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Lamartine Babo, Elisa Coelho e Ary Barroso - "No Rancho Fundo"

 

Os compositores Lamartine Babo, Ary Barroso e, ao centro, a cantora Elisa Coelho.

 

 

“No rancho fundo”, um clássico da música brasileira, nasceu como “Este mulato vai ser meu” (com o subtítulo “Na grota funda”) e tinha versos do caricaturista J. Carlos para a melodia de Ary Barroso. Ao ouvir a canção na estreia da revista “É do balacobaco”, em 1931, Lamartine Babo decidiu sugerir a Ary uma nova letra, como conta o escritor e jornalista João Máximo.

 

J. Carlos não gostou nada da história, mas foi a letra de Larmartine que entrou para a história, com gravação original de Elisa Coelho, uma moça da alta sociedade, delicada e elegante, uma das vozes favoritas do criador de Aquarela do Brasil.

 

 

 

 

 

No rancho fundo” (Ary Barroso/Lamartine Babo) # Elisa Coelho. Disco RCA Victor (33444A), 1931.

 

 

 

 

 

 

 

 

"No Rancho Fundo"

 

 

No rancho fundo
bem prá lá do fim do mundo
onde a dor e a saudade
contam coisas da cidade.
no rancho fundo
de olhar triste e profundo
um moreno canta as mágoas
com os olhos rasos d'agua.
Pobre moreno
que de noite no sereno
espera a lua no terreiro
tendo o cigarro por companheiro.
sem um aceno
ele pega da viola
e a lua por esmola
vem pro quintal deste moreno.

No rancho fundo
bem prá lá do fim do mundo
nunca mais houve alegria
nem de noite nem de dia
Os arvoredos
já não contam mais segredo
e a última palmeira
já morreu na cordilheira.
Os passarinhos
internaram-se nos ninhos
de tão triste esta tristeza
enche de treva a natureza
tudo porque
só por causa do moreno
que era grande, hoje é pequeno
para uma casa de sapé.

Se Deus soubesse
da tristeza lá da serra
mandaria lá pra cima
todo amor que há na terra
porque o moreno
vive doido
de saudade
só por causa do veneno
das mulheres da cidade
Ele que era
o cantor da primavera
que até fez do rancho fundo
o céu melhor que há no mundo
e o sol queimando
se uma flor lá desabrocha
a montanha vai gelando
lembrando o aroma da cabrocha.

 

 

 

 

Relato de João Máximo

 

 

 

 

 

 

O episódio é muito conhecido, mas vale recontá-lo pela oportunidade de lembrar Elisa Coelho - a delicada e elegante Elisinha Coelho, moça da sociedade carioca, que se tornou uma das intérpretes favoritas de Ary Barroso.

 

No dia 25 de junho de 1931 estreava, no Teatro Recreio, a Revista “É do balacobaco”, texto de Marques Porto e Vitor Pujol, músicas de Ary Barroso e letras, entre outras, de J. Carlos, isso mesmo, o genial artista do traço.

 

 

 

Numa das cenas, um esquete caipira, Silvio Caldas cantava uma letra, também caipira, para a bela melodia de Ary Barroso. A canção intitulada “Na grota funda” que dizia:

 

Na grota funda

na virada da montanha

só se conta uma façanha

do mulato da Raimunda

Matar a nega

c'um pedaço de canela

e depois sem mais aquela

foi juntá c’uma galega.

 

 

Na plateia, encantado com a melodia, mas não com a letra, Lamartine Babo, outro dos grandes nomes da vida artística do Rio de Janeiro, de então. Pois foi Lamartine quem pediu a Ary Barroso permissão para fazer novos versos para a melodia de “Na grota funda”. Ary concordou. Claro sem imaginar que J.Carlos ficaria zangado por ver sua letra substituída. Pois J. Carlos ficou zangado.

 

 

 

O interessante é que na nova letra Lamartine manteve o tom interiorano, distante da cidade, porém mais romântico do que o esquete caipira de “É do balacobaco”. Com o título de “No rancho fundo”, o samba foi gravado por Elisinha Coelho, naquele mesmo 1931. Importante: com a letra completa - primeira, segunda e terceira partes. As mesmas que só seriam revividas 20 anos depois numa regravação de Silvio Caldas. Mas o que nos cabe aqui é lembrarmos a pouco conhecida versão original de Elisinha Coelho.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Consegui localizar a gravação de Silvio Caldas onde ele interpreta “No rancho fundo”, também, com a letra completa. Este LP contém o repertório de um disco de 10 polegadas (8 faixas) gravado em 1952, acrescido de quatro canções de Ary Barroso também já gravada por ele em LP na década de 1950.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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Fontes:

 

- Programa de João Máximo na Rádio Batuta do IMS (Instituto Moreira Sales).

- Site #Radinha (áudio).

- Site YouTube (vídeo).

- Montagem de fotos Laura Macedo.

- Outras fotos Google.

 

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