Proprietário do Bar do Alemão, onde bambas se encontram, ele faz história e música de qualidade com grandes parcerias e uma dose de ousadia

O Estado de S. Paulo - Caderno Cidades/Metrópole
Domingo, 06 de Setembro de 2009
Renato Machado


O músico Eduardo Gudin, de 58 anos, não segue o hábito de outros paulistanos que ao informarem seu local de origem dizem o adjetivo acompanhado do bairro. Algo como: "sou paulistano da Mooca". "Eu tenho história em todo lugar, em todo canto da cidade", brinca. Gudin também é uma das provas vivas de que o samba é, sim, coisa de São Paulo. Neste ano, ele está lançando o seu 15º álbum de uma carreira marcada por grandes clássicos e parcerias com Paulinho da Viola, Paulo César Pinheiro e Paulo Vanzolini. Além disso, é seu quinto ano à frente do histórico Bar do Alemão, templo paulistano do samba.

Foi bem perto da esquina mais famosa da música brasileira - a da Avenida Ipiranga com a São João - que ele deu o primeiro passo para sua carreira. O ano era 1966 e ele tinha 16 anos. Elis Regina já era uma cantora reconhecida e apresentava o programa Fino da Bossa na TV Record. Ela e o marido Ronaldo Bôscoli moravam no então glamouroso hotel Normandie, assim como muitos outros artistas. Gudin sabia disso. Por isso, sentou no sofá do saguão uma certa tarde e esperou pelo casal.

"Eu fiquei de butuca e, quando ela saiu do elevador, fui lá e disse que queria tocar uma música. Naquela época as pessoas paravam para ouvir. Lembro de ela dizer ?então tira logo esse violão e toca?", conta Gudin, que apresentou Morena Boca de Ouro, de Ary Barroso, música que depois repetiria como convidado no programa de Elis.

A cena se passou só três anos depois de ele iniciar os estudos de violão. Gudin começou a gostar de música ainda pequeno, escutando no rádio programas de música clássica com o pai. Ficou fascinado com o álbum Chega de Saudade, de João Gilberto, que sua irmã mais velha ganhou de presente. "Quase furei de tanto escutar." E ao ver uma apresentação de Paulinho Nogueira na televisão decidiu que aprenderia a tocar violão.

Já profissional mas ainda menor de idade, ele dividia o tempo entre as gravações dos programas de televisão e as peladas de rua no Paraíso, onde morava. Gudin chegou a jogar futebol nas categorias amadoras do Nacional da Rua Comendador Souza. "Até acho que teria ido longe, mas era o violão de um lado e a bola do outro. Eu preferi a música e tocava até tarde, então fui perdendo o pique."

Nessa época, fim dos anos 1960, ele já vivia no circuito da noite paulistana. Mesmo antes de completar 18 anos, era levado por amigos sambistas mais velhos para os bares e foi conhecendo e convivendo com os músicos. Os programas musicais das TVs Record e Excelsior trouxeram para São Paulo os principais nomes do País. Gudin também já estava compondo nesses anos e suas músicas foram classificadas nos festivais, junto com obras de Chico Buarque, Edu Lobo e Gilberto Gil. O primeiro foi em 1968, com Choro do Amor Vivido.

A mesma ousadia apresentada com Elis ele repetiu para conhecer Paulo César Pinheiro. O compositor carioca havia vencido a I Bienal do Samba com o violonista Baden Powell. Os dois e um grupo de amigos foram comemorar no Restaurante Patachou, na Rua Augusta. "Fui até a mesa deles e me apresentei. Nessa época eu já estava compondo. Só que tinha muita gente lá e ele me disse para mandar alguma coisa para ele."

Pela cantora Márcia, Gudin enviou uma gravação para o Rio de Janeiro somente com a parte musical. Tempos depois recebeu uma nova fita com os mesmo arranjos criados por ele, mas com uma letra de Paulo César Pinheiro. Era Olha Quem Chega, a primeira parceria entre os dois, que também fizeram e ainda fazem clássicos do samba como Mordaça e E lá Se Vão Meus Anéis.

"A maior parte da parceria foi a distância mesmo. Teve vezes em que eu escutava pelo telefone o Gudin tocando o que tinha feito e depois ele colocava o aparelhinho no bocal para gravar eu cantando", lembra Paulo César Pinheiro.

Gudin também fez parcerias com Paulinho da Viola, Paulo Vanzolini, Elton Medeiros, Guinga e Caetano Veloso, entre outros. Os principais intérpretes da música brasileira também gravaram suas músicas, como Clara Nunes, Beth Carvalho, Jair Rodrigues, Vânia Bastos (sua ex-mulher) e Leila Pinheiro, que apareceu em um festival da TV Globo em 1985 com uma música de Gudin: Verde.

Se no Rio o ponto de encontro do samba era o bairro de São Cristóvão, em São Paulo todos se encontravam invariavelmente no Bar do Alemão. "Era engraçado que a gente rodava todos os bares do centro, mas sempre terminava no Bar do Alemão", diz Paulo César Pinheiro. Fundado em 1968, o bar recebeu ao longo da história os principais sambistas do País, como Cartola e Nelson Cavaquinho. Como costumam dizer os músicos, muita música nasceu ali diante de um chope.

"Teve uma época em que o bar fechava depois de certo horário e só ficavam os conhecidos. Mas a fama do bar cresceu quando o dono era o Dagô, de quem todo mundo gostava e que era apaixonado por música, por isso todo mundo ia pra lá", conta Gudin. Ele foi pela primeira vez acompanhando o amigo Heraldo, um corretor de imóveis que dedicava as horas de folga ao samba. Depois foi o próprio Gudin que levou para o bar a sua turma, tanto de paulistas como os cariocas.

Há cinco anos, ele e o amigo Flávio Chaves compraram o lugar. Gudin fica lá todas as noites de quinta, sexta e sábado. Às quintas, é o responsável pela roda. "Não sei dizer o que é ser responsável pela roda. Acho que sou uma espécie de regente psicológico." Além disso, seus amigos continuam frequentando o lugar. "E se quisermos tocar, vamos lá e tocamos."

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Comentário de Helô em 10 setembro 2009 às 2:28
Gilberto
O famoso Bar do Alemão dos saraus do Nassif, é?
Que legal conhecer a história do bar.
Beijos.
Comentário de Gilberto Cruvinel em 10 setembro 2009 às 11:12
Exatamente Helô,

Achei que o Nassif fosse aproveitar a reportagem
para levantar a bola do Gudin, mas ele passou batido, :-)

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