Quem conhece de verdade um bom samba carioca não hesita em colocar Ismael Silva como um dos três maiores sambistas de todos os tempos. Lúcio Rangel e Prudente de Morais Neto, acham-no, sem favor, o maior.

Ismael, “o negro de alma branca”, como o apresentava Francisco Alves, teve na história da música popular carioca um papel determinante. Seu samba, cuja grande força é a melodia, vive ainda hoje na boca de muita gente que já não se lembra mais de que o grande Ismael os fez.

Ismael nasceu em Jurujuba, e com apenas dezesseis anos já ouvia seus sambas serem cantados pelo Estácio, de cuja escola de samba, a famosa “Deixa falar” (e a primeira!) foi fundador.




Um dia, um desses sambas caiu nos ouvidos de Francisco Alves, já então cantor de nome, e daí, pode-se dizer, nasceu a grande dupla, que não só acabou de fazer Chico, como popularizou em grande escala a música de Ismael. A história desse encontro vale ser contada.

Foi por volta de 1924. Ismael fora dado com os costados num hospital e estava doentíssimo, à morte mesmo, quando lhe vieram dizer que um sujeito chamado Alcebíedes Barcelos o queria ver. Ismael pediu-lhe que se chegasse e ouviu espantado o outro propor-lhe a venda de seu samba “Não me Faz Carinhos” (¹), a Francisco Alves.

Ismael ficou muito envaidecido e, no dia seguinte, assinava a venda por cem mil réis. Cem mil réis, notem bem! Muita gente deve se lembrar do samba, de grande sucesso na época.


(¹) Vinicius nomeia a música de "Não me Faz Carinho" e o Instituto Moreira Salles de "Me Faz Carinhos". Em ambas as nomeações a letra é a mesma.

Escutem na voz de Francisco Alves com acompanhamento da Orquestra Pan Americana do Cassino Copacabana. Disco Odeon (10.100-B) / Matriz (1480). Lançamento (janeiro/1928).


 

Ismael ficou bom e voltou ao Estácio. Uns três meses depois, estando ele num café a bater samba com a turma local, para um carro e dele desce Francisco Alves em pessoa. A turma ficou besta e rodeou o automóvel. Chico não se deu por achado, pegou o violão e cantaram até o dia amanhecer.

Ismael até hoje se lembra desse dia. Quando ficaram sozinhos, Chico começou a solá-lo para uma parceria. Mas Ismael, que já tinha um compromisso com Newton Bastos, exigiu a entrada do seu amigo na combinação.

Foi uma época de grandes sambas, como “Amor de Malandro” (também vendido a cem mil réis a Chico), e muitos outros. Chico gravou sambas de Ismael até 1935, quando saiu “Choro, sim”, o último.

Daí Ismael começou a achar que a carne assada era muito grande para Chico e passou a gravar sozinho.

Seu nome estará ligado à crônica do samba carioca enquanto o mundo existir.
(Vinicius de Moraes).



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FONTE: Texto publicado, por Vinicius de Moraes, na Revista da Música Popular, nº. 5, pág. 4, Fevereiro de 1955.




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Exibições: 408

Comentário de Helô em 8 agosto 2009 às 23:50

Colagem sobre caricatura de Ismael, do livro MPB (Roberto M Moura).
Comentário de Laura Macedo em 9 agosto 2009 às 1:25
Helô, sua danadinha você tirou o dia para fazer "artes" comigo e eu amei.
Mil beijos.
Comentário de Helô em 9 agosto 2009 às 1:33
Que nada!
Tirei o dia para fazer o bacalhau do almoço do pai, haha.
Depois daquelas "descobertas", fiquei impossível! :)))
Beijos!
Comentário de Gregório Macedo em 10 agosto 2009 às 22:14
Ainda bem que um dia o espoliado Ismael reagiu, hein? Vinicius foi na mosca: Ismael é imortal.
Beleza de matéria, minha cara pesquisadora. (E a Helô? Nem falo mais nada...)
Beijos.
Comentário de n almeida em 8 abril 2010 às 8:53
Ismael Silva fala sobre o Samba.


Ismael Silva canta Antonico.


Ensaio com Ismael Silva.

Comentário de Laura Macedo em 9 abril 2010 às 2:31
Oi n almeida,
MA-RA-VI-LHA a seleção dos videos com o Ismael Silva. Seus comentários são sempre enriquecedores e muito me alegram. Valeu!

Não sei se você acompanha a série "A Canção no Tempo". Nela já destaquei três canções do Ismael. Para facilitar a localização, segue os links.

A Canção no Tempo V / VIII / XXVI

Beijos.

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