Se o Carlos Montenegro, do Ibope, disser que o Natal vai cair em 25 de Dezembro, ficarei em sérias dúvidas. O pesquisador perdeu toda a credibilidade, ao agir como cabo-eleitoral de um partido, ao insistir no erro por um ano, quando todas as evidências, nas ruas, eram de que ele estava completamente errado.
Aliás, o que ele chama, na entrevista à IstoÉ, de "erro", eu prefiro chamar de fraude. Não há como explicar diferenças de 10 pontos ou mais, crescimentos súbitos de um candidato, sem nenhum fato novo a justificá-lo. O Ibope e o Datafolha "elegeram" Serra há dois anos, quando não havia candidatura colocada.
O Datafolha fez uma "pesquisa" presidencial semanas antes da eleição municipal! Ora, uma coisa contamina a outra: quando se dizia que Kassab iria vencer para prefeito de São Paulo graças à transferência de votos de seu padrinho Serra (sim, o Serra transfere votos, o Lula, não...) seria lógico que a maioria do eleitorado paulistano se inclinasse pelo tutor. Eu acho que o Corinthians vencerá a Libertadores de 2016. Algum fundamento científico nisso? Nada, é um chute.
Se um cidadão comum pode errar por quilômetros nos seus prognósticos, um pesquisador, que vende caro seus serviços e influencia até os investimentos em publidade quando aponta a audiência da mídia, não tem este direito. Ou é cientista ou é cabo-eleitoral. Montenegro fez sua opção.
Estabelecido um patamar para Serra, acima dos 40% dos votos que teriam que ser conquistados dois anos depois, toda a mídia cartelizada partiu dali, ungido. Quem poderia lançar-se ao desafio? Que eleitor deixaria de acompanhar esta "tendência" irreversível?
Ali começaram os erros da direita midiática e os imensos equívocos da candidatura oposicionista. É possível listar alguns, sem esgotar o tema:
1) Acreditando na vantagem, Serra descuidou-se de governar São Paulo com alguma eficiência que pudesse tornar-se sua vitrine. Como já apontou o Nassif, deveria ter feito de sua gestão um período inovador, socialmente progressista, economicamente positivo, politicamente democrático. Não o fez: Educação medíocre, entregue a lobistas como Paulo Renato e outros; saúde precária, rotineira, sem programas; Segurança e Administração Penitenciária omissas, acomodadas nos piores vícios possíveis neste setor tão sensível. Delegados comprando vagas de titular, PM humilhada, presídios controlados pelo crime organizado, estatísticas forjadas, insegurança na população. Obras? Duas ou três de vulto, todas terceirizadas, atrasadas, super-faturadas. Em síntese: uma gestão medíocre;
2) Politicamente, o estilo "trator" dissimulado. A humilhação a Geraldo Alckmin na eleição para prefeito, quando Serra cometeu o mais explícito caso de infidelidade partidária já visto em São Paulo. Apoiou Kassab, olhando para sua candidatura presidencial, e gerando mágoa no seu partido que agora é visível. Quando achou que precisaria somar, deu a Geraldo uma secretaria - o que foi visto pelos alckmistas como uma tentativa de "comprá-lo". Eliminou, com métodos sujos, usando seus porta-vozes da "grande"Imprensa, aquele que poderia ser seu maior apoiador: Aécio Neves. "Pó pará, governador" foi o ultimatum de Serra ao então governador mineiro, que tem 300 anos de política nas veias. Ali Serra plantou sua solidão;
3) Tratamento ditatorial ao funcionalismo público de São Paulo, civil e militar. Terceirização geral (da Sabesp à merenda escolar, do metrô aos hospitais públicos). Achatamento salarial e partidarização das funções de chefia - é impressionante o número de ex-prefeitos e ex-vereadores do PSD e do PFL em cargos de confiança;
4) Atitude hostil ao governo federal. Inesquecível a cena de Alberto Goldman de braços erguidos, cantando o Hino Nacional, quando ajudou a eleger Severino Cavalcanti presidente da Câmara, com a tarefa de acolher o pedido de impeachment de Lula. Histórica a comemoração dos senadores da oposição quando derrubaram a CPMF. E a CPI da Petrobrás, contratando firmas estrangeiras para atacar a maior empresa brasileira? Nesses e em outros momentos, Serra estava por trás, fornecendo munição contra um Governo que, às vezes errando, ia consolidando uma mudança econômico-social inédita no País;
5) A adoção, paulatina, do discurso de uma direita que é nitidamente minoritária, e não tem compromisso com a Democracia. Quando um candidato com o currículo político de Serra adula fanáticos como um Reinaldo do Esgoto, ou não o desautoriza publicamente, está optando por ser minoria. Serra pensou que a política se joga num tabuleiro de ouro, quando ela se joga muito mais num campo de várzea. Há que respeitar o povo, e não se aliar a meia-dúzia de pseudo-intelectuais que vivem no século XIX;
6) Oito anos desperdiçados tentando golpear ou "sangrar" Lula, e nenhum minuto dedicado a formular um Programa. Resultado: declarações aleatórias, confusas, sobre todos os temas, da autonomia do Banco Central à criaças de ministérios conforme a platéia queria ouvir. Nada estruturado, nada de proposta viável. A Dilma pode dizer que vai intensificar os programas de Lula; Serra não sabe quais vai continuar, quais vai encerrar, quais novos vai propor. Vazio total;
7) Más companhias. Dilma aceita apoios (o que é admissível na luta, desde que se tenha um Norte). Serra lutou para ter ao seu lado o Quércia, por cuja existência os "éticos" do PMDB desligaram-se e fundaram o PSDB! Lutou pelo PP de Maluf, quis como vice o José Roberto Arruda. São contradições com a identidade fundadora do PSDB. Puro eleitoralismo. Com isso, fica difícil criticar o outro lado;
8) Aposta na crise internacional como fator de desestabilização de Lula. Para a opinião pública, Serra foi contra o Brasil, e Lula salvou o País do Tsunami. Os próprios empresários, estimulados com o corte de impostos e injeção de crédito às empresas e ao consumidor, agradecem a Lula e querem mais. Quando o presidente da Fiesp vira candidato pelo Partido Socialista, algo está ocorrendo... Quando Abílio Diniz se declara cabo-eleitoral de Dilma, há o que pensar. Quando lojas de eletrodomésticos começam a vender passagens aéreas para sua clientela popular, e os aeroportos estão lotados por demanda, que País é esse? Só o Serra e a direita-burra não perceberam nada desta imensa mudança;
9) Sobra a escandalização, as capas da veja, da IstoÉ, as manchetes do PIG, a agressividade do William Bonner com a Dilma, e artifícios que tais. O povão não está nem aí. Amanhã vao dizer que a Dilma fez 29 abortos, vão mostrar um ator com farda das Farcs pedindo votos para ela, sei lá o que mais. Pena (para a direita-burra) que os brasileiros estão vacinados, desde a camiseta do PT no sequestrador do mencionado Diniz, desde a ex-namorada do Lula, desde que Lula "iria congelar a poupança".

Dilma ainda não está eleita. Falta muito tempo, e seus apoiadores devem trabalhar em dobro daqui prá frente. Golpes virão, até as 17:00 horas do dia 3 de outubro. Se necessário, com violência (nossa direita não é nem um pouco mais "civilizada" que a de Honduras, não se enganem). O que está em jogo é muito grande. Há interesses internos e internacionais sobre o pré-sal, sobre aquíferos, sobre os próprios rumos da América Latina, diretamente influenciados pelo que ocorrer no Brasil.
Confio no discernimento dos brasileiros, e só lamento que a Imprensa (da qual sou integrante) tenha se amesquinhado, virado partido, e vá perder uma eleição que jamais deveria ter disputado.

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Comentário de Francisco José Corrêa em 29 agosto 2010 às 4:08
Concordo plenamente. Disse em outra materia deste forum que devemos comemorar, sim. Mas com cuidado, porque de um tucano ferido de morte (claro que em sentido figurado) pode-se esperar qualquer coisa. Não se deve abaixar a guarda de jeito nenhum. Só depois de enterrado o cadáver, assim mesmo...
Comentário de Antonio Barbosa Filho em 29 agosto 2010 às 4:25
Temos que enterrá-lo de bruços, assim se resolver sair, vai pro Inferno...rsrsrs
Obrigado pelo comentário.
Comentário de Francisco de A. P. da Silva em 29 agosto 2010 às 7:45
Perfeito.
Comentário de Sérgio Troncoso em 29 agosto 2010 às 9:52
Belo texto Antonio! Faz um bom resumo do "problema" que Serra e o PSDB criaram para si próprios. Um abraço.
Comentário de Bernardo Dror Felsenfeld em 29 agosto 2010 às 11:08
Perfeito, verdade absoluta!
Comentário de Carlos Magno de Oliveira em 29 agosto 2010 às 12:26
Espetacular. Parabens.
Comentário de Marco Antônio Nogueira em 29 agosto 2010 às 20:06
Grande
ANTÔNIO,

Uma análise completa
de tudo essa que
você fez.
Parabéns, e de um
modo muito especial
por saber que você,
mesmo de tão longe,
tem acompanhado e
demonstrado a
maior preocupação
com os problemas de
nosso PAÍS.

Marco Nogueira
Comentário de eduardo oliveira em 29 agosto 2010 às 21:45
PARABENS ANTONIO PELO ARTIGO. ACHO QUE EM POUCAS LINHAS DESCREVEU OS PONTOS CRITICOS DA DESASTRADA AÇÃO DO SERRA DESDE A POSTULAÇÃO A PRESIDENCIA. ENTRETANTO RESSALTO QUE SE NÃO TIVESSE FEITO NADA DE MARCANTE NO GOVERNO DE SP MAS TIVESSE TIDO A HABILIDADE DE UNIR OS SEUS, TERIA SAIDO FORTE PARA A DISPUTA, CONTANDO COM A FIDELIDADE DO ELEITOR PAULISTA AO PSDB. FRAGILIZADO E SEM O ALKIMIM, ROMPIDO ENTRE ASPAS COM AECIO, FOI LEVADO A ALIANÇAS ESPURIAS COM POLITICOS QUASE TODOS ELES CONTAMINADOS PELA FICHA SUJA VIRTUAL AQUELA QUE FUNCIONA NEGATIVAMENTE AOS OLHOS DO ELEITOR. BRIGOU COM UM LIDER POLITICO MINEIRO DE TRADIÇÃO QUE ALEM DE SER MINEIRO E DE TRADIÇÃO EH ADORADO EM SUA TERRA, PERDEU O SEGUNDO COLEGIO BRASILEIRO E PERDEU TODAS AS CHANCES DE SE ESTRUTURAR TAMBEM NO RIO O QUE TERIA SIDO POSSIVEL COM O APOIO DO AECIO E SE ESTIVESSE COESO COM O ALKIMIM. COMO DIZIA O TANCREDO, UM CARGO PUBLICO COMO A PRESIDENCIA DA REPUBLICA NÃO PODE SER OBJETO DE DESEJO SOFREGO, EH UMA MISSÃO QUE SE ACEITA QUANDO UMA GRANDE CORRENTE POLITICA LHE PEDE BATENDO A SUA PORTA.
Comentário de Antonio Barbosa Filho em 30 agosto 2010 às 22:42
EDUARDO, vc tem toda razão. O Serra não construiu uma marca como administrador, perante o povo. Só o PIG o coloca como experiente, porque ocupou e disputou vários cargos. Ora, isso o Plínio Sampaio também fez. Experiente era o Prestes, é o Silvio Santos, é o Pelé. E daí?
O administrador precisa ter uma marca, como até o Maluf tinha (das grandes obras superfaturadas, sabemos, mas seu eleitorado o considera um realizador, o que "rouba mas faz" (quem diz isso são amigos meus malufistas até hoje).
Qual a obra de Serra que tenha ficado na memória popular? O buraco do metrô. a viga desabada do Rodoanel, as enchentes em São Paulo, as cartilhas pornô e com dois Paraguais? Depois de anos, ele próprio reconheceu que não foi o criador dos genéricos, nem dos programas sobre a Aids. E olhem que o superfaturamento de 700 ambulância na sua gestão e do Barjas Negri foi sepultado pela mídia... Como pode um ex-ministro do Planejamento (repito: Planejamento! - justificar um apagão de sete meses?
Mesmo assim, com uma administração sofrível, ele poderia ter mostrado capacidade na Política, na ariculação, na interlocução com o governo Lula - o governador do Estado mais rico se colocando como um contraponto civilizado, um tipo de "ghost cabinet", oferecendo alternativas às medidas do Governo central. Tudo isso foi desperdiçado, porque ele estava eleito, pela mídia cartelizada, não precisava articular nada.
O tempo que perdeu ligando para jornais, rádios do interior, pedindo a cabeça de jornalistas, deveria ter gasto tentando atrair seus companheiros de partido, e possíveis aliados. É inimaginável um governador de São Paulo pretender a Presidência sem apoio da Fiesp! Ou da Febraban. Ou de parcela majoritária, ao menos, do funcionalismo. Só a PM tem mais de 70 mil integrantes, cada um com dez votos na família. Imagine-se o professorado, o pessoal da Saúde, etc. No funcionalismo, que é quem faz a máquina funcionar e sofre por cima e por baixo, Serra deve estar hoje em terceiro ou quarto lugar - o Montenegro deveria nos fornecer dados específicos...rsrsrs
E vc, EDUARDO, acerta com relação a Minas e Rio de Janeiro. Quem não se articula nesses Estados nem deve pensar em ser presidente, mas podemos incluir aí a Bahia, Pernambuco e o Rio Grande do Sul, por número de eleitores e também por "peso" político. Esses Estados que têm filhos espalhados por todo o Brasil (a gauchada em Goiás e Tocantins, os baianos de norte a sul, os mineiros igualmente), os pernambucos ciosos de sua tradição libertária, tudo isso precisa merecer cuidado especial de um candidato competente, um líder.
Em suma (e reconhecendo que estou simplificando, sem pretensão a analista): o Serra errou administrativamente, e errou politicamente. Cego pela ambição, e pela bajulação comprada, esqueceu-se de se produzir, de se alçar à altura de um Presidente da República.
Permitam-me contar um detalhe: em 25 de outubro do ano passado, na entrega do Prêmio Vladimir Herzog de Jornalismo e Direitos Humanos, o Serra chegou atrasado, no Tuca, perante mais de 800 jornalistas de vários Estados. Anunciaram sua presença e ele ficou lá, à mesa, tuitando, esquecido por todos. Quando foi convidado a entregar o prêmio a jovens estudantes que venceram o novo Prêmio Fernando Pacheco Jordão, ficou segurando o microfone para os garotos falarem, como um mestre-de-cerimônias, disse duas frases óbvias, e continuou ignorado.
Naquele momento pensei: pôxa, o cara é o candidato dos patrões da mídia, mas está longe de ser respeitado pelos operários da informação. Isso é mal sinal, mostra a elitização do homem público, configura o setor que representa. Ali eu vi que Serra jamais venceria um pleito nacional, fosse quem fosse o candidato de Lula. É ele mesmo, Serra, que é ruizinho de jogo...
Aliás, a única pessoa que lhe deu atenção e o acompanhou até a porta do teatro foi a Maria Lídia Flandoli, que durante a cerimônia estava sentada ao meu lado, lamentando a frieza de todos com o pobre grande líder. Pelo menos, o desprezo não foi unânime...rsrsrs
Comentário de Bernardo Dror Felsenfeld em 30 agosto 2010 às 23:19
Tudoque voces comentaram acima é verdadeiro, inteligente, vale a pena ler e reler.
O último parágrafo do seu comentário, Antonio Barbosa Filho, sobre a âncora do Jornal da Gazeta é fantástico.
Queria compartilhar com voces , que muitas vezes procuro na TV alguma coisa para me enervar , para sair da letargia e um dos favoritos é ver Maria Lídia E SEUS COMENTARISTAS....

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