Imprensa, estupidez, política # Karl Kraus



Imprensa, estupidez, política



Primeiro é preciso que as instituições humanas se tornem tão perfeitas que possamos ponderar sossegadamente quão imperfeitas são as divinas.

Quando a armação do telhado pega fogo, não adianta rezar nem esfregar o chão. Em todo caso, rezar é mais prático.

O que a sífilis poupou será devastado pela imprensa. Nos amolecimentos cerebrais do futuro, a causa não poderá ser determinada com precisão.

Humanidade, instrução e liberdade são três bens preciosos que não foram comprados por sangue, juízo e dignidade humana a um preço suficientemente alto.

Quem é? É cega ante o Direito, fica estrábica ante o poder e sofre de exoftalmia ante a moral. E por causa dos belos olhos dessa basbaque sacrificamos a nossa liberdade!

A política proporciona as tensões de um romance policial. As gestões da diplomacia oferecem o espetáculo de como os Estados são perseguidos com mandado de prisão por uma quadrilha internacional de criminosos.

Quando um carro passa, o cão continua a fazer o seu protesto, apesar da inutilidade reconhecida há tanto tempo. Isso é puro idealismo, ao passo que a intransigência do político liberal nunca late para o carro do Estado sem fins interesseiros.

O segredo do agitador é fazer-se tão estúpido quanto seus ouvintes para que eles acreditem ser tão inteligentes quanto ele.

Crianças brincam de soldado. Isso faz sentido. Mas por que soldados brincam de criança?

A missão da imprensa é a de difundir o espírito e, ao mesmo tempo, destruir toda a capacidade de assimilação.

O jornalismo serve apenas aparentemente ao dia-a-dia. Na verdade, destrói a receptividade espiritual da posteridade.

Levar as pessoas a crer que um X é um U - onde está o jornal que confessa esse erro de impressão? [No original ein X ein U vormachen: expressão idiomática significando lograr , enganar. (N. R.)]

A providência de uma época ímpia é a imprensa, que elevou mesmo à crença numa onisciência e onipresença à categoria de convicção.

Tempo e espaço se tornaram as formas cognitivas do sujeito jornalístico.

Os jornais têm mais ou menos a mesma relação com a vida que as cartomantes com a metafísica.

Há falta de caixeiros. Todos correm para o jornalismo.

Uma cultura extensa é uma drogaria bem provida; mas não há nenhuma segurança de que o cianeto de potássio não será dado para um resfriado.

Numa cabeça oca entra muito saber.


Karl Klaus - Ditos e Desditos - Tradução: Márcio Suzuki &Werner Loewenberg & José Carlos Barbosa - Ed. Brasiliense

Exibições: 222

Comentar

Você precisa ser um membro de Portal Luis Nassif para adicionar comentários!

Entrar em Portal Luis Nassif

Publicidade

© 2019   Criado por Luis Nassif.   Ativado por

Badges  |  Relatar um incidente  |  Termos de serviço