Foto: Eugênio Vieira

Folha de São Paulo, 09 de maio de 2009 - Opinião

RUY CASTRO

Rapaz de bem

RIO DE JANEIRO - O pianista, compositor e cantor Johnny Alf fará 80 anos no dia 19 próximo. Se todos os artistas que ele influenciou se dessem as mãos, a corrente humana iria de Vila Isabel, na zona norte do Rio, onde nasceu, em 1929, a Santo André, no ABC paulista, onde mora há dois anos, numa casa de repouso, desde que se submeteu a uma cirurgia e a um longo tratamento.
Exceto por alguns shows promovidos por seus fãs - Leny Andrade, Alayde Costa, Emilio Santiago, Cibele Codonho -, não se sabe de homenagens à altura da sua importância. Neste aniversário, ele mereceria um ciclo inteiro de espetáculos reunindo músicos de sua turma (ainda há muitos na praça) e das gerações mais novas, reconstruindo sua obra em vários contextos: orquestra, pequeno conjunto, piano solo, vozes, gafieira, jam session.

Os museus da Imagem e do Som do Rio e de São Paulo promoveriam palestras e debates sobre o estado de coisas na música popular quando ele apareceu ao piano de uma boate carioca em 1952 e de como, pouco depois, tivemos a bossa nova. O próprio Johnny gravaria um extenso depoimento para esses museus. Uma TV produziria um especial a seu respeito. Uma editora lançaria seu songbook. E seus discos, sempre difíceis de encontrar, seriam relançados. Mas não há nada disso programado.

Johnny não tem aposentadoria nem plano de saúde. Vive de uma pequena poupança e dos caraminguás de seus direitos autorais -e olhe que ele é o autor dos sambas "Rapaz de Bem" e "Fim de Semana em Eldorado", do baião "Céu e Mar", dos sambas-canção "O Que é Amar" e "Eu e a Brisa" e de muitos outros standards da música brasileira. Os 80 anos de Johnny começam daqui a alguns dias e levarão um ano para se completar. Ainda há tempo para homenageá-lo. De preferência, com ele ao piano.


Sem comentários :(

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Mas aqui no Portal a gente não se esqueceu de Alf, caro Ruy. Em Janeiro, fiz a primeira chamada para os 80 anos de Johnny. Domingo, dia 17, nossa querida Laura Macedo deu show ao homenagear o pianista, compositor e cantor com belíssimo post.

Hoje, trago depoimento recebido por e-mail de duas pessoas muito queridas: Sueli Costa e Fernanda Cunha. Sueli dispensa apresentações. Cantora e uma das maiores compositoras da música popular brasileira, compôs inúmeros sucessos gravados por Elis, Bethânia, Simone e Nana Caymmi. Fernanda, que já recebeu post aqui, é cantora. De uma família musical, filha de Telma Costa e sobrinha de Sueli, Fernanda tem feito muito sucesso no Canadá e em outros países. Atualmente, está se apresentando em Portugal.


"Quando comecei a compor, em Juiz de Fora, ouvia muito Tom, João Gilberto, Tamba Trio, Silvinha Teles, o pessoal do Rio de Janeiro. No meu quarto à noite, adiava o sono procurando outros sons, nas rádios de São Paulo, e lá ouvia sempre o carioca radicado em SP, Johnny Alf. Era uma maravilha ouvir as músicas dele, como também ouvir "Madrugada" na voz dele, música de Candinho. Fiquei apaixonada por ele. Anos depois, aqui no Rio, ficamos muito amigos. Eu sempre ia no Chicos Bar, nos anos 80, ia quase que diariamente. Ficava com ele, num corredor, conversando, enquanto ele tomava o seu chá, e depois me sentava sozinha, perto do piano, e ficava até o show dele acabar. Sou muito orgulhosa de ser contemporânea, amiga, sobretudo, deste gênio da música. Um inventor, pois nada parecido aconteceu antes dele. Músicas suingadas como Rapaz de Bem, Fim de Semana em Eldorado, e o lirismo de O Que é Amar, Nós, Ilusão à toa, são jóias deste compositor genial. E o pianista e cantor? nem te conto! Fico muito feliz por essa homenagem aos seus 80 anos, e que venham muitos anos para ele e nós, juntos... Viva Johnny Alf!" Sueli Costa


"Acho o Johnny Alf o compositor mais sofisticado do Brasil e um dos maiores do mundo. Além da admiração, tenho um grande carinho por ele. Ele me proporcionou um dos momentos mais emocionantes da minha vida profissional. Gravamos em dueto a faixa "Luz Eterna" no meu Cd "Dois Corações" (dedicado à obra dele e de Sueli Costa) e depois dividimos um show no projeto novo canto no Rio de Janeiro. Além de excelente compositor, pianista e cantor, é também um grande ser humano. Obrigada Johnny! Feliz aniversário!" Fernanda Cunha


E nada melhor do que ouvir as inesquecíveis gravações de Johnny Alf!
A ele, nosso agradecimento e nosso eterno carinho.

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Comentário de Laura Macedo em 19 maio 2009 às 22:48
Helô, grata pelo link do meu post sobre o nosso querido Johnny Alf. Ele merece muitas homenagens.
Bacana os depoimentos de Sueli Costa e Fernanda Cunha.
E para completar a excelente seleção das suas melhores músicas.
Valeu, minha amiga.
Beijos.
Comentário de luzete em 19 maio 2009 às 23:22
Tô aqui, curtindo jonnhy alf.
meu repetório está uma beleza.
cada dia uma boa lembrança.
Comentário de Luiza em 20 maio 2009 às 1:06
O Johnny Alf era figurinha carimbada na noite paulistana, séculos atrás...
Eu, que nunca fui muito de vida noturna o encontrei duas vezes dando canja: uma vez na Casa do Tobias, que ficava ao lado de uma famosa casa de show que não lembro mais o nome (eita...) na Rua Cubatão e outra vez no Jogral... sentava nas mesas junto com o povo, sempre muito calado... uma das vezes estava também, adivinha quem? O Simonal... o oposto... Outros tempos!
Talvez, por ter preferido ficar em Sampa, por ser meio retraído, ficou fora da escalada de sucesso da MPB, mas sempre inesquecível por aqui...
Comentário de Helô em 20 maio 2009 às 1:07
Laurinha
Seu post foi dos mais bonitos e emocionantes! Mandei por e-mail pra Sueli e pra Fernanda. E não perco as esperanças de que Johnny Alf ainda terá o reconhecimento que merece.
Beijos.

Luzete
Acho que no depoimento da Sueli Costa ela disse uma coisa que a gente gostaria de fazer, sentar ao lado do piano de Alf e ficar até o show terminar. Que maravilha, já pensou?
Beijos.
Comentário de Helô em 20 maio 2009 às 1:12
Poxa, Luiza, que privilégio o seu!
Eu nunca vi Johnny Alf ao vivo. Sempre ouço falar de seu jeito introvertido e de nunca ter gostado de badalações. E esse seu jeito doce e simples é muito encantador, não acha?
Beijos.
Comentário de Liu Sai Yam em 20 maio 2009 às 1:22
Johnny Alf fez parte da banda que acompanhava D*** Farney?
Nossa, Luiza lembrou Jogral. Avanhandava, Luiz Carlos Paraná, Paulo Vanzolini, e um que era fenomenal: Adauto Santos. Ei Luiza, quem te viu, quem te vê, de netinha no colo... Há há!
Helô, Adauto Santos merece um destaque. "Disparada", cantado por ele ganhava longe do Jair Rodrigues.
Comentário de Helô em 20 maio 2009 às 1:35
Liu
Depois dá uma olhada no post da Laura sobre Alf. Um primor! Tem link aí no texto. Ela cita o Sinatra-Farney Fan Clube e relembra que o padrinho artístico de Johnny Alf foi D*** Farney. Se ele acompanhou D*** não sei dizer, mas depois vou consultar o "Chega de Saudade", do Ruy Castro. Vou pensar no destaque a Adauto Santos.
Beijos.
Comentário de Luiza em 20 maio 2009 às 1:51
É, Helô, o privilégio que tive tiveram vários paulistanos... a noite aqui era muito democrática, os artistas eram pessoas comuns em todos os lugares: bares, restaurantes...
Vc vê, Liu? A netinha no colo não quer dizer nada...rs... O Jogral era ponto de encontro dos músicos em SP, todos que faziam shows por aqui davam uma esticada por lá... e na Casa do Tobias, como pessoas comuns feito nós, seu público... Depois davam uma chegadinha no Gigetto, no Piolhim e tempos depois no Pirandello... a vida não é feita só de batalhas, né? rs...
Comentário de Miriam Panighel Carvalho em 20 maio 2009 às 4:55
Certa vez, quando estudava acordeon no extinto Conservatório Musical Meirelles, à época situado na Av. Brigadeiro Luiz Antonio, em Sampa, meu professor, Wilson Meirelles, convidou-me a ouvir um excelente compositor que despontava para o sucesso. Assim que entrei na sala, deparei-me com um homem extremamente simpático, um tanto tímido, com gestos e palavras impregnadas de uma ternura bem natural. Á minha frente encontrava-se alguém puro, alguém que não precisava dizer nada para que se lhe notasse um "quê" de carisma. Encantei-me com ele de imediato. "Este, Miriam, é Johnny Alf"..." disse-me o professor. E acrescentou: "Toque uma de suas composições, Johnny". Fiquei paralisada, sem fala! Pensei: "puxa, o Johnny Alf em pessoa, tocando só pra mim!" Emocionada, observava seus dedos teclando o piano enquanto ouvia sua voz..." Ah, se a juventude que esta brisa canta..." Quando ele terminou, olhou-me firme nos olhos e perguntou: "Diga-me o que achou, Miriam. Gostou?" Quase que murmurando, voz trêmula, apenas disse: " Que linda!". Ele sorriu, agradeceu e eu, ali parada, não conseguia pronunciar palavra. "Bem, vamos para a nossa aula?", interrompeu-me em meus devaneios, o professor Meirelles. Estendendo-me a mão, Johnny Alf despediu-se de mim e voltou-se para o piano. Quando deixamos a sala ainda escutava, distanciando-se mais e mais a cada degrau que eu subia, os acordes musicais de outra de suas inúmeras composições... Todas lindas, romanticas, melancólicas. Mas a que ficou mesmo na lembrança e no coração foi "EU E A BRISA". Nunca mais esquecerei aquele momento especial na minha vida... Só para relembrar, repasso-lhes a letra.
Miriam Panighel Carvalho

Eu e a Brisa

Ah, se a juventude que essa brisa canta
Ficasse aqui comigo mais um pouco
Eu poderia esquecer a dor
De ser tão só
Prá ser um sonho

E aí, então, quem sabe alguém chegasse
Buscando um sonho em forma de desejo
Felicidade então prá nós seria

E depois que a tarde nos trouxesse a lua
Se o amor chegasse eu não resistiria
E a madrugada acalentaria a nossa paz

Fica, oh, brisa fica, pois talvez quem sabe
O inesperado faça uma surpresa
E traga alguém que queira te escutar
E junto a mim queira ficar...

Johnny Alf
Comentário de Helô em 20 maio 2009 às 22:00
Luiza
Você poderia fazer um post contando suas experiências na noite paulistana. Seria muito legal! Bjs.

Miriam
Em seu depoimento sobre o encontro com Johnny Alf, encontrei uma palavra que talvez seja a que mais combina com ele: ternura. Você é mais uma privilegiada que teve a oportunidade de conhecê-lo de perto. No meu post anterior (aí em cima tem o link em "primeira chamada"), coloquei Eu e a Brisa cantada por Márcia. Vou repetir o vídeo aqui em agradecimento ao belo comentário que você escreveu.
Beijos.

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