LES CONTES D'HOFFMANN- UMA ÓPERA CÉLEBRE

No conto de Machado de Assis, Um Homem Célebre, Pestana é um famoso compositor de polcas. Suas canções caíam no gosto do povão, eram assoviadas e tocadas por todos os cantos. Mas Pestana não era um homem feliz. Sonhava em ter uma obra de porte, música erudita no nível dos grandes mestres, mas de suas penas só saíam polcas. Cada vez que ele lançava uma, era sucesso estrondoso"consagradas pelo assobio". Pestana sempre quis compor algo elaborado e elevado, era uma celebridade, mas não estava satisfeito com a vida."Morre bem com os homens e mal consigo mesmo". Pestana, nas palavras de Machado " Mergulhava naquele Jordão sem sair batizado". Jacques Offenbach é o Pestana francês? Compunha operetas de sucesso estrondoso. Satirizava tudo e a todos, sacaneou até um brasileiro na opereta La vie Parisienne. O sucesso lhe trouxe riqueza, mas Offenbach não estava feliz com suas operetas. Queria provar que podia compor música séria. Les Contes d'Hoffmann é sua tentativa de se igualar aos grandes gênios da música. Será que o fim de Offenbach foi igual ao do Pestana?

Existem diversas versões desse título em vídeo, cada diretor fez sua leitura pessoal. Les Contes d'Hoffmann é uma obra aberta, com infinitas possibilidades.

O diretor Robert Carsen acerta na mosca. Sua leitura moderniza a ação, todos são descolados e atuantes. Teatro que combina com o libreto. Os cenários são magníficos, se transformam, encaixam com cada pedaço do enredo. De beleza ímpar, fizeram-me cair a cara no chão.

A ópera exige um elenco enorme, desfilam sopranos, mezzos, tenores e barítonos a toda hora. Acertaram nas escolhas. Lembremos que Les Contes d'Hoffmann são três óperas em uma. Neil Schicoff está soberbo. Já o conhecia na versão não-comercial do Scala de Milão. Sua voz e Hoffmann são uma entidade única. Bryn Terfel é um Lindorf + Coppélius+ Dr. Miracle + Dapertutto (Ufa!) de voz baritonal que tende para os agudos, mas cenicamente ele domina o personagem , fazendo-o sombrio e assustador. Susanne Mentzer faz uma La Muse + Nicklausse perfeita, que belo timbre!

Désirré Rancatore é uma boneca Olympia com agudos e coloraturas de sobra. A Antonia de Ruth Ann Swenson tem voz escura , delicada e sedutora. Mas o principal fica reservado à Giulietta. A Barcarole, "Belle nuit , ô nuit d'amour" abre as cortinas, cadeiras vermelhas de um fictício teatro se movimentam. O bacanal começa aos poucos e vai ganhando força. Aplausos quando as cortinas se abrem, uma das mais belas cenas gravadas em vídeo que este escriba assistiu até o presente momento. Béatriz Uria-Monzon entende que a personagem é de reputação duvidosa,e a faz de forma magnífica. Seduz Hoffmann com graves cheios e portentosos: quem não entregaria sua sombra a um mulherão desses.

Musicalmente, Les Contes d'Hoffmann segue o estílo opéra-lyrique. Conta a história do poeta que toma umas e outras em um bar e vai contando suas aventuras amorosas. Descreve três delas, e a sua perda para um ser malévolo. No bar, espera sua musa Stella, que está cantando a ópera Don Giovanni, de Mozart, no teatro ao lado. Bêbado e fora de si acaba perdendo mais uma vez para Lindorf sua amada. La Muse aparece, obriga o poeta a amar sua arte.

Os números tem escrita orquestral bem definida. Música com estílo próprio, cada ato segue um padrão. Melodias agradáveis, que marcam e apaixonam. Les Contes d'Hoffmann teve numerosas versões nesse século, cada um a sua maneira montou a ópera inacabada de Offenbach. A edição de Michel Kaye é a mais recente e se baseia em manuscritos encontrado em coleção particular.

Pelo sucesso da ópera, pela sua música e teatralidade podemos afirmar que Offenbach fez operetas de sucesso e uma única opéra-lyrique séria , de fama internacional. Bem diferente do Pestana que só produzia polcas . Pena que morreu antes de sua estréia.

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