O Gorvo i o Raposo (1)

Juó Bananére:

Fabula di La Fontana - Traduçó futuriste


MESTRE Gorvo n'un gaglio sintadigno,
Tenia nu bico un furmaggio;
Mestre Rapozo sintino u xirigno,
Aparlô nistu linguagio:

- Eh! dottore Gorvo, bondí!
Come stá o signore, stá bonzigno?
Come o signore é bunitigno!
Té parece uma giuriti.


Aparláno a virdade pura,
O xirósa griatura!
Si o vostro linguagio
É uguali co vostro prumagio,
Giuro per Zan Biniditto
Che in tutto isto distritto
Non tê ôtro passarigno
Chi segia maise bunitigno.

O Gorvo ficô tô inxado
Con istas adulaçô,
Chi até paricia o Rodorfo
Nu tempo da intervençó.

I pr'a amustrá o linguagio
Abri os brutto bicô,
I dixó gaí o furmagio
Chi o Raposo logo pigô

I dissi:

Sô Gorvo, o signore é un goió
Piore do Gapitó!
Ma aprenda bê ista liçó,
I non credite maise in dulaçó.
I assí dizéno fui s'imbóra,
Si rino do Gorvo gaipóra.
O Gorvo, danado da vida,
I co logro che illo livô,
Pigô un pidaço di górda
I s'inforcô.
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Fonte:
(1) Programa Devaneio - Rádio Band News FM
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(*) o título é um link para o ensaio: LA DIVINA INSGUGLIAMBAÇÓ OU ‘COMO SE LÊ UM POEMA EM PORTUGUÊS MACARRÔNICO?’ de Cesar Augusto de Oliveira Casella
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. Juó Bananére é o pseudônimo literário do engenheiro, poeta e jornalista paulista Alexandre Ribeiro Marcondes Machado (1892 -1933). Nascido em Pindamonhangaba, morou em Araraquara e Campinas durante a infância e estudou em São Paulo, na Faculdade Politécnica da USP. Ou seja, um grande conhecedor do interior de São Paulo de sua época. Como engenheiro deixou obra de arquitetura imponente, mas pouco original, segundo o pesquisador Mario Carelli[3]. Como jornalista, escreveu artigos para o Estado de São Paulo, e crônicas irreverentes para O Pirralho, o tablóide modernista de Oswald de Andrade. Como poeta criou versos paródicos da produção de poetas laureados e famosos tais como Olavo Bilac, Gonçalves Dias e Luís de Camões. Também atazanou a vida de políticos e poderosos de sua época, como o então prefeito Washington Luis e o marechal Hermes da Fonseca.

Juó Bananére é um espalhafatoso personagem ítalo-paulistano, morador do ‘Abax’o Pigues’, como era conhecido o bairro do Bexiga e suas redondezas no início do século passado, e que possui um falar todo particular, numa mistura de português e italiano feita com rara maestria, que parodiava a fala inculta da primeira leva de imigrantes italianos que ocuparam os bairros do Brás, Barra Funda, Bexiga e Bom Retiro, em São Paulo.

Como bem sinaliza Cristiana Fonseca[4], a principal fonte de inspiração de Alexandre Machado estava nas ruas, e era para essas mesmas ruas de uma São Paulo pré-modernista que retornava a obra pronta, causando um irrefutável sucesso de época, tendo em vista as repercussões em textos de outros autores e relatos de pesquisadores

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Quem foi Alexandre Marcondes Machado

por Abílio Friedman | 25/07/2003


Filho de José Francisco Ribeiro Marcondes Machado e de Mariana Machado, Alexandre Ribeiro Marcondes Machado nasce a 11 de abril de 1892, na cidade de Pindamonhangaba, interior de São Paulo. Logo aos três anos de idade, fica órfão de pai e muda-se com a mãe e seus oito irmãos para Araraquara, também localizada no interior de São Paulo.

Após concluir o curso primário, muda-se para Campinas, onde conclui o curso secundário e, devido às dificuldades financeiras vividas por sua família, ele, da mesma forma que os irmãos, começa a trabalhar ainda muito jovem. Por não suportar a idéia de ter um patrão que lhe dita regras, começa a escrever crônicas avulsas em jornais.


No início de 1911 Alexandre Marcondes Machado, já vivendo em São Paulo, ingressa no curso de engenharia da Faculdade Politécnica da USP. Ainda nesse mesmo ano, mais precisamente no dia 14 de outubro, faz sua estréia, ou melhor, Juó Bananére faz sua estréia como cronista na edição nº 10 do semanário “O Pirralho”.
Esse tablóide, fundado por Oswald de Andrade e Dolor de Brito, pode ser considerado um periódico típico da belle époque, pois seu de conteúdo era destinados à diversão da elite: figuras importantes da intelectualidade da época desfilavam em suas páginas, havia brincadeiras, colunas sociais etc. Nesse cenário, a imitação de falas consideradas “incultas” como a forma de se expressar do caipira e dos imigrantes, tinha sucesso garantido. Prova disso é que Cornélio Pires, utilizando-se do pseudônimo de Fidêncio Costa, era o responsável por uma seção intitulada “Cartas Caipiras”.

Juó Bananére estreou no semanário “O Pirralho” em substituição a Annibale Scipione, responsável pela seção “Cartas d´Abax´o O Pigues”. Na realidade Annibale Scipione era o pseudônimo de Oswald de Andrade, que escrevia a coluna em um linguajar macarrônico, ou seja, mistura proposital de duas línguas com fins literários, no caso o Português e o Italiano.
Oswald transferiu a coluna a Alexandre Machado, pois pretendia viajar à Europa, fato ocorrido no final de 1912. Durante o período em que Oswald se ausentou, o Semanário foi arrendada por Benedito de Andrade, o Baby.

bananere
Juó de Bananére - Desenho criado por Votolino

Para substituir Annibale Scipione, Alexandre Machado e o caricaturista Votolino (pseudônimo de Lemmo Lemmi, sócio de Oswald de Andrade em “O Pirralho”) criaram a figura de Juó de Bananére. Votolino criou a imagem, ou seja, a caricatura, que foi inspirada em Francesco Jacheo, um conhecido de Votolino que deseja ser jornalista (fare il gionalista). Já Alexandre Machado deu-lhe a “vida”, pois além de um estilo literário impar, deu-lhe ainda uma biografia, perfil psicológico e até mesmo uma família: Juóquina, a esposa; Gurmeligna, a filha; e Semanigno, o neto.

Após a estréia de Juó de Bananére em “O Pirralho” veio o sucesso. Em pouco tempo os seus textos se transformam em uma “espécie de leitura obrigatória” para o público paulista. Sempre brincado com tudo e com todos, Juó de Bananére, que, como ele mesmo dizia, era “gandidato á Gademia Baolista de Letras”, conquistou o público letrado e o iletrado também. Os textos produzidos por Bananére eram lidos nos salões freqüentados pela alta sociedade e também pelos carregadores, jornaleiros etc. Com isso, o semanário, que, a princípio era destinado às classes mais altas da sociedade, se popularizou e Juó de Bananére conseguiu a façanha de dialogar, com os mesmos textos, com as classes alta e baixa da sociedade.

O sucesso atingido por Bananére está relacionado diretamente ao seu atrevimento. Ele sempre criticou figuras importantes do cenário político, como, por exemplo, Washington Luiz e o então presidente da República Hermes da Fonseca, que era citado em seus textos mordazes pela alcunha de “Hermese”, “Mareschialo” ou, simplesmente por “Dudu”. No campo literário Bananére satirizou escritores consagrados da nossa literatura como, por exemplo, Casimiro de Abreu, Gonçalves Dias e os seus contemporâneos e prestigiadíssimos Raimundo Correa e Olavo Bilac.
Além de assuntos políticos e literários, Bananére abordou, sempre com irreverência e humor, temas que científicos, históricos, sociais etc.

Em maio de 1915 Bananére publica, pela primeira vez, a obra “Lá divina increnca”, paródia de “A Divina comédia” de Dante Alighieri. Essa obra, até o ano de 1925, teve outras nove edições publicadas, sendo que novos textos foram acrescentados à obra original. Algum tempo depois, lança, em parceria com alguns outros colaboradores de “O Pirralho”, o tablóide “O Queixoso”, que tinha o objetivo de criticar os maus políticos de sua época.

Ainda em 1915, Bananére foi demitido da revista “O Pirralho”. O motivo foi à publicação de duas criticas vorazes contra Olavo Bilac. Confira um trecho de um desses textos:

"Non é só Bilacco che é uleomo de lettera - io també, io també scrivo verso, io també scrivo livro di poisies chi o Xiquigno vai inditá, i chi undio va vê si non é migliore dus livro du Bilacco."

Vale lembrar que nessa época Oswald de Andrade, que já havia retornado direção do semanário, ainda não tinha um espírito tão irreverente e combativo, como o que o caracterizou nos anos posteriores a Semana de Arte Moderna de 1922. Além disso, ao que tudo indica, Oswald, além de ter uma certa ligação com Bilac, contribuiu para que o poeta visitasse a cidade de São Paulo no ano de 1915. Nessa época Bilac e “O Pirralho” apoiavam a Campanha Civilista (Movimento liderado por Rui Barbosa por ocasião das eleições presidenciais de 1910, por meio do qual a oligarquia do café se opôs à candidatura do marechal Hermes da Fonseca).
Atacar Bilac, que era praticamente um símbolo dessa campanha era ir contra os ideais de “O Pirralho” e, assim, torna-lo contraditório. Pois na edição de nº 205 de “O Pirralho” foram publicados:

  • Na capa uma ilustração de Votolino com Bilac vestido de armadura e sob essa ilustração os dizeres “O CHEFE DA CRUZADA”;
  • Nas páginas de dentro, Dolor de Brito publicou um artigo elogiava Bilac e seu apelo a favor da Campanha Civilista.
  • Já na coluna “As Cartas D’Abax´o O Piques”, Bananére publicou um artigo intitulado:
    “O NAZIONALZIMO
    A migna visita na Cademia di Cumerço du Braiz
    O discursimo. — O intusiasmi du pissoalo”
    Nesse artigo Bananére ironizou a visita de Bilac a São Paulo e o seu discurso na Academia de Direito do Largo de São Francisco.


Diante dessas últimas investidas Bilac, Juó de Bananére foi desligado do Machado do quadro de colaboradores do semanário. Na edição de 27 de novembro de “O Pirralho” foi publicada a seguinte nota que anunciava oficialmente o desligamento de Alexandre Marcondes:

"Deixou de fazer parte desta revista o talentoso moço Alexandre Marcondes Machado, que sob o interessante pseudônimo de Juó de Bananére vinha ha muitos annos com as suas magníficas “Cartas d’Abaxo O´Piques” desopilando o fígado dos nossos leitores. Ao optimo companheiro os nossos agradecimentos com os melhores votos de felicidade".

Em 1916, Alexandre Machado lança o tablóide “Vespa”, que, além de contar com alguns participantes de “O Queixoso”, também seguia a mesma linha ideológica dessa publicação. Ainda nesse ano é publicada a segunda edição da obra “Lá divina increnca”.

No ano de 1917 Alexandre Marcondes Machado forma-se em engenharia. Nesse ano, também ocorrem o lançamento da obra “Galabaro” e a encenação dos poemas que compõem a obra “Lá divina increnca”. No ano seguinte, a encenação de “Lá divina increnca” faz grande sucesso, sendo apresentada 36 vezes.

A partir daí, Alexandre Marcondes Machado passa a dedicar-se ao trabalho na empresa de construção Sampaio Machado, uma parceria sua com Otávio Ferraz Sampaio. Em 1919, após uma Viagem pelas cidades históricas de Minas Gerais, lança a obra “A arquitetura colonial no Brasil”. Ainda nesse ano lança a peça “Vai dar o que falar”, que não consegue grande sucesso.

Depois de sua participação em “O Pirralho” Juó de Bananére não apareceu como colunista fixo de nenhuma publicação periódica. Entre 1926 e 1927 são encontrados alguns artigos publicados no jornal O Estado de São Paulo, só que assinados por Alexandre Marcondes Machado.

No ano de 1931, laça dois “compactos” (Disco pequeno com uma ou duas composições de cada lado). Neles declama os seguintes poemas: “Non Fui Ista a Inrevoluçó que Io Sugné”, “O Indiscobrimento do Brazil”, “O Lobo i u Gorderigno” e “U Cavagnac”.

Em 1933, lança o jornal “Diário do Abax’o Piques”. Ainda nesse ano, precisamente no dia 22 de agosto, Alexandre Marcondes Machado falece, deixando viúva a senhora Diva Melo Barreto. O escritor não teve filhos

Fonte: site Mundo Cultural

(http://www.mundocultural.com.br/index.asp?url=http://www.mundocultural.com.br/artigos/Colunista.asp?)artigo=585)


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