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Gestos tímidos, poucas palavras, humilde, generoso... esse é o perfil do cantor, compositor e pianista carioca Alfredo José da Silva, ou Johnny Alf, nascido em 19 de maio de 1929, e que tem uma longa e bela história de relevantes serviços prestados à música, destacando-se como figura fundamental na criação da Bossa Nova.

Geralmente não é muito comum uma pessoa ter um epíteto e rejeitá-lo. No caso de Johnny Alf o epíteto “o verdadeiro pai da bossa-nova” nunca foi admitido por ele.

Muitos advogam que um simples exame de DNA certamente revelaria que Johnny Alf é o pai da criança, ou seja , da Bossa Nova. Como nos diz Ruy Castro, “ele ajudou a preparar a cama. Esticou o edredron, afogou os travesseiros e, por uma cruel ironia, não estava presente quando os outros se deitaram”.

Mas o próprio Johnny Alf nunca reivindicou a paternidade, como também nunca queixou-se de mágoas ou ressentimentos. Na verdade ele não gosta de rótulos.

Ao ser perguntado sobre se a música que fazia era bossa nova, jazz, samba ou samba-jazz, respondeu: “Música não tem nome, meu bem,. Música é som”.


UM POUCO DA SUA TRAJETÓRIA.

Sua vida começou difícil. Aos três anos de idade perdeu o pai. A mãe doméstica em casa de família, preocupava-se, obviamente, com seu futuro. Mas sua patroa, que era madrinha do garoto, acabou interferindo de forma fantástica no seu destino.


Existia um piano na sala. Todos notavam seu namoro com o ele. Como prêmio pela sua aprovação em exame de admissão no Colégio Pedro II, em 13º lugar, sua fada madrinha cumpriu a promessa de matriculá-lo em aula de piano com a professora Geni Bálsamo.
Ele tinha onze anos. Agarrou com toda fibra a chance e dedicou-se aos clássicos de Chopin, Tchaikovsky e muitos outros.





Não demorou muito, sua mestra percebeu sua atração pela música popular. Aos 14 anos formou um conjunto com amigos em Vila Isabel, indo tocar nos fins de semana na Praça Sete, do Andaraí.


Os filmes musicais americanos com as maravilhosas canções de George Gershwin e Cole Porter despertavam bastante seu interesse. "Era o que me acendia aquela vontade interior de criar alguma coisa. Então, quando voltava do cinema sob aquele impacto, eu ia ao piano e fazia coisas com a influência do que tinha ouvido, inventava a melodia, e tal...", diz ele.







Apreciava também o jazz, principalmente o trio do então pianista Nat King Cole. “Dos americanos o que mais me influenciou”.




Bem mais tarde, em depoimento a Fernando Faro, disse que a primeira vez que travou contato com uma música dissonante foi através de Custódio Mesquita.


O APELIDO.

Outras habilidades do nosso garoto: desenho, pintura e línguas – especialmente inglês e francês.
Passa a freqüentar como pianista convidado as reuniões do Instituto Brasil-Estados Unidos (IBEU).Lá os alunos desenvolviam conversação em inglês e aprendiam os sucessos americanos ao som do piano de “Alf”, como foi batizado por um dos professores. O “Johnny” foi uma amiga americana que sugeriu.




No finalzinho da década de 1940, um porão da rua Dr. Moura Brito, 74, na Tijuca, era o ponto de encontro de moças e rapazes, todos estudantes na faixa etária de 20 anos ou menos que gostavam de música, preferencialmente as de Frank Sinatra e D*** Farney.

Os donos da casa, um médico do bairro e sua esposa, não se importavam que a filha usasse o espaço para receber os amigos, desde que não perturbassem os vizinhos. Ela e as primas não se fizeram de rogadas e criaram nele o Sinatra-Farney Fan Clube.

Lá existia uma vitrola, discos de 78 rpm, geladeira...e um piano surrado. E como diz Ruy Castro “onde havia um piano, era quase certo encontrar Johnny Alf ao banquinho”. Além dele João Donato, Iracema (que depois adotou o nome de Nora Ney), Paulo Moura, Doris Monteiro, Carlos Manga... Os nomes hoje soam familiares, mas, na época , eram amadores. O único famoso era o co-patrono do clube, D*** Farney que, tornou-se o padrinho artístico de Johnny Alf.

Essa turma do Sinatra-Farney Fan Clube que se reunia para curtir seus ídolos e engendrar mudanças e nem sonhava que já eram pré-bossanovistas.



Foram D*** Farney e Nora Ney que buzinaram nos ouvidos do radialista e apresentador César de Alencar (foto ao lado), o nome de Johnny Alf para assumir o piano da recém inaugurada “Cantina do César”. No teste, Johnny Alf nem chegou ao final. “Pode parar, meu filho. O emprego é seu”.

Conta-se que na sua estréia na Cantina, a cantora Marlene lhe deu uma gorda gorjeta valendo pela sua mesada do ano inteiro.
Com esse trabalho ele deu seu grito de liberdade e foi morar sozinho.



Foi na Cantina que conheceu João Gilberto. “Ele se juntou a nossa turma: eu, Dolores, Donato. Naquela época ele não era super desligado como hoje. Depois íamos ver o dia amanhecer no “Marrocos” (bar da rua Almirante Gonçalves).






Radamés Gnattali (na época com 46 anos) era bastante respeitado no meio artístico. E se ele dava valor àquele rapaz era porque ele era bom mesmo.






Em 1953 grava seu primeiro disco. “Falsete” (de sua autoria) e “De cigarro em cigarro” (de Luiz Bonfá). Com piano, baixo (Vidal) e violão (Garoto), como nos diz Ruy Castro em “Chega de Saudade”, pg 95 e Irati Antonio e Regina Pereira em “Garoto, Sinal dos Tempos”, pg 71.

O professor e pesquisador Jorge Mello contesta que o violonista seja o Garoto, com base na revista Carioca nº 928, de 18/07/1953, na seção Variedades Musicais, pg 38 onde o autor da matéria, Daniel Tylor, diz que o Trio é formado por Alf (piano), Vidal (contrabaixo) e Kid (violão).

Agora sou eu quem vai botar mais lenha na fogueira. O próprio Johnny Alf (tenho o CD com áudio dele), participando do Programa MPB Especial, em 07/08/1975, gravado pela TV Cultura e dirigido por Fernando Faro disse que o Garoto entrou no trio da gravação substituindo o violonista Laurindo Almeida que precisou viajar aos EUA.

Cheguei a pensar, até mesmo, na própria palavra em inglês “Kid” traduzida para o português – “criança” – o que lembra também “garoto”... Será que o Daniel Taylor escreveu "KID” no lugar de “GAROTO”? :))))

A polêmica é boa.... Cada um pode tirar suas conclusões...




Em 1955 grava outro compacto simples com a música “Rapaz de Bem,” composta em 1953 e considerada em termos melódicos e harmônicos, como revolucionária e precursora da bossa nova.



"Rapaz de Bem" (Johnny Alf) # Johnny Alf [voz/piano] e Marco Souza [baixo].



 



Abaixo várias capas de discos gravados por Johnny Alf e em parceria com outros artistas.









Em 1967 Johnny Alf compõe “Eu e a Brisa” – obra encomendada para o casamento de um grande amigo que morava em Santo Amaro - mas o padre frustrou a todos, só aceitando a tradicional "Marcha Nupcial".

“Eu estava na casa desses meus amigos, passando uma temporada, e a Márcia apareceu lá. Foi levada pelo Toninho Rago, filho do violonista Antônio Rago. Mostrei a música, ela gostou e sugeriu que eu inscrevesse a música no Festival da Record (III Festival da MPB), mas não foi classificada”.

O fato é que a belíssima música de Johnny Alf não sensibilizou os jurados nem pela beleza nem pela ótima interpretação de Márcia. Mas gradativamente foi adquirindo prestígio para se tornar a mais solicitada e gravada canção de Johnny Alf.


Curtam, "Eu e a Brisa", na voz do próprio Johnny Alf.

 

Johnny Alf poderia ter gravado bem mais. Segundo Ruy Castro ele chegou a passar 12 anos sem entrar num estúdio, entre 1978 e 1990, mas quase a totalidade de seus discos são definitivos.


ROMARIA NAS BOATES.

Uma das marcas registradas de Johnny Alf era não esquentar lugar. Da Cantina do César foi a convite do músico Fafá Lemos para a boate Monte Carlo, na Gávea.

A próxima parada foi o Clube das Chaves, no térreo do antigo Cassino Atlântico, no Posto 6 de Copacabana. Deste, pousou no Mandarim, no Leme, revezando ao piano com Newton Mendonça. “Conversávamos muito sobre música. Gosto bastante de 'Foi a Noite', dele com o Tom”.



E a romaria continua..., boate Posto 5. Logo depois Club de Paris, no Lido, ruazinha sem saída que mais tarde seria batizada de Beco das Garrafas. Stud, no Posto 6. Retorna ao Leme assumindo o piano da boate Drink, em Copacabana - uma das casas mais frequentadas da noite carioca. Na foto ao lado, a caixa de fósforo com o logotipo da boate.

Não demorou muito para atravessar a rua e tornar-se titular do bar do Plaza, onde a demanda por ouvi-lo era grande.






Na foto ao lado o famoso Beco das Garrafas, pequena ruela bastante freqüentada, na década de 1950, onde concentravam-se pequenos bares/boates, cenário do samba canção e templo da bossa nova, onde se apresentaram, entre outros, Dolores Duran, Sylvinha Telles, Luís Eça, Baden Powell e Johnny Alf.




Foram quase uma dezena de locais de trabalho, no Rio de Janeiro, em apenas dois anos. Achando pouco não hesitou frente à proposta de um empresário paulista de levá-lo para seu recém inaugurado restaurante Baiúca, no Centro da cidade. Logo logo, partiu da Central do Brasil à Estação da Luz, com um detalhe: esqueceu de pedir demissão do Plaza.

Baiúca, 1955: Johnny Alf recém chegado a São Paulo, com Araken (trompete), Pedrinho Mattar, Chu Viana (baixo) e o cantor Ted Moreno.

Você estão pensando que a romaria acabou? Continuou com mais intensidade em Sampa. Vale ressaltar que algumas vezes isso ocorria à sua revelia, ou seja, algumas boates faliam, outras tinham de ser derrubadas para construção de outros imóveis...


VULCÃO EM EBULIÇÃO.



Verdade é que o cerne da agitação na MPB estava em ebulição na cidade maravilhosa a 400 km de Johnny Alf. E por ironia do destino o cenário era justamente o bar do Plaza, agora ocupado pelo pianista Luizinho Eça, e freqüentado pelos grandes nomes que conhecemos hoje como bossanovistas, entre eles Tom Jobim que só se referia a ele como “Genialf”.

Em 1960 toda essa turma era consciente da importância de Johnny Alf para a nova MPB.


Não dispensaram sua presença na famosa “Noite do Amor, do Sorriso e da Flor” – show de bossa nova que aconteceu na noite de 20 de maio de 1960, no anfiteatro da Faculdade de Arquitetura, na Praia vermelha. Depois de muita insistência embarcou de trem para o Rio.

Quando chegou sua vez de subir ao palco, Ronaldo Bôscoli, no papel de mestre-de-cerimônias, disse:
“Os verdadeiros entendidos na história da bossa nova não poderão estar esquecidos deste nome. Faz dez anos que ele toca música bossa nova, e, por isso, foi muitas vezes chamado de vigarista e maluco. Johnny Alf!!!”


A foto acima retrata esse momento histórico. Johnny, que sempre foi tímido, nunca cantara para tanta gente reunida, se assustou um pouco, mas sentou-se ao piano e mostrou com competência o que sabe fazer, interpretando “Céu e Mar” e “Rapaz de Bem”. Como nos diz Ruy Castro: “Foi seu cartão de visitas para toda uma geração”.


Dois anos depois, em 1962, acontecia o famoso concerto de bossa nova no Carnegie Hall, em Nova York.
Johnny Alf foi convidado, mas quando perguntado se iria mesmo, saiu pela tangente dizendo que era bem provável. Mas, às vésperas do embarque da trupe tomou um “chá de sumiço”; ninguém sabia do seu paradeiro. Mais uma vitória da sua timidez.

Johnny Alf fala da bossa nova: “foi um movimento que trouxe muita abertura à música brasileira, desprendeu-se do esquema tradicional, que não é errado. Ela consegue um caminho que enriquece harmonicamente um modo despreocupado de ver e sentir as coisas, a poesia que nós lançamos e que depois Vinicius de Moraes concretizou em níveis mais altos”.




Em 1997, Johnny Alf, gravou em homenagem ao grande poeta Noel Rosa de Vila Isabel (assim como ele também), em CD, a música “Noel, Rosa do Samba”, feita em parceria com Paulo César Pinheiro (Lumiar Discos – CD LDOS/97 – dezembro/1997).


Como essa música não é muito conhecida, resolvi disponibilizar o áudio para vocês curtirem, na voz do próprio Johnny Alf.


 



Há dois anos Johnny Alf - “Sr. Modernidade” - mora em Santo André, no ABC paulista, numa casa de repouso, desde que foi submetido a uma cirurgia e a um longo tratamento.

Sem plano de saúde, vive de uma pequena poupança e de seus parcos direitos autorais – e percebam que ele é o autor de muitos standards da música brasileira.

Não são poucas as pessoas que estão achando tímidas as homenagens àquele que é um dos pilares da bossa nova. Exceto alguns shows promovidos por suas fãs/amigas – Leny Andrade, Alaíde Costa, Claudete Soares, Márcia...

“Neste aniversário, ele mereceria um ciclo inteiro de espetáculos reunindo músicos de sua turma (ainda há muitos na praça) e das gerações mais novas, reconstruindo sua obra em vários contextos: orquestra, pequeno conjunto, piano solo, vozes, gafieira, jam session...



Os 80 anos de Johnny Alf começam dia 19 de maio de 2009 e levarão um ano para se completar. De preferência, com ele ao piano”
, nos diz Ruy Castro.


Quem sabe... “o inesperado faça uma surpresa”...


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Fontes Pesquisadas:

- "Chega de Saudade: a história e as histórias da Bossa Nova", de Ruy Castro - São Paulo: Companhia das Letras, 1990.

- "A Canção no Tempo: 85 anos de músicas brasileiras" - Vol 2: 1958-1985, de Jairo Severiano e Zuza Homem de Mello - São Paulo: Ed. 34, 1998.

- "A História do Samba". (Fascículos da Ed. Globo, 1998).

- "A Música Brasileira deste Século por seus Autores e Intérpretes - Vol 4. Coordenação: João Carlos Botteselli (Pelão) e Arley Pereira. São Paulo: Sesc, 2000.

- "Coleção Folha - 50 anos da Bossa Nova; Vol 8. Rio de Janeiro: MEDIAfashoin, 2008.

- Site Sovaco de Cobra. Post de Jorge Mello.


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Johnny Alf interpreta vários dos seus sucessos.





"Ilusão à toa"

Exibições: 719

Comentário de Gregório Macedo em 17 maio 2009 às 21:40
Viva o rapaz de bem!
Bela homenagem, Laurinha.
Beijos.
Comentário de Marise em 17 maio 2009 às 22:47
Laura que maravilha. Que homenagem linda para quem merece.
Beijos
Comentário de Helô em 17 maio 2009 às 22:56
Laurinha
Você se superou! Colocou no mesmo caldeirão uma grande porção de conhecimento, pesquisa, apresentação... e temperou com uma riquíssima dose de emoção. E me emocionou com essa homenagem tão linda! Ele merece e seus fãs agradecem.
Carinhoso beijo pra você.
Helô.
Comentário de Nicolau Frederico de Souza em 17 maio 2009 às 23:32
Laura,
Excelente a sua descrição sobre o Johnny Alf. Muitos o consideram o verdadeiro pai da Bossa Nova. Aprendi isso quando dediquei meu blog em 2008 aos 50 anos da Bossa Nova. A primeira vez que vi Johnny tocar ao vivo foi em Curitiba/PR, no ano de 1974, no Teatro Paiol. Ele simplesmente foi fantástico. Lendo mais sobre este compositor e músico vem a pergunta: por onde anda Johnny Alf?
Comentário de herbenia leite cruz rufino em 19 maio 2009 às 21:33
laurinha, me emocionei com os seus escritos... escritos fortes , emotivos.. sobre a bossa nova e sobre johnny alf. voce me emocionou e muito . parabens pela pesquisa... excelente.... fantástico ... que bom que voce encontrou o seu espaço . com afeto, admiração e saudades, bena. acredito que faz parte de voce, fazer muito bem feito tudo a que voce se dedica. PROSSIGA......
Comentário de Cafu em 23 maio 2009 às 17:52

"Música é som"...e o som do Johnny é realmente genialf!
Tintim! Saúde! e muitos anos de vida produtiva e criativa para este grande artista.
Comentário de Helô em 25 maio 2009 às 12:58
Laurinha
A Globo lembrou de homenagear Johnny Alf! :)
Mas só no dia 22 de maio, três dias depois do aniversário. :P

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