Para não esquecer resolvi escrever histórias da minha infância, imagens, gostos e cheiros que minha memória tratou de eternizar. Sou acometida do medo que com o tempo essas lembranças se percam, embora elas persistam com riquezas de detalhes de um tempo que vivi. Assim vou construindo uma colcha de retalhos, colhendo impressões aqui e ali, no canto da minha memória. Naquele tempo a vida era simples. Me recordo do caminho que fazia a pé com minha mãe, ladeando a via férrea do bairro São Roque e lá onde o trem fazia a curva, subíamos para a casa da vó. A casinha ficava no alto do morro, ao lado de um terreno de esquina. Para entrar na casa da vó a gente passava por uma cerca lateral com árvores de flores de hibiscos vermelhos e logo no quintal um poço artesiano, onde minha avó jogava o balde e retirava água do fundo do poço. Minha tia morava na casa da frente onde minha mãe ia costurar na máquina de pedal. Minha avó morava em um cômodo no quintal aos fundos, atravessando o quintal, passando pela fonte. Suas acomodações eram simples, um quarto pequeno, com uma caminha de madeira, um fogão a lenha e uma moringa de barro onde a gente bebia água fresca na canequinha de alumínio da água retirada do poço. Me lembro da primeira vez que bebi daquela água e jamais vou me esquecer do meu espanto do sabor daquela água doce.
Eu gostava muito também de ir ao fundo da casinha da minha avó: um lugar fresco, com um bambual fechando todo o terreno o que tornava úmido o chão de terra preta batida. Eu passava tempos ali recolhendo as conchas grudadas naquela terra.
A vida era simples na casa da minha avó e seguia seu curso como a água fresca que minha avó retirava do poço. Eu só observava o balde sendo jogado e a água sendo puxada para cima. Ficava ali assistindo curiosamente aquela senhorinha de baixa estatura, saias longas, pés descalços e cabelos presos em um coque.
Talvez essas lembranças que ficaram vivas na minha memória seja meu desejo inconsciente de voltar a casa da avó para beber daquela água. Em tempo de terras secas, quando meu coração se torna árido, revisito essa fonte de ternura: água doce do poço da casa da minha avó.
(Rosana Moreira de Souza Coelho)

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