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Por favor, não confundam ironia com pornografia. Poderá ser uma rima, mas não será uma solução para a nossa tardia modernidade.

Desse modo, transcrevo abaixo análise de Leandro Sarmatz, cuja análise do poeta Joca Reiners Terron, autor dos célebres versos: "Nunca ame ninguém. Estupre.", é irretocável. E faço isso profundamente preocupado com o descalabro a que chegou todo tipo de infâmia lançada contra a poesia do autor. Fico extremamente à vontade, pois não o conheço. No entanto, percebo que a distância entre a crítica extremamente legítima a um projeto educacional de governo, como aquela que elaborou Ana Maria, publicada no portal do Luis Nassif, (http://colunistas.ig.com.br/luisnassif/2009/05/29/os-livros-didaticos-em-sao-paulo/#more-30833) e o puro e simples achincalhe a qualquer produção artística que exija um olhar mais crítico e contemporâneo, está sendo desconsiderada completamente.

A utilização da ironia, que efetivamente vem de “eironeia”, e quer dizer “questionamento”, é empregada por Joca Terron de um modo extremamente hábil. Esse tipo de recurso estilístico, a bem da verdade, é típico de autores "moralizantes", inconformados com os rumos da sociedade de seu tempo. Há uma extensa lista de escritores, poetas, romancistas, que fizeram uso daquela figura de estilo. Por acaso, devemos imaginar que Swift estivesse realmente querendo que as crianças pobres da Irlanda fossem mortas, pois as suas carnes guisadas ou ensopadas eram “manjar divino”? Ou que suas peles fossem transformadas em couro para a confecção de luvas e botinas, em razão não somente da beleza do material, mas pelo fato de serem resistentes e macias? O canibalismo manifesto, publicado em 1729, está contido na “Modesta proposta para impedir que os filhos dos pobres da Irlanda pesem sobre seus pais ou sobre o país”. Ora, o que querem dizer efetivamente aqueles versos do “Manual de auto-ajuda para supervilões”? Como não associar, de forma crítica, a estrofe à famosa frase do ex-governador de São Paulo, Paulo Salim Maluf: “estupra, mas não mata”? E a vilania, expressa no título, disseminada em grandes partes do tecido social, como poderia ser ruminada pelo autor, a não na condição superlativa?

No entanto, distorcido, o poema vem sendo apresentado pela mídia como uma expressão pornográfica. Foram diversos os comentários em jornais e blogs afirmando ser uma poesia de baixo nível. Criou-se assim uma indisposição manifesta contra a obra e o poeta. É estarrecedor esse tipo de indução.

Assim, uma coisa é a distribuição de livros em que se confunde a localização geográfica de países latino-americanos, e, portanto, desconsidera um dos nossos eixos identitários mais decisivos, outra, bem diversa e mais problemática, é o erro crasso de se encaminhar para crianças de 9 anos, textos que deveriam ser dirigidos única e exclusivamente a um público adolescente. Obviamente, o doloroso nisso tudo é a apresentação, repetimos, desse material para essas crianças, cuja capacidade de compreender a intenção subjacente nos versos ainda é quase nula. Mas, como ficam os verdadeiros responsáveis por esse descalabro? Essa é a questão. Serão responsabilizados? Ou ficarão na confortável dimensão do anonimato?

P.S.: Ademais, colocar ainda nessa grita um poeta como Manoel de Barros na condição de um autor igualmente pornográfico, ou é desconhecimento da poesia produzida por ele nos últimos sessenta anos, ou má-fé.



O AUTOR! O AUTOR!

por Leandro Sarmatz*

Você sabe quem é Joca Terron? Se não sabia até o final da semana passada, agora você já nem deve agüentar mais ouvir falar dele. É o celerado que cometeu um poema sobre vilania, estupro e outras abominações para leitores de apenas 9 anos de idade. Um corvo egresso do Mato Grosso, disposto a assombrar as salas de aula da rede pública. Uma espécie de Marcola do mundo das letras. Este é o Joca que muitos conheceram nos jornais, na TV e numa infinidade de notas desorientadas na internet.
Claro que o parágrafo acima deve ser lido em chave negativa, com ironia – como o próprio poema assinado pelo Joca, lembra? Na condição de organizador do volume Poesia do Dia – Poetas de hoje para leitores de agora (Ática), gostaria de compartilhar o meu espanto com todo esse barulho. Além disso, como fui eu que selecionei os poemas – inclusive o mais que lembrado “Manual de auto-ajuda para supervilões” –, devo ter meu quinhão de culpa, claro. Mas que culpa? Quando os gentis editores da Ática me contrataram para produzir um livro que desse conta da poesia contemporânea brasileira, tanto eu quanto os editores (sem falar nos autores, uma moçada nascida entre as décadas de 60 e 80 que aceitou figurar no livro) tínhamos um público-alvo: leitores adolescentes naquela faixa maravilhosa e aterradora entre os 13 e 14 anos. Um tipo de leitor já versado um pouco em recursos poéticos, adestrado em discurso irônico e, tão importante quanto esse arsenal escolar, uma turma que já está tomando contato com o mundo real, aquele mesmo, o de verdade.
Aí, algum tonto, mal-intencionado ou apenas incompetente funcionário da área de educação do governo escolhe o Poesia do Dia, destinando-o aos pequenos leitores. A grita dos pais, claro, é justificada. Mas vem cá: em todas as matérias sobre o caso, quem foi devidamente crucificado, teve o nome citado à exaustão, foi obrigado a se “explicar” como um daqueles criminosos furrecas em programa mundo-cão da TV às 18h? O desastrado funcionário público? O secretário de educação? O governador do Estado? Não. Coube ao autor de um poema a tarefa aziaga de tentar desfazer o nó que sequer foi amarrado por ele. E que está aí muito antes dele ter pensado e concebido o poema.
Como isso foi acontecer? A resposta não é tão simples, pois encerra diversas questões relacionadas ao trânsito da literatura contemporânea na escola, aos processos de escolha de livros pelos governos e, no limite, às trapalhadas e aos interesses por detrás delas às vésperas de ano eleitoral.
Não cabe a mim discorrer sobre esses tópicos todos, mas temo que a principal conseqüência desse capítulo patético sobre leitura e moralidade na escola não se dará na esfera governamental, que foi, afinal de contas, o grande pivô invisível (e bota invisível nisso: cadê o sujeito que despachou os livros para a molecada? Esse não apareceu em matéria alguma.). O que pode acontecer a partir de agora tem, dessa vez, tudo a ver com Joca e outros escritores brasileiros: escaldadas por sucessivos escândalos, as editoras podem querer criar mecanismos de autocensura na hora em que forem trabalhar com autores novos e/ou temas contemporâneos. Afinal, episódios como o do Poesia do Dia são o pior tipo de propaganda espontânea que um livro destinado ao mercado escolar pode contar. Daí para a caretice, a previsibilidade e o catecismo dos bons-modos, é apenas um passo para trás. Ou muitas páginas a menos.

* Jornalista e Mestre em Letras pela PUC-RS.

Segundo comentário meu: Aproveito inclusive para realizar um mea culpa. Ao publicar anteriormente o texto do Mauro Santayana, dos mais cultos jornalistas desse país, a quem dedico profunda admiração, penso que incorri num grave erro. Trata-se daquela velha história de publicar um texto movido pelo respeito cego ao autor, e a ignorância parcial pelos meandros do tema. Ora, Santayana, ao se valer das informações publicadas pela imprensa, suponho, cai na mesma armadilha. Numa reviravolta incomum ao seu estilo, traz à cena os anseios patrioteiros de Olavo Bilac e Coelho Neto, escritores que se envolveram, cada um a seu modo, com as aspirações, algumas delas bastante discutíveis, das elites do seu tempo. É só consultar o livro Literatura como missão, do historiador paulista Nicolau Sevcenko, a fim de se averiguar as objetivações políticas, históricas, artísticas de um e de outro. Portanto, trata-se, como diria Mário de Andrade, de um problema desagradável de pensar, mas com isso infelizmente não há como concordar.

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