Por Nelson Townes (noticiaRo.com)
PORTO VELHO, segunda-feira, 26 de abril de 2010 (noticiaRo.com) – Completa nesta terça-feira (27) uma semana que um operário, de identidade e procedência ignoradas, morreu dentro de um dos alojamentos do canteiro de obras da usina Hidrelétrica de Santo Antonio, em Porto Velho.
A obra está sendo construída sob responsabilidade do Consórcio Santo Antônio Civil (CSAC). formado pelas empresas Andrade Gutierrez e Construtora Norberto Odebrecht, e a morte teria sido conseqüência de espancamento, na véspera, por seguranças da empresa, ou por soldados da Polícia Militar que reprimiram até com balas de borracha dois motins de trabalhadores da usina contra demissões, desconforto e insalubridade do alojamento.
A morte ocorreu na terça-feira (21). Os motins ocorreram nas noites de sábado (17) e segunda-feira (20), entre outros motivos contra a alta-rotatividade de trabalhadores que viiajam de todos os pontos do Brasil seduzidos por promessas de empregos nas hidrelétricas do rio Madeira e são demitidos no segundo mês de trabalho.
Os operários protestavam também contra a falta de conforto em alojamentos com sanitários entupidos, interrupções de energia elétrica (ainda que dentro de uma usina hidrelétrica em construção), quartos sem ventilação sob o calor equatorial super úmido de Porto Velho e outras coisas – entre elas a brutalidade dos seguranças da empresa.
Outro motivo do motim foi o de a enfermaria do canteiro de obras ser fechada nos finais de semana e feriado e não haver uma simples aspirina para dor de cabeça, “porque os remédios são retirados”, segundo informou um funcionário, que não identificaremos.
“Não temos atendimento médico de emergência nos finais de semana e o trabalho aqui é perigoso e não para” – disse o operário.
O operário morto pode ter vindo de São Paulo, Paraná, Maranhão, Piauí, Sergipe, Santa Catarina, alguns dos principais locais – dizem os trabalhadores – onde são aliciados por agentes da Consórcio Santo Antônio Civil (CSAC) para virem trabalhar nas das obras “dazusinas”.
A expressão foi criada por um assessor de imprensa do consórcio, reproduzindo a forma como o povo mais simples se refere às hidrelétricas.
O CSAC foi rotulado pelos operários de “gato com CNPJ”, uma referência aos aliciadores de lavradores desempregados para trabalho como “bóias-frias” na coleta de cana de açúcar.
Para poder noticiar os motins no alojamento de Santo da Hidrelétrica de Santo Antonio driblando a censura econômica dos consórcios encabeçados pela empresa Santo Antonio Energia (Saesa), os jornalistas de Porto Velho tiveram que escrever que a batalha entre a tropa de choque da Polícia Militar de Rondônia e cerca de 600 operários revoltados foi um “ato de vandalismo de quatro que foram presos.”
Colchões foram queimados, móveis e televisores eram destruídos, enquanto a Polícia Militar disparava balas de borracha, bombas de gás de efeito moral e cegava manifestantes com spray de pimenta.
Não se sabe quantos operários foram feridos. Um PM foi ferido por uma pedrada. Três carros da Policia Militar foram danificiados.
Os quatro operários presos foram levados algemados para a Central de Polícia com hematomas e escoriações pelo corpo.
Consta que foram indiciados por “danos patrimoniais” e liberados. Não se sabe se foram submetidos a exame pelo Instituto Médico Legal.
Um vídeo gravado pelo site Rondoniaovivo e postado no You Tube mostra alguns depoimentos e tomadas do acampamento.
Estes não são os primeiros incidentes nos alojamentos de operários, tanto em Santo Antonio como em Jirau. Quando ocorrem, dirigentes dos consórcios em Porto Velho mandam os assessores de imprensa telefonar para os editores para que nada publiquem e aguardem o “press release” oficial.
Pouco depois do tumulto, um funcionário graduado do consórcio diria pela televisão, numa entrevista coletiva, que o “incidente” havia sido resolvido e que tudo estava “tranqüilo” no alojamento.
As obras da hidrelétrica nessas noites foram interrompidas; operários que chegavam para troca de turno resolveram voltar para os hotéis onde outros ficam alojados em Porto Velho, enquanto ocorria a batalha.
“Aquilo é um barril de pólvora prestes a explodir” – disse um jornalista do site Rondoniaovivo, indicando que persistem focos de tensão.
ULTIMATO DO CACIQUE
Há também tensão no canteiro de obras da usina hidrelétrica de Jirau no rio Madeira. Os índios Kaxarari deram um prazo de trinta dias para que o consórcio de Jirau apresente uma solução para a questão das indenizações pelas terras que lhes estão sendo tomadas.
O cacique mandou um recado neste sábado (24) aos construtores de Jirau: “Nós estamos dando um prazo de trinta dias para que eles apresentem uma solução para que sejamos indenizados o mais rápido possível, caso eles não assumam suas responsabilidades nós iremos parar as obras de Jirau, juntamente com os ribeirinhos e garimpeiros.”
MENTINDO EM HARVARD
O projeto da usina hidrelétrica Santo Antônio, em construção em Porto Velho (RO), será tema de uma aula mentirosa na universidade de Harvard, nos Estados Unidos
Sem pudor, o site da Saesa diz que a usina denunciada por crimes ambientais no Brasil e no Exterior, “será apresentada como exemplo de aproveitamento hidrelétrico sustentável na Amazônia.”
A palestra será ministrada por Luiz Gabriel Todt de Azevedo,.
O site informa que o convite foi feito por John Briscoe. Trata-se do inadvertido diretor do Programa de Recursos Hídricos e Meio Ambiente em Harvard e ex-diretor do Banco Mundial para o Brasil que não conhece a realidade de Rondônia.
O objetivo do curso na conceituada universidade norte-americana é mostrar as políticas públicas e as interações ambientais, sociais e econômicas em projetos em países em desenvolvimento.
O site indica que não é a primeira vez que os americanos ouvem mentiras sobre Santo Antonio. Em fevereiro, o responsável por Sustentabilidade na Odebrecht Energia já havia feito uma palestra no Woodrow Wilson International Center for Scholars, em Washington.
O evento discutiu de que forma os rios da Amazônia podem ser utilizados como fonte sustentável de produção de energia renovável.
Segundo a Saesa, Azevedo falou sobre sua experiência com o desenvolvimento e a implementação da Usina Hidrelétrica Santo Antônio, “com ênfase na gestão eficiente dos impactos ambientais e no Programa Acreditar”. Naquela época não haviam começado os motins pela alta rotatividade de empregos – que desmoralizam o Programa Acreditar – nem os impactos ambientais já que põem o povo ribeirinho em pé de guerra.
O evento contou ainda com a participação da consultora do Wilson Center para energia e meio ambiente, Christine Pendizch, e foi coordenado pelo diretor do centro, Paulo Sotero.
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