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Na minha opinião, embora historicamente o mundo lírico cultue tenores e sopranos (como se houvesse uma espécie de tradição nesse sentido), há tessituras e timbres que talvez sejam ainda mais belos do que aqueles dois tipos de registro vocal. Entre os homens, o barítono; entre as mulheres o mezzo-soprano.

O barítono é a voz masculina que se situa entre a do baixo e a do tenor. Mas aí, mais uma vez encontramos alguma dificuldade na simplificação, em virtude das diversas nuances que caracterizam cada um desses registros vocais. De forma que talvez fosse mais preciso dizer que o barítono é a voz masculina que se situa entre o registro do baixo cantante e o do tenor dramático. É uma voz mais grave e “redonda” que a dos tenores, quase sempre mais forte, volumosa e poderosa.

Ainda para exemplificar a questão das dificuldades para uma classificação mais precisa, basta citar o grande artista italiano Cesare Siepi (1923), considerado, indiscutivelmente, um dos maiores baixos da história do canto lírico. Pois bem, Siepe foi também um intérprete magnífico do Don Giovanni, de Mozart. Pois Mozart escreveu o papel de Don Giovanni para barítono, reservando aos baixos os papéis de Leporello (criado de Don Giovanni) e do Comendador (o sombrio fantasma que assombra seu assassino – o próprio Don Giovanni). Há, inclusive, uma gravação da Deutsche Grammophon (em DVD também), regida por Wilhelm Furtwängler, na qual Cesare Siepi é classificado como barítono!

Mas nada melhor para se apreciar essas nuances do que se ouvir grandes representantes dessa privilegiada tessitura, a dos barítonos (ou baixos-barítonos, como queiram).

Comecemos justamente com Cesare Siepi, em um trecho da gravação do Don Giovanni a que me referi.

CESARE SIEPI


Don Giovanni canta a serenata Deh, Vieni Alla Finestra, acompanhado por um bandolim e pelas cordas, em pizzicato. Ele convida a criada de Donna Elvira (candidata à sua lista de seduzidas) para aparecer à janela. Para tanto, exalta-lhe ardentemente os encantos, em tons artificialmente delicados.


Agora, ainda do Don Giovanni, mas em gravação de concerto, vejamos o mesmo Siepi, ligeiramente mais idoso, porém totalmente em forma, cantando a famosa ária Madamina, il Catalogo È Questo.


Esta ária é cantada por Leporello, criado de Don Giovanni, papel que Mozart escreveu para voz de baixo. Desenvolvida com muita ironia e graça, no estilo de sonata-rococó (início allegro e sequência minuetto) – conhecida como “Ária do Catálogo” – é uma descrição da devassidão de Don Giovanni. Com o registro das suas conquistas nas mãos, Leporello desfia à perplexa Dona Elvira toda a carreira pregressa do patrão: um total de mais de duas mil mulheres seduzidas. Indiscutivelmente, Don Giovanni era um profissional competente.

Aqui também podemos constatar que Cesare Siepi era um desses fenômenos que “jogava nas duas posições”: a de baixo e a de barítono.


Ouçamos agora o barítono galês Bryn Terfel, interpretando a bela ária O du mein holder Abendstern, conhecida como “A Canção da Estrela”, da ópera Tannhäuser de Wagner.

BRYN TERFEL



Nesta ária, suave e melodiosa, o personagem Wolfram, contemplando o céu estrelado, confessa seu amor por Elisabeth, a heroína da história, por quem seu amigo Tannhäuser também está apaixonado.

Na ópera, arte das paixões arrebatadas, os triângulos amorosos são uma constante. Parece que, pelo menos nos devaneios literários, os grandes romances só são de fato grandes se houver grandes sofrimentos, grandes disputas e grandes traições...



Finalizamos o post com outro exemplar da categoria dos barítonos, Dmitri Hvorostovsky cantando Ombra Mai Fu, da ópera Xerxes de Händel. Na canção, Xerxes se dirige a uma árvore de seu jardim, fazendo o elogio de suas belezas em tom de casta simplicidade.

Hvorostovsky e Terfel, talvez sejam os maiores barítonos da atualidade. Pelo menos, por enquanto.


A curiosidade sobre essa ária é que ela foi escrita para ser cantada por mezzo-soprano, voz indicada por Händel para o papel de Xerxes.

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Comentário de Jane Chiesse Zandonade em 9 dezembro 2008 às 23:59
Ué!!! O papel de Xerxes seria cantado por uma mezzo-soprano?!? Que coisa esquisita!!
Todas as árias são bonitas, mas Ombra Mai Fu é tão tocante!
Adoro barítonos.
Obrigada pelos vídeos e informações!
Um grande abraço!
Comentário de Lúcio Zandonadi em 10 dezembro 2008 às 9:26
Na verdade, verdadeira mesmo, é que foi composta para um castrato. Handel gostava de colocar castrati em papéis principais (como também o caso de Júlio César) pois esses cantores eram muito bem considerados, eram 'virtuosi'. Ao contrário do que se pensa, a voz de um castrato era bem diferente da voz de um mezzo-soprano, até diferente de um contra-tenor dos dias de hoje. Seria um bom assunto para um post.

Esses barítonos são excelentes, hein! Não conhecia o Siepi, que maravilha de vozeirão. No segundo vídeo ele está um vovô dos mais simpáticos e ainda totalmente em forma, como você disse. Muito bom.
Comentário de Oscar Peixoto em 10 dezembro 2008 às 22:11
Lúcio, obrigado por sua contribuição. Isso é que é construir conhecimento! Muito bem lembrado o papel que os castrati representaram na história da ópera. Mas se refletirmos um pouco sobre o tema, podemos dizer que o papel de Xerxes foi escrito na tessitura de um mezzo-soprano dos nossos dias e que, com o passar do tempo, com o desaparecimento dos castrati da cena lírica, acabou se tornando uma prática comum entregá-lo a esse registro vocal – embora outras vozes já o tenham cantado, como tenores, por exemplo. O fato é que a partir de sua estréia em 1738, com o castrato Caffareli no papel principal, a ópera só teve cinco récitas, até ser retomada em Göttingen, 1924 (190 anos depois! Os castrati já haviam sumido de cena), com os tenores Gunnar Graarud, no papel de Xerxes, e Georg S. Walter no de Arsamene. De lá para cá, a bela “Ombra mai fu”, celebrizada como o “Largo de Handel”, foi cantada por tenores, barítonos, mezzo-sopranos, enfim, por todos os tipos de cantores que se deixam tocar por essa melodia gloriosa.
Comentário de Jonas Alves Corrêa em 10 dezembro 2008 às 23:32
Excelente a matéria sobre os barítonos, onde, através dos vídeos apresentados, pude apreciar as poderosas vozes desses cantores. Como você sabe, já sou fã do Dmitri Hvorostovsky, que passei a conhecer e desfrutar graças à indicação sua. Abraços.
Comentário de Róvere de Almeida Thomas em 11 dezembro 2008 às 1:47
Impressionante os apoios no último vídeo. Realmente impressionante. A doçura e o alcance do inglês são dignos de nota também. Grato pelo compartilhamento de seu conhecimento.
Comentário de Jane Chiesse Zandonade em 11 dezembro 2008 às 11:41
Oscar, o Lúcio é meu filho. Ele está terminando os cursos de Regência e Composição na UFRJ. Lúcio compõe música erudita belissimamente. Seu conhecimento em música é muito grande, maior até que a média de seus próprios colegas. Já teve música pra Coral na última Bienal de Música Contemporânea do Rio de Janeiro, e outras músicas suas já foram apresentadas ao público. Se quiser ver e ouvir suas músicas no Youtube, é só acessar "Lúcio Zandonadi". Nos meus vídeos no blog do Luís Nassif coloquei a da Bienal. E o erro do meu nome, com "E" no final, ficou registrado, e eu não quis trocar...
Abraço!!
Comentário de Henrique Marques Porto em 11 dezembro 2008 às 17:23
Caro Oscar,
Em seus sempre corretos comentários sobre as vozes e sua classificação sinto falta da indicação de exemplos de cantores que são referências em cada tessitura. Mais do que referências, funcionam como matrizes para os que vieram depois, inclusive para os cantores atuais. Desenvolveram técnicas de canto, estilos e estabeleceram critérios de interpretação quase definitivos, numa forma de expressão tão antiga como a ópera. Os jovens, mesmo os mais preparados e informados, ou músicos quase formados como o Lúcio, não conhecem bem um cantor da qualidade de Cesare Siepi, o melhor Don Giovanni de 1950 aos nossos dias. Siepi estabeleceu um modelo para o Don, desde a estréia no papel em Salzburg, em 1950. Até hoje é indicado pela crítica como o mais belo timbre de baixo que se conhece. Siepi e Boris Christoff (deste eu gosto especialmente) dominaram a cena lírica, nos palcos e estúdios de gravação, por quase 30 anos. No YouTube existem vários vídeos e arquivos sonoros dos dois. Estrearam no final dos anos quarenta e cantaram nos melhores palcos até meados dos anos setenta. Tive a sorte de, aos 14 anos, ver um Mefistofele, de Arrigo Boito, com Siepi em 1964, aqui no Rio. Imposível esquecer aquele récita memorável. Em cena, o cara era impressionante! Siepi e Christoff são vozes de referência para os novos cantores. Christoff abriu o caminho para o também búlgaro Nicolai Ghiaurov, outra voz fantástica. No caso dos baixos acho indispensável ir mais longe e falar em Feodor Chaliapin (1873-1938), que é o pai de todos os baixos. Assim como Enrico Caruso, é uma voz histórica. Como alcançou a gravação eletrônica e o filme com som, existem alguns registros de qualidade dessa voz fenomenal. E há outros, como Marcel Journet, Ezio Pinza, Tancredi Passero, etc.
Entre os barítonos, é preciso reapresentar Tito Gobbi, Ettore Bastianini, Leonard Warren ou Piero Capuccilli, para citar apenas estes. Além, é claro, de Dietrich Fisher-Diskau, cuja escola inspira cantores como Bryn Terfel. Mas também aqui é preciso ir na fonte e conhecer as vozes que no início do século passado criaram uma nova forma de cantar, rompendo com os conceitos que predominaram no século dezenove. Tita Ruffo, Ricardo Stracciari, Carlo Galeffi, Giuseppe De Luca e Benevenuto Franci são talvez os principais nomes. Sei que ouvir essa geração nos velhos 78 rpm é dureza para ouvidos formados na era do som digital. Mas, vale a pena. São vozes absolutamente sensacionais. Nelas encontramos todos os fundamentos do canto para o registro de barítono. Cem anos depois estão ainda atuais. "Todos dormindo, dormindo profundamente", como no poema de Manuel Bandeira. Mas ainda cantando nos discos para quem os quiser ouvir.
Abraços
Henrique Marques Porto
Comentário de Laura Macedo em 14 dezembro 2008 às 21:06
Oscar, quanta informação!!
Confesso que para mim tudo é novo, mas bastante estimulante.
Desde que comecei a frequentar sua página tenho procurado aprofundar meu namoro com a música clássica, iniciado quando da minha convivência com um professor de violão que tive.
Para nós professores, não há nada mais gratificante do que a constatação do desejo dos nossos alunos em querer aprofundar um determinado conhecimento.
Grata pelas aulas. Se vou tirar nota dez, algum dia, não sei. Só sei da minha motivação para pesquisar mais sobre a temática. Valeu professor!
Um grande abraço.
Comentário de Oscar Peixoto em 15 dezembro 2008 às 21:26
Henrique, não há dúvida de que você estaria certíssimo se minha intenção fosse fazer um relato histórico do “bel canto”. Mas não é esse o meu propósito. Quando decidi criar esta página, pretendia fazer algo bem simples, tão somente para atrair o interesse dos “visitantes”, principalmente daqueles que não gostam – porque não conhecem – de canto lírico.
Decidi, então, não ser didático, nem enveredar pelo caminho do “curso” de ópera. Penso que tratando o tema de forma professoral não conseguiria atingir aquele objetivo. Minha opção foi, como disse no primeiro “post” do “blog”: “compartilhar com os amigos algumas jóias líricas que considero de grande beleza e que requerem alto grau de virtuosismo para serem executadas”.
Por isso, optei por apresentar árias ou canções de fácil assimilação, na medida do possível, em gravações mais ou menos recentes, privilegiando cantores “novos”, numa forma de reforçar a idéia de que o canto lírico não é coisa obsoleta, ultrapassada, que desapareceu com as “matrizes”.
A questão da classificação das vozes foi apenas para dar certa ordem lógica aos “posts” que iria introduzindo. Talvez isso tenha dado a impressão de que enveredaria por caminhos histórico-didáticos de um curso de ópera.
Entretanto, com as chamadas dos vídeos e, principalmente, com a colaboração de comentários como os seus, que dão um “touch of class” ao blog, creio que a página está ganhando em dimensão.
Qualquer um que tenha sua atenção despertada para essa arte esquecida pelo grande público, poderá pesquisar e buscar novas fontes de informação e deleite, a partir das dicas que aqui são apresentadas.
Como você bem mostra, há enorme acervo de vídeos e arquivos sonoros à disposição de todos, nesta que é a maior enciclopédia da história da humanidade: a Internet.

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