Israel: "Justiça Social também significa acabar com a ocupação"

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"Justiça Social também significa acabar com a ocupação", diz historiador

 

Zeev Sternhell (*)

 

Por mais internas que possam ser as enfermidades de Israel, e elas são numerosas demais para contabilizar, a maior parte delas pode ser tratada e até curada; mas a ocupação e o colonialismo são doenças terminais. Portanto, quem quer que se recuse a entender – como o fez Shelly Yachimovich em sua entrevista na revista de fim de semana do Haaretz -, que o socialismo de acadêmicos, e em nome de acadêmicos, é não menos brutal e desprezível que o neoliberalismo dos ricos em nome dos ricos, não é digno de buscar a liderança de um partido que tem pretensões de planejar o futuro.

Na verdade, para se conseguir resultados rápidos na esfera social, é possível dar passos relativamente fáceis cancelar a redução de tributos para as corporações,aumentar a taxação da alta renda, transferir dinheiro dos assentamentos para o orçamento da área de bem estar social, imediatamente. Se é permitido impor altas taxas sobre um pequeno automóvel, também é permitido arrecadar impostos sobre coberturas luxuosas no litoral de TelAviv, ou sobre um grande iate no meio do oceano. É razoável supor que também é possível encontrar uma outra maneira de renovar a construção de moradias públicas na forma de apartamentos pequenos e baratos. Por outro lado, a ocupação é uma ameaça existencial – se a sociedade israelense não encontrar um meio de lidar com os assentamentos, ocorrerá o fim do estado judeu.

Ainda hoje, o sionismo, no significado simples e inicial do termo, esvaziou o seu lugar, que foi ocupado pelo nacionalismo radical e brutal, que é parcialmente racista e infiltrado por quem professa tendências antidemocráticas do tipo das que já levaram a imensos desastres na Europa, no século passado. O sionismo tradicional estava baseado em dois fundamentos básicos. Era um movimento para salvar uma nação inteira da destruição e o direito natural expresso dessa nação se autogovernar. Ambos esses objetivos foram alcançados com o estabelecimento do estado -, que foi um momento especial de benevolência e com o objetivo de pôr um fim ao período de conquista de terra. Foi também o momento em que era para o sionismo absorver os princípios liberais dos direitos humanos e da igualdade civil. O desastre terrível da Guerra dos Seis Dias destruiu esta possibilidade quando tornou israelenses senhores sobre outras nações cujos direitos foram negados. Mas nosso fracasso em lidar com a injustiça implícita na conquista de terras não justifica nossa anuência com isso.

Portanto, o Partido Trabalhista não pode se satisfazer com o papel de grupo em defesa de uma única questão, por mais elevada que esta venha a ser. A vida social e política não é unidimensional; não há sociedade sem política, não há economia sem decisões políticas, e não há vida que valha a pena sem moral. A demanda correta por uma revolução no modo de pensar que levará a uma política social diferente não é desligada da questão maior da liberdade e da democracia, dos direitos humanos e do futuro dos territórios; liberdade, justiça e igualdade não podem ser divididas.

Desde o começo dos movimentos de protesto por moradia que muitas pessoas tem sido interrogadas com estas questões: qual o significado do termo justiça para os jovens manifestantes que tomaram as ruas de Israel? Como é possível conseguir justiça social sem se tomar a justiça como um valor social? Quais os limites da justiça e de sua implementação? A esse respeito, sempre houve uma grande diferença entre a direita e a esquerda no mundo, e agora também em Israel. A esquerda considera a igualdade um valor universal, uma expressão do direito do ser humano não apenas à liberdade de dormir sob uma ponte, mas também a liberdade de ter uma vida decente. A esquerda – e esta é uma grande diferença entre ela e vários tipos de conservadores – não considera a igualdade um elemento que restringe a liberdade mas, antes, um aspecto diferente do ser humano controlar a sua vida.

Isso nos traz de volta à ocupação. A justiça não é apenas o direito de moradia decente para os judeus, mas também é o direito à liberdade de uma nação sob ocupação. Uma enorme oportunidade para mudar a face da cultura política de Israel e para planejar a sua face futura será perdida se os porta-bandeiras dos manifestantes decidirem ignorar essa verdade.

(*) O autor é historiador e um dos maiores estudiosos da história do fascismo. Foi professor de Ciências Políticas na Universidade de Jerusalém.

Tradução: Katarina Peixoto

 

Para ler outras matérias bem porretas, visite o 'Carcará' - http://carcara-ivab.blogspot.com

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