Transcrição da matéria "Tortura Heave Metal em Guantánamo", publicada no jornal EL PAIS, em 23/10/09, por Yolanda Monge, com tradução de Luiz Roberto Mendes Gonçalves.

Tão inocente quanto a canção de "Vila Sésamo" ou tão dura como um tema da banda Metallica. Tão norte-americana como "Born in the USA", de Bruce Springsteen, ou tão motivadora como "We Are The Champions", de Queen. Todas elas - sim, incluindo "Vila Sésamo" e "Barney", a canção do simpático dinossauro cor-de-rosa que as crianças adoram - obrigadas a escutar em altíssimo volume durante dias ou semanas podem ter sido utilizadas como instrumento de tortura contra os prisioneiros de Guantánamo.

Um grande grupo de artistas invocou nesta quinta-feira a Lei de Liberdade de Informação para exigir do governo norte-americano que revele o nome das gravações que foram utilizadas durante os interrogatórios de suspeitos de terrorismo na prisão de Guantánamo ou em alguma das prisões secretas que a CIA espalhou pelo mundo durante o mandato de George W. Bush. James Taylor, Christina Aguilera, Britney Spears, Neil Diamond, AC/DC, Red Hot Chili Peppers e muitos outros lançaram um protesto contra o uso da música em torturas.


Manifestantes em frente à Casa Branca pedem o fechamento da base de Guantánamo.


As letras do sinistro Marylin Manson também feriram os ouvidos e os nervos dos réus. O guitarrista da banda de rap metal Rage Against The Machine, Tom Morello, declarou nesta quinta-feira à mídia que pode ser que "Guantánamo fosse a idéia que (o ex-vice-presidente norte-americano) D*** Cheney tinha do que deveria ser a América, mas certamente não é a minha". Morello se disse enojado pelo fato de a música que ele criou ter sido usada em "crimes contra a humanidade". "Guantánamo deve ser fechada já", concluiu o músico.

Um porta-voz da Casa Branca informou que "a música" já não faz parte dos métodos de tortura e, de fato, insistiu, os EUA não praticam mais tortura em seus centros de detenção, como ordenou o presidente Barack Obama em sua primeira semana de mandato.

Segundo a Faculdade de Direito da Universidade de Nova York, o uso de música em volume elevado contra os presos foi "uma ferramenta bastante difundida" pelo governo norte-americano e a CIA, que sempre justificou que, afinal, a música não era tão alta, e que sempre a faziam tocar em níveis muito inferiores aos empregados por uma banda ao vivo.

Em geral a CIA utilizava música heavy metal, country e rap - um prisioneiro foi obrigado a escutar durante 20 dias uma composição do "rapeiro" branco Eminem. Mas também torturou com o hino nacional norte-americano, o "Faixas e Estrelas". E com "Vila Sésamo".


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