Histórias das Canções de Chico Buarque (III)

"Sonho de um Carnaval" (1965).
Chico Buarque


A voz de Chico só chegaria às lojas de discos em 5 de maio de 1965, quando a RGE lançou o compacto com as canções "Pedro pedreiro" e Sonho de carnaval". A composição é, segundo o próprio Chico, o início de uma transição para marcar seu próprio espaço, já que tudo que vinha fazendo até então tinha as digitais da Bossa Nova ou das músicas que costumava ouvir no rádio e nos encontros de seus pais com amigos.


No seu depoimento ao MIS ele afirma:


A mudança começou com "Sonho de um carvaval", embora haja ainda umas duas ou três músicas anteriores a isso que eu ainda considero [...]. Em seguida veio "Pedro pedreiro", que acho que já é uma nova fase, porque já me preocupava e sentia que era uma coisa mais minha.


A televisão no Brasil estava prestes a completar quinze anos, e havia no país 2,3 milhões de aparelhos. As emissoras tiveram sensibilidade para captar o movimento que aconteceria entre os jovens e incorporá-lo à sua grade. A maior parte da programação era ao vivo e repleta de programas musicais.

Embora participasse dos shows promovidos pelo radialista Walter Silva, Chico não pensava em se profissionalizar. Mesmo assim ele inscreveu "Sonho de um carnaval" no I Festival Nacional da Música Popular Brasileira da TV Excelsior. Para defendê-la na primeira eliminatória, realizada no Cassino do Guarujá em 27 de março de 1965, a organização escalou um cantor profissional, já familiar nas rodas do João Sebastião Bar, mas que Chico conhecia vagamente.

Era o paraibano Geraldo Vandré, que conseguiu levar a música para a final que se realizaria no auditório da TV Excelsior do Rio de Janeiro, em 6 de abril de 1965. Vandré se queixava ao arranjador, o maestro Erlon Chaves, de que o tom era muito baixo para a sua voz, e quase não se ouvia a letra.

"Sonho de um Carnaval" não ficou entre as cinco primeiras, e o festival foi vencido por "Arrastão", de Edu Lobo e Vinicius de Moraes, cantada por Eliz Regina. Mesmo não tendo grandes pretensões, Chico sentia-se vitorioso por ter chegado tão longe. Mas não foi nada agradável passar pelo saguão do teatro e ouvir João de Barro, o Braguinha - autor de tantos sucessos, entre os quais a imortal letra para "Carinhoso", de Pixinguinha -, dizer que a música era uma porcaria.

Mas houve quem gostasse. E alguém de grosso calibre, como o compositor e violonista Baden Powell, que ficara em segundo lugar com a "Valsa do amor que não vem", em parceria com Vinicius de Moraes. Baden não escondia sua preferência pela canção, e seu apoio rendeu dividendos, como Chico deixou registrado no seu depoimento no MIS:



O Baden Powell foi um sujeito entusiasmadíssimo [...]. Ele torcia por "Sonho de um carnaval", e falava a toda hora na música. E porque ele falava, todo mundo começou a dar bola, e resolveram gravar a música. Foi a primeira vez que me entrosei no meio. Tive um reconhecimento - não popular ainda, mas no meio [...].


De fato, o próprio Vandré a incluiu no seu álbum "Hora de lutar" (1965), e, um ano depois, o conjunto vocal MPB-4 a gravaria em seu disco de 1966.


"SONHO DE UM CARNAVAL"



"Sonho de um Carnaval"

Carnaval, desengano
Deixei a dor em casa me esperando
E brinquei e gritei e fui vestido de rei
Quarta-feira sempre desce o pano

Carnaval, desengano
Essa morena me deixou sonhando
Mão na mão, pé no chão e hoje nem lembra não
Quarta-feira sempre desce o pano

Era uma canção, um só cordão
E uma vontade
De tomar a mão
De cada irmão pela cidade

No carnaval, esperança
Que gente longe vive na lembrança
Que gente triste possa entrar na dança
Que gente grande saiba ser criança



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FONTE:





Histórias de Canções: Chico Buarque, de Wagner Homem. São Paulo: Leya, 2009.






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