Listas de "pérolas do ENEM" são um desserviço

As listas de "pérolas do Enem" que levam o público às gargalhadas em programas televisivos, como o do Jô Soares, ou as que são reencaminhadas por email ou postadas em fóruns, só servem para ridicularizar o ensino no país. E nenhum tipo de ridicularização contribui para o enriquecimento das discussões sobre um tema tão importante, que é o ensino e a educação.

Quanto às que nos chegam por email ou fóruns, não podemos fazer muita coisa. A responsabilidade é difusa. Mas podemos desejar um pouco mais de serenidade na TV.

O riso sarcástico que estas listas provocam na TV - fora o fato de que boa parte delas é retrabalhada na produção do programa - produz, de forma mais impactante, o efeito de que é todo o ensino do país que beira o tragicômico. Isto não é verdade.

É evidente que há muitos problemas, mas há também grandes iniciativas.

As práticas de ensino e as questões referentes à educação não são de fácil resolução. Mesmo parte dos países mais desenvolvidos economicamente se debatem com problemas que parecem insolúveis.

Valeria a pena acompanhar, por exemplo, a discussão sobre as dificuldades que países como os EUA e França enfrentam para levar um ensino decente às suas periferias: os conflitos identitários, as resistências (mal denominadas como fracasso escolar), a violência simbólica das instituições, os problemas metodológicos.

Embora não possamos ignorar que há boas discussões sobre a educação na mídia, é certo que seu desempenho como um espaço de debate ainda é precário. Além do fato de que muitas abordagens são contaminadas pela partidarização e por interesses comerciais, ainda há a infelicidade de que, na lógica de imprensa, o mau exemplo é mais noticiável.

Programas de entretenimento, como o de Jô Soares, completam o serviço: ridicularizam e acentuam os problemas do quadro, mas sem oferecer o bom serviço da informação; afinal ele, o Jô, propõe-se a fazer um trabalho parajornalístico.

Com isso, estes programas jogam no limbo, ou um pouco mais abaixo, toda a dedicação de professores, escolas, governos, e quem sabe até de algumas iniciativas que deveriam ser copiadas e reaplicadas em outros contextos.

Por produzirem estereótipos, não esclarecem o papel de cada um: profissionais de ensino, as instituições, e as esferas governamentais; não promovem as discussões sobre promissoras abordagens; não valorizam o que foi bem-sucedido.

O ensino é um compromisso da escola. Mas deve ser um compromisso da sociedade, incluída aí a mídia.

Um pouco mais de responsabilidade no trato com o tema valeria a pena.

Exibições: 46

Comentário de Theotonio de Paiva em 11 maio 2009 às 15:23
Meu caro,
Bola na caçapa! Análise irretocável.
Obviamente, há por trás desse tipo de iniciativa um sentido maior de desmoralização do ensino. A bem da verdade, somente de um determinado ensino. Justamente aquele que atende a grupos periféricos e setores de baixa renda que não conseguem, nem poderiam, pagar os custos elevados do aprendizado devotado às elites econômicas.
Como diria o velho Adorno, a burguesia sabe onde centrar fogo no seu projeto de poder. Há um domínio avassalador do perfil de ensino voltado aos jovens das classes médias e alta burguesia. No nosso caso, a questão se agrava com o "desfazimento" concreto do ensino público. Para concluir com o fecho de ouro, joga-se por terra qualquer iniciativa que se ilumine por um caminho diverso àquele orquestrado pelas forças dos grupos dominantes.
Abração, Theo

Comentar

Você precisa ser um membro de Portal Luis Nassif para adicionar comentários!

Entrar em Portal Luis Nassif

Publicidade

© 2020   Criado por Luis Nassif.   Ativado por

Badges  |  Relatar um incidente  |  Termos de serviço