Humor

Algumas decepções...

 

“É, sei... Tá bom...  Ligo depois...”

( o carro andando na Marginal, o medo de ter sido visto com celular, os pontos na carteira estourando...)

  O casamento, três anos de militância política e profissional, tudo inteiramente juntos. Ela , como aquela canção do Guinga  e Aldir Blanc  - ou mesmo aquela do Renato  Russo – era a resolvida, despachada. A irada da família...

  Jornalista e Assessora de Imprensa, de um político. Plural: quando se tratava de compreender os outros... Irritante até, a sua licença de solidariedade. Com tudo e com todos. Todas as causas, especialmente as públicas...

  Tinha lá sua vertente esquerdista. Era muito mais prática e vivencial que a minha. Na verdade era como uma religião. Ela não conseguia discutir a fundo. Mais conseguia praticar muito mais. Francamente ,  a melhor de nós dois.

  Disparado...

  Na sua tolerância comigo, expliquei que o pensamento de esquerda tinha-se reinventado. A causa ambiental, por exemplo. Era muito mais de esquerda. Muito mais dissimulada como esquerda, como domínio da esquerda. Uma necessidade operacional. No cenário político de ocupação de espaços...

  Ela, contrária, era inclusiva. Um verdadeiro governo de coalizão. Tudo que não fosse conservador ela tolerava como esquerda. Como progressista...

  Como nosso consenso era fluido, momentâneo, as boas discussões (as profissionais) eram um momento de... sorvete de limão num dia de calor. Me ajudavam a entender este nosso mundo. E até  tentar racionalizar o Inexplicável, o Absoluto...

  Sua presença era um jorro de água cristalina num meio dia de Ibirapuera lotado. Me ligara cedo, de manhã:  “Olha que me disseram que vai rebentar uma bomba...E sem a cobertura dos grandes...”  “ Só a mídia alternativa vai cobrir...”

  Fiquei sem ação. Não porque ignorasse o evento. Mas com o que ela, profissional, definia como “os grandes”. Nossos papos, discussões e palpites, sempre enriquecedores de ambos, não permitiam (pensava eu) dizer quem são os grandes, ou “alternativos”. Tudo era uma questão de espaço .  Espaço  a  ser  conquistado. Tornar-se digno, em  conquistar o espaço que se quer...

  Como na questão ambiental, a quem pertence à agenda? Só é esquerda quem tem méritos para ser.  Mérito para encampar os temas. Espaços,  agendas e conquistas. O método também era essência...

  Aquele tom de  verdade  assumida, dos “grandes” e dos “alternativos”, soara grosseiro. Não combinava com ela. Talvez estivesse perto de alguém. Assessora de Imprensa... Vai saber.

  À noite, antes de chegar, outro telefonema.  Desta vez, pudemos conversar mais. Notei a excitação dela, da pessoa, na voz, ouvindo toda a modulação das frases. Deduzi o dito. E fiquei mais atento ao não dito. Concluí pelas suas razões. Seu faro profissional, dentro do seu emocional sensibilizado.

  “ Se eu soubesse...” confidenciara.

  Mexi a bebida. Esperaria por ela. Iria demorar... Poucas pessoas tem a chance de apreciar o momento em que perdemos a ingenuidade. Digo, a política.

  Desta vez...

  Sabia do seu instinto inclusivo, maternal mesmo. Sabia também o quanto ela sofreria, o quanto estava agora sofrendo...

  O evento era a divulgação de um livro de um jornalista. Temperatura de alguns decibéis ou farenheits políticos bem acima da média. A cobertura “alternativa” foi da qualidade esperada. A repercussão , prestigiosa. O livro esgotara-se rapidamente...

  Sabia a causa de sua dor. A veracidade.

  Sabia que ela sabia bem mais do que me dizia. Aquele evento ou aquele livro,  os fatos à sua volta, dispararam toda uma tristeza genuína. De desapontamento. Não pela demissão, a dela. Não pela perda da ingenuidade, na mesma tacada. Mas pela perda,  por engolir a seco o sapo do desapontamento. Da condição de admiração eterna que impomos aos outros.

  Quando apenas descem do pedestal de ícones, tudo até se agüenta.   

  Quando descem até o patamar de gatuno, ao de meros gatunos, aí o esteio de tolerância íntima se dissolve. A grade rebenta, o conteúdo em queda estoura...

  Mexi a bebida. Suspirei. Aguardaria sua volta...

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