Iluminações de Antonio Candido - 2) Clima, visada ampla e renovadora

O ESTADO DE S.PAULO, 08/01/2010
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HELOISA PONTES escreve sobre o professor e crítico Antonio Candido, autor do clássico "Formação da Literatura Brasileira" e de "O Albatroz e o Chinês", agora reeditado, e criador da revista "Clima" que completa 70 anos

 

REPRODUÇÃOIntegrantes da revista Clima, na Praça da República, local preferido em que se reuniam para conversar ou ‘flanar’. Antonio Candido ao centro, rodeado (da esq. para a dir.) por Décio de Almeida Prado, Paulo Emílio Salles Gomes, Gustavo Nonnenberg, Lourival Gomes Machado e José Portinari.

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 A formação do grupo de juventude de Antonio Candido é inseparável da história da Universidade de São Paulo. O convívio intenso, quase diário, entre 1939 e 1944, na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras, reforçou as afinidades que os uniram. Estas, por sua vez, se nutriam das origens sociais semelhantes, do legado cultural que receberam de suas famílias, das escolas que frequentaram. Somadas, essas injunções lhes "davam um ar de família, um viés definido de enxergar o real", nas palavras precisas de Gilda de Mello e Souza.

 

A ideia da revista Clima surgiu no fim de 1940, a partir de conversas entre Lourival Gomes Machado e Antonio Candido. A princípio, eles pensaram em editar uma publicação pequena, de circulação restrita, para "dar curso a pontos de vista do grupo". Com o encerramento do ano letivo, Antonio Candido saiu de férias para a casa dos pais em Minas Gerais. Lourival permaneceu em São Paulo e continuou a fermentar o projeto de ambos. Procurou, então, Alfredo Mesquita que se entusiasmou pela ideia e propôs o lançamento de uma publicação mensal.

De volta a São Paulo, todos se concentraram na organização da revista, que já estava em andamento, inclusive com os anúncios que deveriam assegurar a sua base material. Definidos o título (Clima), o diretor responsável (Lourival Gomes Machado), os editores encarregados das seções permanentes (Antonio Candido, literatura; Lourival, artes plásticas; Paulo Emílio Salles Gomes, cinema; Décio de Almeida Prado, teatro; Antonio Branco Lefèvre, música; Roberto Pinto Souza, economia e direito; Marcelo Damy de Souza, ciência) e os colaboradores (como Ruy Coelho e Gilda de Mello e Souza, entre outros), a revista circulou de maio de 1941 a novembro de 1944. No decorrer dos 16 números, firmou-se sobretudo como uma publicação cultural e amarrou, segundo Antonio Candido, "o destino de cada um na seção de que era encarregado".

Nas páginas de Clima, Antonio Candido e os demais editores formularam uma dicção autoral própria e fixaram os contornos da plataforma intelectual e política da geração. A circulação, embora restrita (nunca mais de mil exemplares por edição), causou impacto entre os intelectuais da época. Jovens, recém ou em vias de concluir a graduação na Faculdade de Filosofia, ostentando os conhecimentos adquiridos por meio da formação sociológica e filosófica recebida, eles não mediram esforços para divulgar o projeto cultural do grupo e para se contrapor, mesmo que de forma respeitosa, aos predecessores.

No início dos anos 1940, a Faculdade de Filosofia, embora recente, emitia sinais de que viera para ficar. Produtos desse sistema acadêmico em formação, ligados por suas origens familiares à forma até então dominante de atividade intelectual - o ensaio -, os integrantes de Clima fizeram a ponte entre o passado e as demandas do presente. Daí a centralidade e o impacto que tiveram na cena cultural. Ali mostraram, com seus escritos e projetos de intervenção, a transformação capital que estava se processando em nossos hábitos intelectuais: a liga entre teoria, método e pesquisa, aprendida com os professores estrangeiros na universidade paulista. Nesse contexto, eles foram as pessoas certas para ocupar lugares com resultados ainda incertos.

Como críticos, divergiram dos modernistas - escritores e artistas em sua maioria - mas partilharam com eles o gosto pela literatura e pela inovação no plano estético e cultural. Como universitários contribuíram para a sedimentação intelectual da tradição modernista. Como críticos e universitários diferenciaram-se dos cientistas sociais em sentido estrito, não só pela escolha temática, mas, sobretudo, pela forma de tratamento aplicada aos assuntos selecionados. Em vez do estudo monográfico especializado, o ensaio, a visada ampla, a inscrição do objeto cultural num sistema abrangente de ligações e correlações.

Elegendo a crítica como modelo por excelência do trabalho intelectual, eles fizeram de Clima a plataforma da geração, antes de se profissionalizarem como professores universitários. Base intelectual e social de todos eles, a Universidade de São Paulo não foi o único espaço de atuação dos membros mais expressivos do grupo. Eles se envolveram nos projetos editoriais de ponta, nos grupos que estavam renovando o teatro da época, na Escola de Arte Dramática, nos eventos de artes plásticas, no Museu de Arte Moderna, na Cinemateca. E também no Suplemento Literário do jornal O Estado de S. Paulo. Lançado em outubro de 1956 e concebido como uma revista literária de porte nacional, ele reuniu novamente os criadores de Clima. Desta feita em bases nitidamente profissionais: Décio de Almeida Prado, diretor; Antonio Candido, idealizador e colaborador constante; Lourival Gomes Machado, titular da seção de arte; Paulo Emílio Salles Gomes, responsável pela seção de cinema. Firmando-se como um dos empreendimentos mais importantes do jornalismo brasileiro, o Suplemento foi um dos eixos por onde gravitou o sistema cultural paulista. Não por acaso, seu período de maior vitalidade (1956-1966) corresponde ao momento de maior envolvimento dos integrantes de Clima.

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HELOISA PONTES É PROFESSORA LIVRE-DOCENTE DO DEPARTAMENTO DE ANTROPOLOGIA DA UNICAMP, AUTORA, ENTRE OUTROS LIVROS, DE DESTINOS MISTOS: OS CRÍTICOS DO GRUPO CLIMA EM SÃO PAULO (COMPANHIA DAS LETRAS)

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