer o fazendeiro a fazer um trato, no prazo de quarenta anos, por uma agricultura agressiva e bastante rentável, que multiplicará em cinco vezes seu lucro. Há implicações em perda de solo e na produtividade, no fim do prazo estabelecido, mas o diabo mostra em uma planilha, baseada em princípios sólidos do capitalismo, que os lucros serão compensadores. Assim o diabo vai conseguindo, ao longo de gerações de fazendeiros, a renovação sucessiva dos contratos, até que as fazendas terminem arruinadas, pela
perda total de solo. No apêndice final ele exibe a planilha diabólica, com os fundamentos do sistema.
Apesar da descrição sombria da situação existente, que funcionam como um alerta para sermos prudentes, Grantham procura se mostrar confiante, apresenta notícias alvissareiras, sobre o uso de técnicas de plantio direto, que vem tendo uso crescente e acelerado em muitas regiões, em novas práticas agrícolas, preocupadas com a para preservação de solos, no sentido da cultura permanente, da permacultura. Vê vantagens nos métodos que, além de protegerem os solos da erosão, reduzem o desperdício de fertilizantes e retêm mais umidade nos solos. Faz uma condenação dos subsídios para o etanol de milho, onde reconhece "ajuda desnecessária a agricultores dos EUA, de um lado, e, por outro, a desnutrição crescente e fome total em alguns dos países mais pobres".
Em outro apêndice do artigo, ele trata da , o confronto entre malthusianos e cornucopianos. Paul Ehrlich e Julian Simon, em 1980, realizaram uma aposta em torno do preço de cinco commodities, que no prazo de dez anos seus preços se encontrariam ou não, abaixo da cotação na data da aposta. Erlich é um biólogo, que pode ser enquadrado como malthusiano, reflete o pensamento do relatório Limites do Crescimento, do Clube de Roma; Simon era um economista vinculado ao Cato Institute, centro de pensamento de ideias políticas e econômicas ultraliberais. Erlich perdeu a aposta, o episódio é evocado como vitória pelos neoliberais. Grantham faz considerações, em torno do alcance do evento, do número de comodities escolhidas e do prazo estipulado em dez anos. Ele constata que se fosse dado um prazo até os dias de hoje, a vitória seria ampla de Erlich; então, pede favor aos "cornucopianos", para não falarem mais da aposta: Erlich estava certo.
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