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Histórias e Memórias # Entrevista com Luiza Nazareth (Parte I)

Luiza Nazareth sendo entrevistada por sua filha Lourdes Mayer no Serviço Nacional de Teatro (1975)


Luiza Nazareth nasceu em 10 de dezembro de 1894 no Rio de Janeiro e faleceu em 3 de novembro de 1989. Filha do ator Cândido Nazareth e da atriz espanhola Ângela Dias, foi casada em primeiras núpcias com o ator João Carvalho, morto na epidemia de gripe espanhola de 1918, e depois com Guilherme Catanheda, comerciante que se tornou assistente de direção de companhias de teatro. Mãe de Zilka Salaberry, Lourdes Mayer e Alair Nazareth, os Nazareth foram um típico exemplo de família de artístas cujos membros se mantêm ao longo das gerações dedicados ao teatro, à música e às artes. Ainda são.
Luiza trabalhou no teatro, rádio e TV. No teatro participou do elenco de companhias consagradas como as de Ítala Fausta, Lucília Peres e Artur Azevedo, Renato Vianna, Procópio Ferreira, Jaime Costa, Delorges Caminha e Olga Navarro e muitas outras. Começou sua carreira ainda criança, numa peça improvisada por seus pais para arrecadar fundos e a família poder seguir viagem. Mas deixemos que a Luiza conte com suas próprias palavras esta história, e outras, (como por exemplo, a da confusão em torno da inauguração do agora centenário Teatro Municipal), a partir do depoimento que deu, em 1975, ao Aldomar Conrado e às suas filhas Zilka Salaberry e Lourdes Mayer.

Cafu



Luiza - Minha estréia foi para salvar uma situação. Eu tinha 11 anos. Meu pai era mambembeiro, e ele estava em Barra do Piraí, numa situação crítica, e não tinha ninguém para trabalhar com ele. Lá chovia muito e os atores foram saindo da companhia. Ninguém ia aos espetáculos e eles precisavam fazer um para poder sair da Barra do Piraí. Então levaram uma peça que tinha duas mulheres: uma era minha mãe e papai queria que eu fizesse a outra. Minha mãe não queria, não, mas papai tanto insistiu, faz não faz, que afinal mamãe acabou deixando. Esse espetáculo não foi em Barra do Piraí. Não sei como meu pai saiu de lá. Só sei que nós fomos para Valença e, no dia 20 de Janeiro de 1906, eu estreei nesta peça.

Aldomar - Diz o nome da peça.
Luiza - A Caixinha de Pandora. Foi com esta peça que eu estreei. Depois desta peça eu parei. Apareceu um convite para o meu pai ir ao Norte com uma companhia grande, de operetas, e ele aceitou. Acabou o mambembe, a gente veio para o Rio de Janeiro e, daqui, fomos para Manaus.

Aldomar - A senhora lembra o nome dessa companhia?
Luiza - Não. Sei que o empresário era Silva Pinto. A primeira dama da companhia era Medina de Souza, e o maestro da companhia era Ricolino Miranda, primeiro prêmio do Conservatório.

Aldomar -Bom, mas então a senhora foi para a Manaus.
Luiza - Fui para Manaus, mas não trabalhava ainda, era muito criança. Mas o empresário resolveu montar A Capital Federal de Arthur de Azevedo e nesta peça, tem a família do Euzébio. O empresário queria que a família toda fosse feita por brasileiros. A nossa companhia tinha, naquela época, francesas, italianas, espanholas, inclusive minha mãe, e não tinha uma brasileira para fazer a Finoca, personagem da família do seu Eusébio. O Silva Pinto, então, pediu a papai para me deixar fazer a Finoca. Eu, com meus onze anos, trabalhei no Teatro de Manaus, o Amazonense, que naquele tempo era o primeiro teatro do Brasil, porque ainda não existia o Teatro Municipal. Depois eu não trabalhei mais.

Lourdes - Mamãe, qual a razão de ser do mambembe? Foi uma coisa que a mamãe conversou comigo hoje e que eu não sabia. O mambembe existia porque, em determinadas épocas em que o público vai ao teatro, e nós sabemos que existem os meses fracos e os meses fortes, vinham as companhias estrangeiras para cá e não havia teatro para o ator brasileiro. Então, o ator brasileiro tinha que mamembar para ceder os teatros às companhias estrangeiras. Não foi mamãe?
Luiza - Foi, porque naquele tempo, vinham companhias italianas, portuguesas, com revistas e dramas, e os artistas brasileiros ficavam sem teatro. Eram obrigados a mambembar. Os mambembes existiam para que os artistas pudessem sobreviver. Não eram empresas, não tinham contratos. Era uma associação de atores com fome. O que desse, no fim de semana , a gente dividia. Era assim que os artistas viviam. Depois, conforme fosse, voltavam para o Rio, trabalhavam em companhias, mas continuavam sempre mambembando. Meu pai mambembou muito. Eu comecei a mambembar com meu pai aos nove anos de idade.

Aldomar - Bom, então a senhora fez A Capital Federal?
Luiza - Ah! Aí então eu fiz a Finoca. Ficava radiante porque era o único dia que eu podia ir ao teatro. Minha mãe não me levava ao teatro. Teatro aos domingos só do lado de fora, mas fazendo A Capital Federal eu ia lá pra dentro, porque eu ia trabalhar. Ficava toda contente. Depois a companhia acabou e eu não trabalhei mais. Só voltei a trabalhar aos quatorze anos, no Teatro Recreio, na companhia Lucília Peres e Arthur Azevedo, numa peça... Não sei quem era os autores.

Aldomar - Companhia Lucília Peres e Arthur Azevedo?
Luiza - A companhia era Arthur Azevedo e a Dona Lucília era aquela grande atriz brasileira que ninguém se lembra dela. Foi o Arthur Azevedo quem se bateu, quem lutou para fazer o Teatro Municipal. Isso foi em 1908 e, em 1909, foi inaugurado o Teatro Municipal.

Lourdes - A peça foi O Dote?
Luiza - Não. Veio uma companhia francesa para inaugurar o teatro. Então houve um levante de toda a crítica, da imprensa: “como é que ia inaugurar um teatro brasileiro com uma companhia francesa?”. Resolveram então fazer um espetáculo brasileiro. Na segunda parte foi encenada uma comédia onde meu pai trabalhava. Eu não trabalhei nesta ocasião não. Era aquela peça Bonança, de Coelho Netto, e a estréia foi dia 16 de julho de 1909. O Presidente da República era Nilo Peçanha.


Zilka- Mamãe, e depois da comédia dos brasileiros entrou a companhia estrangeira?
Luiza - No dia seguinte. A companhia brasileira foi apenas para inaugurar. No dia seguinte entrou a Companhia Rejane. Aí, em 1910, nós fomos para o Norte.

Lourdes - Foi quando a senhora teve aquela festa linda, mamãe?
Luiza - Foi na companhia do Arthur Azevedo.

Aldomar - Nessa excursão a senhora já trabalhava?
Luiza - Nesta excursão eu fazia uns papeizinhos para fazer jus à passagem. Isso é muito importante: tinha que fazer jus à passagem porque senão os meus pais é que tinham que pagar a passagem. Eu, tinha quinze anos. Fizemos uma excursão passando por Recife, Maranhão e Pará, onde assisti a coisa mais linda da minha vida, coisa que nunca mais assistirei e acho que nem as minhas filhas assistirão. A companhia fez um grande sucesso e Dona Lucília foi coroada em cena pelas moças da alta sociedade de Belém. Essa coroa era de ouro. Derreteram cem libras para fazer essa coroa. A pessoa que fez, fez com orgulho. Uma beleza! Na hora da coroação vinha uma chuva de pétalas de rosa. Nesse dia foi representado Maria Antonieta. Dia 16 de julho de 1910. Então a Lucília com aquela camisola branca...Foi uma coisa linda! Maravilhosa. Eu até hoje digo Dona Lucília Peres porque , naquele tempo, a gente não dizia: -”Oh! Lucília!” Não! Era Dona Lucília. Essa companhia tinha artistas como Gabriela Montani, Eliza Campos, Estela Gerard, era uma companhia enorme. Eu tenho a fotografia.

Aldomar - E as peças desse período?
Luiza - As peças eram O Dote, de Arthur Azevedo, sempre a estréia da companhia era com O Dote, e muitas outras peças, mas eu não me lembro.

Lourdes - Tem uma peça que você fala tanto, mamãe: Mestre Forges.
Luiza- Mestre Forges, A Rajada, Zazá e aquela também que eu ria que nem uma danada e que papai brigava comigo. Ria muito porque eu fazia uma mulher do povo. Nessa Maria Antonieta, também fazia uma mulher do povo. Como é o nome da peça? Ah, meu Deus! O Mártir do Calvário.

Zilka - Mamãe, que teatros você inaugurou?
Luiza - Ah, eu inaugurei muitos teatros! Depois de Belém nós fomos a Manaus. Fizemos uma temporada muito linda lá e, de Manaus, fomos para o Ceará, onde a companhia de Artur Azevedo inaugurou o Teatro de Fortaleza, Teatro José de Alencar, no dia sete de setembro de 1910, com a peça O Dote. Foi uma temporada linda que durou meses. Depois fomos a Maceió inaugurar o Teatro de Maceió, Teatro Deodoro, com O Dote. . Sempre a companhia estreava com O Dote, porque como a companhia era do Artur Azevedo nós prestávamos esta homenagem a ele.


Link para O Dote:

http://www.dominiopublico.gov.br/download/texto/bn000102.pdf

Link para A Capital Federal:

http://www.dominiopublico.gov.br/download/texto/bn000020.pdf

Link para as obras completas de Artur Azevedo:

http://www.qprocura.com.br/dp/autor/5218_Artur-Azevedo.html







LUIZA NAZARETH, em Coleção Depoimentos - Volume I - MEC - Serviço Nacional de Teatro - FUNARTE - 1976.

Excertos da entrevista (primeira parte).

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Comentário de Helô em 17 julho 2009 às 1:01
Cafu
Muito obrigada por mais essa ;)
Que bela família Dona Luiza Nazareth constituiu, tendo duas grandes atrizes como filhas. Eu adorava a Zilka! Achei interessante ela contar sobre o "levante de toda a crítica da imprensa" para a inauguração do Municipal com uma companhia francesa. Nos quatro números de julho/1909 da Revista Fon-Fon, que consultei para o Centenário do Teatro, o destaque é todo para a atriz francesa Réjane, com fotos de página inteira. Não vi uma nota sobre Bonança.
Mas os jornais noticiaram a programação, sendo que um deles deu destaque à programação "exclusivamente nacional":

"A sociedade fluminense vai hoje assistir à inauguração do suntuoso monumento de arte que é o Teatro Municipal e, ao mesmo passo, assistir a um espetáculo exclusivamente nacional. (...)

Coelho Netto era decerto imprescindível neste espetáculo, que bem se pode considerar o início de uma nova era para o teatro nacional, e o grande escritor escreveu um ato que é a revelação de um ideal novo na nossa literatura profundamente original: Bonança marca uma nova fase de seu teatro como o verificarão os que logo tiverem a ventura de a ouvir. Para interpretar essa nova produção do fecundo autor nacional veio de São Paulo a companhia dramática Arthur Azevedo, de que é a primeira figura feminina a distinta artista Lucilia Peres.

Com Coelho Netto aparecem também neste espetáculo genuinamente nacional dois musicistas brasileiros: Francisco Braga e Delgado de Carvalho. O primeiro apresenta o poema sinfônico "Insomnia", com texto de Escragnolle Doria. O segundo a sua ópera Moema.

Mas a eloqüência oratória devia ter também uma alto representante nessa festa intelectual. Essa é representada por um dos maiores poetas e prosadores brasileiros, Olavo Bilac, que fará o discurso inaugural.

Tomam parte na interpretação da Bonança as atrizes Lucilia Peres, Gabriella Montani e Luiza de Oliveira e os atores A. Ramos, Nazareth e João de Deus. A Moema terá como intérpretes a sra. Laura Malta e os srs. Americo Rodrigues, Oswaldo Braga e Mario Pinheiro. A orquestra dirigida por Francisco Braga é composta de 64 pessoas, muitas das quais professores do Instituto. o cenário da Moema é trabalho do distinto cenógrafo Chrispim do Amaral."
- A Notícia, 14 de julho de 1909.

*******
No mais, adorei a postura da Luiza ao dizer sobre a importância de trabalhar para fazer jus á passagem. Já estou curiosa pra ler a segunda parte.
Beijos.
Comentário de Cafu em 17 julho 2009 às 2:01
Maravilha de garimpo, Helô! Oportuníssimo,também.
Façamos a Justiça que a história e os burocratas não fizeram. Já que estamos na semana de comemoração do centenário do Teatro Municipal, vale lembrar que Artur Azevedo por três décadas sustentou a campanha para a construção do Teatro Municipal, cuja inauguração não pôde assistir pois morreu 9 meses antes. Ter uma peça sua encenada na inauguração era o mínimo que ele merecia, não? Ou, então, agora no centenário, não?

Por isso vamos destacar em letras garrafais, e repetí-la para que todo mundo saiba, esta fala da Luiza Nazareth:

FOI O ARTUR AZEVEDO QUEM SE BATEU, QUEM LUTOU PARA FAZER O TEATRO MUNICIPAL.
FOI O ARTUR AZEVEDO QUEM SE BATEU, QUEM LUTOU PARA FAZER O TEATRO MUNICIPAL.
FOI O ARTUR AZEVEDO QUEM SE BATEU, QUEM LUTOU PARA FAZER O TEATRO MUNICIPAL.
FOI O ARTUR AZEVEDO QUEM SE BATEU, QUEM LUTOU PARA FAZER O TEATRO MUNICIPAL.
FOI O ARTUR AZEVEDO QUEM SE BATEU, QUEM LUTOU PARA FAZER O TEATRO MUNICIPAL.


Beijos.
Comentário de Helô em 17 julho 2009 às 2:11
No site de Eliseu Visconti
"Foi Arthur Azevedo quem primeiro sonhou com a criação de uma companhia teatral subvencionada pela Prefeitura Municipal do Distrito Federal. Tinha o escritor e teatrólogo a convicção de que somente a construção desse teatro poderia interromper a má fase em que se encontravam as artes cênicas naquela segunda metade do século XIX.

A insistência de Arthur Azevedo, principalmente através de seus artigos na imprensa, resultou na criação da Lei Municipal, em 1894, para construção de um teatro municipal". (...)

Foi Arthur
Foi Arthur
Foi Arthur
Foi Arthur
Foi Arthur


Comentário de Helô em 17 julho 2009 às 2:16
O autor do belíssimo retrato de Arthur Azevedo é Modesto Brocos.
Beijos e até semana que vem!
Comentário de Cafu em 18 julho 2009 às 13:17
Helô,
O que mais me tocou foi o depoimento sobre o mambembe."Os mambembes existiam para que os artistas pudessem sobreviver. Não eram empresas, não tinham contratos. Era uma associação de atores com fome. O que desse, no fim de semana, a gente dividia."
Selecionei outros relatos sobre as condições concretas da vida de artista, a ser publicado na outra parte, para que a gente conheça melhor os ossos do ofício, as batalhas, as dificuldades reais.
Beijos.
Muito bacana, o Artur retratado pelo Modesto Brocos! :)
Comentário de Teatro de Revista em 19 julho 2009 às 20:56
Como era dura a vida dos artistas de teatro... mambembes ou não.
Depoimentos como esses tem que sair da gaveta, sempre.

Engrossando o coro de vocês, VIVA O ARTUR AZEVEDO!
Beijos.
Laurinha.
Comentário de Cafu em 20 julho 2009 às 12:41
Laurinha,
Eu não entendi o parentesco da Luiza com o Ernesto Narazeth. Nosso grande compositor nasceu em 1863 e a Luiza em 1894. Será que ela era sobrinha dele? Numa entrevista que li com a Zilka, ela é apresentada como "sobrinha do compositor Ernesto Nazareth". Só se for sobrinha-neta, não é?

Por falar em Ernesto, outro que teve vida dura e sofrida...
Beijão.
Comentário de Teatro de Revista em 20 julho 2009 às 21:06
Cafu, Helô e Laura,
Belíssimo retrato de Arthur Azevedo! Esse Modesto Brocos era fera.
Mas, reparem: Arthur "sonhou com a criação de uma companhia teatral subvencionada pela Prefeitura Municipal do Distrito Federal". Muito que bem. Construíram um teatro suntuoso -o maior da América Latina- e entregaram a programação aos empresários que já ocupavam as salas existentes e cuja especialidade era trazer grandes elencos principalmente da europa -cantores líricos, regentes, bailarina(os) etc. No início havia espaço para o teatro de prosa no TM. Mas em pouco tempo, passou a ser uma casa exclusivamente voltada para a ópera, o balé e o concerto. Teatro de prosa ali só muito raramente.
Os corpos estáveis -coro, orquestra e corpo de baile- só foram criados em setembro de 1931, por decreto do prefeito Adolfo Bergamini.
Um século depois, o Teatro Municipal funciona (quando funciona) exatamente como em 1909: aluga-se o teatro a algum empresário para três ou quatro espetáculos de ópera e uns tantos concertos por ano.
A "companhia teatral" sonhada por Arthur Azevedo nunca aconteceu. Ao contrário de todos os os outros grandes teatros do mundo (Opera de Paris, Comedie Française, Covent Garden, Metropolitan, etc etc) o Teatro Municipal não tem elencos nem repertório próprios. Continua a ser um teatro de aluguel com uma capacidade ociosa enorme. Não forma músicos, regentes, cantores ou técnicos. A duras penas ainda forma bailarinos e bailarinas -quase um milagre de sobrevivência.
Faz um século que Arthur deve estar dando bengaladas no túmulo!
beijão
Henrique Marques Porto

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