Internet e sanidade

Eu sou muito mais moço do que pensam aqueles que me veem bengalando meu caminho pelas ruas de Londres. Ninguém me daria mais que 47 anos. Vá lá que seja: 57 anos. Isso porque só podem assistir a ruína a que meu pobre corpo ficou reduzido, conforme diz a velha canção do bom Ary Barroso. Não podem ver o decatlo moderno disputado com vistas a medalha ao menos de bronze pela minha vida interior.

Mentalmente, tenho meus sacudidos 30 e poucos anos. Meu cérebro bate bola em praia ou terreno baldio. Minhas faculdades mentais dão a volta ao quarteirão com o português do armazém correndo atrás, e não me pegando, depois de eu roubar a coxinha de galinha e a empada de palmito.

Não pratico esportes. Não faço ioga. Alongamento ou Pilates. Meu segredo, minha receita para uma vida saudável, para chegar com alguma dignidade e boa disposição física ao crepúsculo final que nos espera a todos é muito simples e nada tem a ver com regimes e essa enganação de alimentos “orgânicos”. Não. Sento. E sento e sento e sento.

Não só diante da televisão e os DVDs alugados, que isso é recreio, hora da engorda mental, confeitos que só engordam o já castigado cérebro. Sento diante da mesa em que se alojam, como precioso relicário, o computador, com todos seus adereços habituais: teclado, camundongo, USB para isso e aquilo outro, dongles e, vez por outra, suas inevitáveis chateações.

O conjunto, comigo a manobrá-lo, confortavelmente sentadão, é o que me mantém, e ainda manterá, por muito tempo, com a mente sã e distante de qualquer “andador”, por mais moderno e estético que seja.

Amigos – mais: irmãos – de cabelos cor de prata, eis o segredo que a ciência acaba de endossar: googleie para viver sem demência ou sentir nas costas o toque gelado dos dedinhos finos de Alzheimer. O vovô e a vovó podem reverter o processo da senilidade ao simples digitar cibernético.

Eu acabei de dar uma chegada ao Google para ver se encontrava um substantivo em português neo-reformado para a palavra “dongle”. Neris de petibiriba, conforme dizemos nós, os com mais de 35 anos de idade. No entanto, a simples busca adiou, nem que seja por um átimo (confiram no Houaiss virtual), o processo degradante do envelhecimento.

Lá está, no jornal: Gary Small, professor de neurociência e comportamento humano da Universidade da Califórnia, Los Angeles (a mais que prestigiosa UCLA) declarou que “os cidadãos mais velhos, mesmo com um mínimo de experiência, terão alteradas de forma positiva suas atividades mentais e seu devido comportamento”.

O grande Small e sua equipe trabalharam durante algum tempo com 24 idosos entre as idades de 55 e 78 anos, submetendo-os a toda sorte de testes, modernos e tradicionais. Metade dessa gente boa e de bela idade era chegada à net. Precisamente a metade mais cheia de vida, mais sagaz. Tudo foi segundo o mais avançado método científico à disposição da UCLA. Não deu outra coisa: mexeu com o teclado do computador, digitou, buscou, achou, não achou, dá na mesma: a atividade cerebral do internauta foi estimulada com oxigênio extra e uma boa dose de nutrientes, ou nutritivos. No que o sangue benévolo saiu jorrando inteligência pelas partes mais recônditas do cérebro dos… quase que digo anciãos. Cérebro dos sempre jovens e atentos cibernautas.

“Digitai para viver” passou a ser o meu lema. Viver mais e melhor, com mais inteligência e sensibilidade. Googlai, irmãos, googlai!


Ivan Lessa
Colunista da BBC Brasil
21/10/2009

Exibições: 56

Comentário de Sérgio Troncoso em 21 outubro 2009 às 20:25
Helô, acho que Ivan Lessa está parcialmente correto. Para mim fica claro que o rodar, clicar, perseguir, interagir com o computador e a Internet, ajudam o exrcício cerebral e a nossa lucidez (?!) se mantem por mais tempo. Mas além de lembrar da saudável leitura de livros em papel que pode ser substituída pela net, é fundamental tambem não abrir mão das saídas à rua, o contato com as pessoas, a alternância entre ambientes urbanos e rurais, e toda a pulsão energética que o mundo não virtual me dá. Sem isso a vida perde significado para mim.
Comentário de Marise em 21 outubro 2009 às 21:10
Helô o Ivan Lessa para mim consegue dizer exatamente o que penso. É fazer o que gosta e não ser obrigado a fazer o contrário e ser infeliz. Eu também sento....sento... e sento. E é este sentar diante de um computador, diante e um livro que me faz viver com mais intensidade.
É este tr0car de idéias com verdadeiros amigos, discutir,pesquisar que nos faz manter o cérebro ativo. Que nos faz sentir mais moços do que nossa idade diz.
Bela crônica que postastes.
Beijão
Comentário de Cafu em 21 outubro 2009 às 23:12
Sem dúvida a internet pode ser uma ferramenta maravilhosa para estimular a mente, ampliar o conhecimento, alimentar a inteligência, fazer amigos, brincar, relaxar.
Eu procuro equilibrar o mundo virtual com a vida real. Acho bom sair de casa, encontrar pessoas, ir ao cinema, a shows, palestras, restaurantes, passear na rua, fazer ginástica, viajar. Senão a gente acaba se acomodando, se isolando, perdendo o gosto por um monte de atividades vitais e prazerosas. Acho também que cuidar da dieta, valorizar os orgânicos e naturais, exercitar o corpo, nutrir a alma trazem muitos benefícios e de forma nenhuma são incompatíveis com o uso do computador e com os embalos da vida.
Não sei se vou continuar pensando assim daqui a 20 anos. Espero que eu tenha disposição e interesse para curtir muitas coisas diferentes e que eu possa estar próxima à mamãe natureza, a fonte maior das energias curativas e renovadoras.
Beijos para todos.
Comentário de Helô em 21 outubro 2009 às 23:45
Sérgio, Marise e Cafu
Adorei o que escreveu o Ivan! Sou uma grande defensora da internet como instrumento de aprendizado e exercício da mente. Vejam também como as emoções provocadas através do mundo virtual são incríveis! Quantas vezes choramos, rimos, nos divertimos e nos emocionamos, mas nada poderá substituir a expressão de um olhar, a força de um abraço ou a emoção de um beijo.
Quanto ao outro lado da história, de sair, viajar, passear e etc, penso ser uma coisa bastante individual. Conheço pessoas extremamente "caseiras" que são muito felizes assim. Isso não quer dizer que eu não concorde que sair, nem que seja para tomar um pouco de sol, não seja benéfico à saúde. Acho importante que cada um cuide de sua saúde física e mental, mas sem perder jamais o seu modo de ser e curtindo sempre o que lhe dá mais prazer.
Beijos.
Comentário de Gregório Macedo em 5 novembro 2009 às 13:19
Texto supimpa, o do Ivan Lessa. Grande novidade!, dizemos nós, seus leitores cativos. Sou ligadão também em comentários, e os acima estão nos trinques.
Queridinha Helô, vou reproduzir o googlai do Ivan em meu blog http://domacedo.blogspot.com/ . Há pouco, aliás, tasquei lá um do Leminski, garimpado pela Cafu. Caramba, meu blog tá num bom gosto danado!
Beijos.
Comentário de Gregório Macedo em 5 novembro 2009 às 17:33
Voltando ao assunto. Enquanto Gary Small afiança os benefícios da internet, na China o clima está tórrido para os jovens:
"PEQUIM (Reuters) – O Ministério da Saúde da China proibiu o uso de castigos físicos para curar o vício da Internet em adolescentes, meses depois que um garoto foi espancado até a morte em um acampamento de reabilitação.

Os pais chineses buscaram ajuda de mais de 200 organizações que oferecem tratamento para “enfermidades”, conforme aumentam os alertas do governo sobre hábitos poucos saudáveis da juventude de navegar pela Internet. (...)"
Ê, mundo véio...
Beijos.
Comentário de Helô em 6 novembro 2009 às 0:05
Gregório
Tão bom ter você aqui! Mas pode saber que eu e a Cafu vamos cobrar caro pelo uso de nossas matérias no seu blog, kkkkkkkkk. Meu amigo, brincadeiras à parte, saber que você reproduz algo que postamos aqui é uma grande honra.
Tristeza essa notícia dos chineses, não é? Eu li hoje cedo. Estão na contramão da história.
Beijos.
Comentário de Antonio Barbosa Filho em 26 novembro 2009 às 3:17
Espero que nenhum de nós, que comentamos este post, estejamos tão inativos fisicamente. Dá prá conciliar as duas coisas, sem problemas. A internet é um universo, minha maior biblioteca e, talvez, meu maior ponto de encontro com novos amigos. Mas não substitui o contato pessoal, a conversar por voz, uma carta (lembram-se? havia cartas antigamente....rsrsrs)
Nem para os jovens eu creio que faça mal, desde que usem a internet como um complemento, não como uma fixação. Falei besteira: rato de biblioteca desde a infância, se houvesse internet eu jamais teria tirado minha bundinha da cadeira. É, vcs têm razão: o perigo existe.
Dosar o uso é que é complicado, mas necessário. A geração que nasceu com a internet e não vê livros em casa, nem na escola, é completamente diferente da nossa (olha, sou tão original quanto o Serra...).
Mas é sério, parece que pensar é saber digitar, buscar, escrever em código vc blz hj?
Não tenho respostas, mas tampouco tenho medo desta máquina infernal (como nossos tetravós se referiam ao cinema, ou os gráficos ao off set, mais rcentemente). O importante, pra mim, da ótima idade, é caminhar todos os dias, olhar uma árvore com atenção, mexer com tintas e tela, ouvir rádio mais do que ver TV, amar a Humanidade por dentro (não cmo discurso moral ou mandamento divino) e, principalmente, porque este é o segredo da longevidade: não ser obcecado por dinheiro.
A tara por dinheiro é a única que mata, pelo que tenho observado em meus longos 53, quase 54 aninhos.
Amo vocês! Beijos, e sentem-se muito, prá gente deblaterar....rsrsrs

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