Irã é o centro estratégico do mundo. Acosado pelo ocidente, o país sequer pode se defender da vizinhaça hostil

Por Pedro Lira

Via Revista Caros Amigos


Uma guerra contra o Irã deixará claro que os objetivo dos EUA é a conquista do Oriente Médio. Apesar do autoritarismo do regime teocrático de Teerã este regime não surgiu como uma ditadura. A revolução iraniana foi a última grande revolução do século XX e criou um regime teocrático que apontava para uma democracia. Até 2008 as eleições parlamentares e para presidente eram livres no Irã. A derrota nas urnas da linha dura do regime fez com que o aiatolá Khamenei intervisse diretamente nas eleições. Os resultados foram simplesmente omitidos, a classe média urbana de Teerã se rebelou e foi massacrada, o regime demonstrou que é uma teocracia e a democracia continua sendo uma opção, logo ali, perto do povo, mas distanciada por um regime que foi forçado a se enrijecer devido às pressões militares e econômicas do Ocidente, afinal a conquista do Iraque e do Afeganistão pelos EUA deixaram o Irã cercado por dois lados, então chegamos à conclusão que a resposta de Teerã tanto à democracia como ao Ocidente foi uma defesa da soberania do Irã teocrático, militarizado e cada vez mais isolado do mundo ocidental.

A República Islâmica desenvolveu economicamente o Irã e pareceu por algum tempo ser uma alternativa à democracia ocidental, pois sabia conjugar as aspirações populares com um regime teocrático, dando tons de uma democracia representativa, características herdadas do governo de aiatolá Khomeine, que mesmo em face a uma guerra violenta contra um Iraque financiado e armado pelos EUA e pela URSS, manteve a força da revolução. O regime xiita tinha uma pretensão de espalhar sua revolução por todo Oriente Médio e isto abalou o equilíbrio da Guerra Fria e relativizando tanto a influência americana como soviética no Oriente Médio.

Entretanto os EUA faziam um jogo duplo, vendo o arrefecimento da revolução e a fraqueza do regime da Saddan Hussein passaram a vender clandestinamente armas para o Irã e com o dinheiro financiar a contra-revolução na Nicarágua - esse escândalo ficou conhecido como Irã-Contras. Uma foto muito famosa do período, de 1983, mostra Donald Rumsfeld , ex-secretário de Defesa, apertando as mãos de Saddan Hussein, três anos antes do escândalo Irã-Contras. O objetivo dos EUA era o enfraquecimento de qualquer regime autônomo o suficiente para frear seus interesses no Oriente Médio.

O regime de Saddan Hussein caiu primeiro, devido à sua agressividade, pois após a guerra contra o Irã, em 1990, o Iraque atacou o Kuwait e criou oportunidades para os EUA intervirem com o apoio do Ocidente. Pouco mais de dez anos depois, utilizando como bode expiatório a destruição do Word Trade Center, os EUA inventam a guerra contra o terror e culpam o Afeganistão de colaboração com o “terrorismo internacional”, então este país feudal de longa extensão é invadido sem maiores dificuldades e em 2003 os EUA forjam a acusação que o Iraque possui armas de destruição em massa e ocupam o Iraque. O Irã se vê cercado em menos de dois anos pelo oeste e pelo leste, acelera seu programa nuclear e de mísseis balísticos como forma de garantir sua soberania. Os EUA tentam a todo custo incriminar o República Islâmica, entretanto durante cerca de 12 anos mesmo sob embarco econômico, o Irã utilizou o dinheiro do petróleo e o armamento acumulado desde o regime de Reza Pahlevi para construir uma sólida força armada. Uma guerra contra o Irã teria que mobilizar o dobro de recursos usados contra o Iraque, além dos EUA terem que enfrentar uma longa e obcecada resistência do povo iraniano. A experiência no Iraque mostrou o preço que se paga para ocupar um país armado, e evidentemente que uma guerra de ocupação no Irã seria muito mais violenta pois além de armas o Irã possui tecnologia própria e uma aliança estratégica tanto com a China quanto com a Rússia - um grande exemplo disso é o fornecimento pela Rússia de seu avançado sistema de defesa antiaérea S-300. Mas como foi possível para o Irã ficar tão forte militarmente?

Os fatores que possibilitaram o Irã se armar são 4. Primeiro sua posição estratégica no centro da chamada Eurásia, quem ocupar o Irã domina todo o Oriente Médio e fica em uma posição vantajosa mundialmente, afinal o Irã fica no meio do caminho entre a Europa e a China e atrás da Índia e da Rússia. Segundo, o regime de Reza Pahlevi na década de 70 conseguiu usar os EUA para se armar contra a Rússia. O Irã é um dos poucos países do mundo que possuem os F-14 norte-americanos, por sua vez a Revolução Iraniana seguida da guerra Irã contra Iraque fez com que o Irã recebesse armamento russo e mais equipamento americano. Terceiro fator é que o Irã fez o possível para desenvolver sua indústria e tecnologia nos anos que seguiram à revolução; e, finalmente, o quarto e último fator é que Rússia e China temem que os EUA ocupem o Irã somando um território imenso que vai do Iraque ao Afeganistão. Com essa experiência os EUA teriam condições de invadir um território de proporções continentais, então tanto Rússia quanto China oferecem equipamentos e tecnologias para o Irã, ao ponto do Irã fabricar caças de terceira geração e anunciarem projetos de caças de quarta e quinta geração, neste caso poderiam realizar um ataque em solo americano! Uma guerra contra o Irã é uma guerra de proporções mundiais, se os EUA estiverem dispostos a atacar o Irã será a confissão que seu intento último, a longo prazo, é a conquista militar do globo.

 

Pedro Lira é cientista social pela Unesp de Araraquara, professor e poeta

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