Lúcifer está morto

 

Desde o princípio, quando da aparição do ser humano sobre a Terra, o homem observa atentamente o mundo em que está inserido, inclusive com a curiosidade voltada para si próprio, tentando compreender o princípio de todas as coisas, a origem do universo imediato, tudo aquilo que está ao alcance de nossas vistas e dos sentidos em geral.

 

O firmamento, as estrelas, a Lua, o Sol, campos e florestas, as águas em suas diversas concentrações, sejam os mares e oceanos, rios e lagos, nuvens e o fenômeno da chuva, o fogo, as rochas, a imensa variedade de animais e vegetais, tudo isso sempre inquietou a alma humana, despertando-lhe o interesse em identificar e conhecer o começo e o fim do Universo, a origem e o destino da humanidade.

 

O sentimento da existência de Deus é universal. Em toda a face da Terra, desde tempos remotos, o ser humano professa a crença no Criador de todas as coisas. As formas expressas variam apenas de acordo com a época e o lugar, porém todas convergem para a existência de um ser regente universal, perfeito, justo, onipresente, onisciente e onipotente.

 

Há quem acredite que Deus é fruto da fértil imaginação do ser humano, afirmando que a imagem e predicados divinos teriam sido criados pelo homem com o propósito de explicar o inexplicável, ou transmitir certa noção sobre aquilo que ainda não compreendemos. Para esses, as chamadas leis divinas foram “promulgadas” pelas religiões, a fim de exercerem controle social, refreando as más inclinações humanas.

 

Existem, ainda, os que acreditam num deus que expressa as possíveis virtudes e até mesmo as imperfeições humanas, um deus capaz de amar e, eventualmente, odiar, um deus que abençoa ou amaldiçoa, absolve ou condena, conforme o comportamento de suas criaturas. Quem de nós não ouviu pregações sobre um deus capaz de se irar, “a ira de Deus”? Falam de um deus capaz de lançar maldições sobre indivíduos ou coletividades humanas. Tratam de um deus que ama apenas os bons, quais sejam, os obedientes aos ditames de sua empresa, e condena os maus, os rebeldes; em alguns casos, a penas eternas, sem o direito de se redimirem de suas faltas.

 

O céu e o inferno

 

Em meados dos anos 1990 (infelizmente não lembro precisamente mês e ano), fui convidado a participar da composição de uma mesa de debate no Seminário Arquidiocesano São José, localizado no bairro do Rio Comprido, no Rio de Janeiro. O tema se reportava aos diversos conceitos de céu e inferno, conforme as orientações de religiões diversas. A plateia era composta de seminaristas, leigos católicos e convidados especiais. Os integrantes da mesa deveriam se posicionar como representantes de credos religiosos ou simplesmente praticantes de tal ou qual doutrina religiosa. Também participou um notável professor da próppria instituição católica, o qual se declarava ateu.

 

Estavam ali representantes do Candomblé, do Evangelismo Protestante, da Igreja Católica (evangelismo católico), do Ateísmo e eu, estudante da Doutrina Espírita. E na condição de mediador, um seminarista, destacado líder estudantil do Seminário Arquidiocesano São José.

 

Representando a Igreja Católica, ninguém menos que Dom Estêvão Bettencourt (1919 ─ 2008), teólogo, professor do Instituto Superior de Teologia da Arquidiocese do Rio de Janeiro.

 

O evento representava, simbolicamente, a última aula do curso de Teologia para a turma de seminaristas que se graduavam naquele ano.

 

Ao ser convidado para participar do evento, imaginei que, no mundo “avançado” em que nos encontrávamos, alunos de cursos de Teologia já haveriam de ter tido acesso a todas as visões de céu e inferno pregadas por todas as doutrinas religiosas do mundo. Principalmente pelas mais ativas em território nacional. Engano. Ali, pude deduzir, em vista das perguntas que vieram da plateia, que ignoravam tudo, tudo mesmo, sobre os conceitos da Doutrina Espírita e de outras religiões que se faziam representar no evento. Pelo visto, ali o ensino se resumia aos princípios da Igreja Católica.

 

Parodiando NietzscheLúcifer está morto

 

Dom Estêvão Bettencourt foi o primeiro a expor noção do que o Catolicismo prega sobre o que venha a ser o Céu e o Inferno. E eu esperava que, a esse respeito, ele discorresse sobre duas regiões bem definidas, para onde iriam todas as almas depois da morte do corpo físico. Cada uma sendo admitida em ambiente próprio ao seu merecimento: as virtuosas para um lado, as pecadoras para o outro, de maneira definitiva, para todo o sempre, conforme me fora ensinado quando criança, na Cruzada Infantil.

 

Mas eis que o eminente sacerdote católico me surpreendeu. Falou de Céu e Inferno como sendo resultado de profundas impressões que o espírito leva na consciência, a qual, depois da passagem para outras dimensões cósmicas (com a morte do corpo carnal), não mais possuía o corpo material denso para encobrir ou dissimular os valores morais que alimentou enquanto encarnada. Naquele estado, o espírito, na mais perfeita liberdade de consciência sobre seus atos, seria o seu próprio e único juiz. Assim, a alma desencarnada poderia impor a si mesma sentimentos de culpa e consequentes remorsos que a levariam a sofrer atrozes dores morais, aquilo que conseguira evitar na existência terrena; ou, no caso dos que bem procederam durante sua estada na Terra, se rejubilaria entre os justos.

 

“Ora! – pensei – mas esse é, basicamente, o conceito de céu e inferno de acordo com os princípios doutrinários do Espiritismo.” Em momento algum Dom Estêvão se referiu a Lúcifer e suas falanges espetando tridentes nas nádegas dos pecadores que teriam sido condenados a viver em regiões infernais bem definidas. Nada de caldeirões ou lagos de enxofre fervente, não falou de monstruosas criaturas do tipo lobisomem torturando a pobre alma por toda a eternidade. “Lúcifer está morto!”

 

Porém, se na explanação de Dom Estêvão identifiquei aparente concordância entre a visão espírita e católica sobre o destino das almas desencarnadas, o mesmo não aconteceu quando fomos questionados a respeito da criação do ser humano, da reencarnação versus ressurreição e comunicação com os “mortos”.

 

Conforme a religião católica, o ser humano nasce para uma única existência. A alma seria criada no momento da concepção do corpo e o animaria para jornada única na Terra: nascimento, vida e morte. Depois disso, aguardaria o dia do juízo final, com a ressurreição dos mortos – na oração “O Credo”, os católicos professam a crença na “ressurreição da carne”.

 

O problema é quando a gente questiona o porquê de tanta gente nascer saudável, com o corpo em perfeita conformação, algumas pessoas externando, ainda em tenra idade, desenvolvido grau de inteligência, enquanto outras nascem com deformações físicas ou profundas dificuldades para expressar de forma compreensível o produto de suas funções mentais.

 

De acordo com a Doutrina dos Espíritos, o ser humano se formaria em milenar desenvolvimento, originando-se embrionário no reino mineral, passado por estágios de evolução no reino vegetal e animal, até encarnar em corpo hominal, simples e ignorante, mas todos dotados de igual potencial para progredir. A partir daí, iniciando jornada evolutiva, agora consciente de sua própria individualidade. As multirreencarnações teriam como objetivo o autoaperfeiçoamento, até quando não mais necessitasse da roupagem carnal, passando a viver em corpo de matéria mais sutil, quintessenciada, mas ainda submetido a processo evolutivo.

 

Em cada reencarnação, o esquecimento das reencarnações anteriores seria estabelecido por natural dispositivo, a fim de que o espírito não se perturbasse com as reminiscências do passado.

 

Transcrevo abaixo trecho do livro “Nosso Lar”, colônia espiritual levada às telas de cinema sob o mesmo título do livro psicografado por Francisco Cândido Xavier e ditado pelo espírito André Luiz.

 

Dois espíritos desencarnados, vivendo na colônia, dialogam. Um deles explica para o outro:

 

“...antes de tudo, é indispensável nos despojarmos das impressões físicas. As escamas da inferioridade são muito fortes. É preciso grande equilíbrio para podermos recordar edificando. Em geral, todos temos erros clamorosos, nos ciclos da vida eterna. Quem lembra o crime cometido costuma considerar-se o mais desventurado do Universo; e quem recorda o crime de que foi vítima, considera-se em conta de infeliz, do mesmo modo. Portanto, somente a alma muito segura de si recebe tais atributos como realização espontânea. As demais são devidamente controladas no domínio das reminiscências e, se tentam burlar esse dispositivo da lei, não raro tendem ao desequilíbrio e à loucura.”

 

Sopro de lógica

 

A certa altura, o debate se polarizou entre mim e Dom Estêvão, à época, declarado inimigo do Espiritismo, autor de pequena obra que denota contundente manifesto contra a chamada Codificação Kardequiana, a base da Doutrina dos Espíritos.

 

Notando que a plateia se empolgava e parecia querer se esclarecer mais e mais sobre os conceitos espíritas, Dom Estevão, certamente incomodado devido a que a maior parte das perguntas era encaminhada a mim, alertou: “Não é porque um sopro de lógica acena para a nossa mente que devemos aceitá-lo como expressão da verdade”.

 

Lógico! Até porque “um sopro de lógica” não pode ser de imediato aceito como lógica plenamente desenvolvida. Mesmo assim, é preferível acompanhá-lo, analisando-o com racionais critérios, a fechar a mente sob a ditadura de um dogma qualquer. Quer dizer: mais vale um sopro de lógica voando em sua mente do que mil dogmas castrando seu raciocínio.

 

 (*)Fernando Soares Campos é escritor, autor de "Fronteiras da Realidade - contos para meditar e rir... ou chorar" - Chiado Editora - Portugal - 2018. 

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