Iluminações de Antonio Candido - 1) Ensino, a vocação mais profunda

O Estado de S.Paulo, 08/01/2010.
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WALNICE NOGUEIRA GALVÃO escreve sobre o professor e crítico Antonio Candido, autor do clássico "Formação da Literatura Brasileira" e de "O Albatroz e o Chinês", agora reeditado, e criador da revista "Clima" que completa 70 anos

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Alguns marcos importantes pontilharam o percurso de Antonio Candido, no arco que se desenha da assiduidade aos bancos escolares até atingir o outro lado, atrás de uma mesa e ao pé de uma lousa.

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O aluno. Um conjunto de definições assinalou sua escolha de profissão e acesso a um curso superior. Uma delas foi transferir-se de Poços de Caldas, onde morava com a família, para São Paulo, a fim de ingressar numa faculdade. Sentiu-se atraído pela grande novidade no panorama dos estudos universitários de então, a fundação da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras (1934). Novos campos descortinavam-se aos jovens. Coisa inédita entre nós, a escola encampava um naipe docente de europeus, que se distribuía assim: franceses para as humanidades (filosofia, literatura, sociologia, antropologia, política, história, geografia), italianos para as ciências físicas e as matemáticas, alemães para as ciências naturais.

O objetivo era a criação de um centro de estudos de ciência pura e não aplicada. Para as aplicadas, já tínhamos Faculdades de Medicina, de Direito, a Politécnica, etc., que davam formação profissional e cuidavam do lado prático dos saberes. Mas nos faltava uma que ensinasse filosofia, sociologia, zoologia, botânica, genética, física, química, álgebra - tudo isso sem adjetivação, ou seja, que não se atrelassem ao interesse de qualquer profissão e se dedicassem à pesquisa pura.

Vários desses mestres europeus afirmariam no futuro que nunca lhes passara pela cabeça vir parar no Brasil, de que nada sabiam. Mas isso definiu não só a vida e a carreira de seus discípulos: as deles também. Dois exemplos apenas, mas significativos: Roger Bastide, que se especializaria nas religiões afro-brasileiras, tornando-se autoridade inconteste, e Claude Lévi-Strauss, que desenvolveria obra sobre mitologia indígena.

Dessa maneira, vê-se que, para começar, Antonio Candido fez os estudos superiores em condições muito especiais: numa escola pública, sob os cuidados de professores franceses, participando de reduzidas classes - às vezes não mais que meia dúzia de jovens - na recém-criada Faculdade. Formar-se numa das primeiras turmas de Ciências Sociais e ser discípulo desses mestres mostrou-se decisivo em seu destino.

Não é só o seu caso, mas o do grupo da revista Clima, com o qual, todos nos 20 anos e colegas de Ciências Sociais e Filosofia, fundaria a revista célebre por ser a sementeira de carreiras extraordinárias, a partir da distribuição das tarefas na redação. Antonio Candido viria a especializar-se em literatura, Paulo Emílio Salles Gomes em cinema, Decio de Almeida Prado em teatro, Lourival Gomes Machado em artes plásticas, Ruy Coelho em antropologia, Gilda de Moraes Rocha (futura esposa) em Estética, enquanto publicava contos e resenhas na revista. Os membros do grupo, cedo ou tarde, seriam professores na USP (leia texto abaixo).

As reminiscências desses alunos pioneiros mostram que o minúsculo tamanho das turmas era favorável a uma intensa convivência, que se estendia extramuros, pois frequentavam juntos bibliotecas, livrarias, teatros, galerias e exposições, cinemas e bares, ali mesmo no centro da cidade, perto da escola. À época, tudo isso era tão próximo que se ia a pé de um lugar para outro. Por essa razão há várias fotografias do grupo na Praça da República, ponto de encontro ou espaço para flanar.

Da revista, Antonio Candido logo passaria ao jornal, encarregando-se de um rodapé semanal como crítico titular na Folha da Manhã (1943-1945) e no Diário de São Paulo (1945-1947). Ali registrava os lançamentos, mas também elaborava temas e falava de escritores estrangeiros. Nesses primeiros artigos, já é de notar a extensão de seus interesses. Sua colaboração em periódicos de todo tipo se manteria pela vida afora.

Essa dupla vertente de formação superior, combinando o diploma em Ciências Sociais ao exercício da crítica literária, vai-se refletir em vários pontos de suas atividades.

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O professor. Antonio Candido passaria a vida como professor e costuma dizer que essa é sua vocação mais profunda. Primeiro lecionaria Sociologia por alguns anos, transferindo-se depois para Literatura Brasileira na Faculdade de Filosofia de Assis. Depois, fundaria na USP o departamento de Teoria Literária e Literatura Comparada, que só deixaria ao se aposentar. Criaria algo de âmbito ainda maior, o Instituto dos Estudos da Linguagem, na Universidade Estadual de Campinas, ou Unicamp, constituído principalmente por ex-alunos seus da USP, que organizou e implantou entre 1976 e 1978. Os alunos que formou, em tantos anos de magistério, perfazem legião. E estão espalhados por aí, tentando compartilhar com outros, agora alunos deles, o que aprenderam com o mestre. Os passos de sua carreira universitária compreendem a titulação obrigatória, pela qual obteve os respectivos graus em Ciências Sociais e em Literatura Brasileira.

Em aula, ele costumava ser rigoroso e cerimonioso. Não gostava de conversa fiada, nem de ser interrompido. As perguntas até que eram bem-vindas, já que mostram que alguma coisa atingiu o aluno. E este, por definição, tem direito à atenção do professor. Mas é bom que espere o fim da aula, para que o raciocínio do professor não se veja bruscamente cortado; e não é fácil reatá-lo, recompondo o fio da meada.

Paciência, segurança (a segurança de quem preparou a aula de antemão), lhaneza de trato. E também limites definidos para barrar a intrusão injustificada e a pura falta de educação. Não se pode dizer, dados tais traços, que os alunos morressem de medo; mas sim que ficavam transidos de respeito.

Vários estavam ali para aprender mesmo. E nesse caso, faziam jus à oportunidade. Foi assim que Antonio Candido preparou grupos de alunos, que tinham vocação e boa-vontade, para a pesquisa de arquivo. Começando pelos arquivos de Mário de Andrade, a que tinha acesso privilegiado, levou esses alunos a aprender como lidar com manuscritos, apontamentos, notas avulsas, fichas de leitura, anotações à margem dos livros, recortes e prototextos de toda ordem. A messe que frutificou constata-se como enorme, rica e inédita, e com justiça pode encher de orgulho o professor.

Suas aulas eram sobretudo analíticas, tendo como ponto de partida a análise de obras literárias concretas, fossem poemas, contos ou romances. Dedicavam-se a destrinçar e desmontar, para descobrir seu funcionamento interno. Ao mesmo tempo, iam mostrando, através da comparação, como se inseriam na constelação das obras de sua época e no panorama da literatura universal. Seu método nada paroquial era o "integrativo", por meio do qual diferentes disciplinas e perspectivas se aglutinavam e se fecundavam mutuamente, todas colaborando para compreender e interpretar a obra. Um grande professor, modelo incomparável para quem teve privilégio de assistir às suas aulas.

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WALNICE NOGUEIRA GALVÃO É PROFESSORA DA USP, AUTORA, ENTRE OUTROS, DE EUCLIDIANA: ENSAIOS SOBRE EUCLIDES DA CUNHA

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