A experiência passada na concessão do prêmio Nobel, particularmente no campo da Economia, em várias oportunidades tem mostrado que os escolhidos para a polpuda homenagem não têm contribuído de forma relevante para o real entendimento da realidade econômica do mundo, aparecendo mais como porta-vozes da ideologia dominante nos países capitalistas avançados. No campo das contribuições para a Paz também tem ocorrido semelhantes desvios. O prêmio concedido a Shimon Perez e a Arafat é um desses exemplos, porquanto o conflito israelense-palestino, que motivou a concessão, nunca esteve resolvido, prolongando-se, e mesmo, agravando-se até os dias atuais.
Este ano, porém, o desprezo pela inteligência e o bom senso da Humanidade passou dos limites. Numa decisão que chega as raias do cômico, para não dizer trágico, o prêmio foi concedido a Barack Obama, presidente dos Estados Unidos, mesmo antes dele ter tido tempo para tomar qualquer atitude em favor da Paz. Ao tomar conhecimento da extravagante decisão não pude deixar de me preocupar com a situação difícil em que colocaram Obama: a de ter que justificar o recebimento do galardão numa situação em que os Estados Unidos aprofundam seu esforço de guerra nos países que invadiram ha alguns anos: Afeganistão e Iraque. Se não se tratasse do prêmio Nobel, com seu histórico já conhecido de decisões pouco meritórias, daria para suspeitar de tratar-se de uma verdadeira provocação ao beneficiário.
Felizmente, a realidade tem seu lado irônico. Ironia no sentido em que Sócrates filosofava, colocando-se de saída de acordo com os argumentos dos interlocutores para em momento subseqüente mostrar-lhe as contradições e absurdos a que conduziam tais raciocínios. Foi precisamente o que ocorreu com o prêmio concedido a Obama. A Comissão que concedeu o prêmio, conscientemente ou não, cumpriu o papel de Sócrates, levando o bem intencionado presidente, embora fazendo verdadeiros malabarismos retóricos, por ocasião de seu discurso no recebimento do prêmio, a defender a participação de seu país em duas guerras abomináveis. Somente seres muito ingênuos podem aceitar que os Estados Unidos estejam fazendo duas guerras de grandes proporções, distantes milhares de quilômetros de suas fronteiras, para se defenderem de agressões externas. Pelo visto, o método socrático continua cumprido seu papel esclarecedor dos homens, mesmo quanto não utilizado com propósito deliberado. A realidade tem sua componente de ironia.

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