Lucília Peres na Grande Companhia Dramática do Teatro da Exposição Nacional, empresa fundada por Artur Azevedo. Belém, Pará (1908).


Lucília Peres (1882 - 1962)

Por Cafu

Essa grande dama do teatro brasileiro nasceu em Lorena-SP, sendo seus pais o ator Gil Ribeiro e a atriz Olimpia Montani. Foi casada com o dramaturgo e teatrólogo Álvaro Peres.

Artur Azevedo escreveu para ela representar A Fonte Castalia e O Dote.

A Fonte Castalia é uma comédia desenvolvida de um quadro da sua revista Viagem ao Parnaso e estreou no Teatro Recreio a 7 de julho de 1904. No elenco constavam: Lucília Peres, Ferreira de Souza, Olimpio Nogueira, Alfredo Silva, João Barbosa, Delorme, Marzullo, Bragança, Helena Cavalier, Pepa Delgado.

De acordo com Lafayette Silva, em seu livro História do Teatro Brasileiro, a peça conta “a história de um rapaz, Gilberto, pretendente à mão de Laura, filha de um burguês que tinha preocupação de ser poeta e adorava os favoritos das musas. O pai da menina exige que o pedido de noivado lhe seja feito em verso. Condição sine qua non... Gilberto embaraça-se, desanima, mas Vênus providencialmente apresenta-se em seu auxílio e conduz o rapaz enamorado ao monte Parnaso, onde ele, sofregamente, bebe a água milagrosa da fonte Castalia e ganha o dom da poesia. Graças a isso, não só consegue Gilberto a mão de Laura, como transmite o dom da poesia ao sogro, para quem trouxe uma garrafa do precioso líquido.”

O Dote estreou em 2 de abril de 1907, também no Teatro Recreio. A idéia nasceu de uma crônica, Reflexões de um Marido, de Julia Lopes de Almeida, publicada em dezembro do ano anterior no O País.

Lucília Peres também foi a atriz principal da Companhia Dramática, fundada por Artur Azevedo, e que ocupou, em agosto de 1908, o Teatro João Caetano, no recinto da Exposição Nacional, na Praia Vermelha. A companhia estreou, em récita de gala, com a peça O Quebranto, comédia em três atos de Coelho Neto. O elenco era composto por alguns dos melhores nomes do drama e da comédia da época. Os atores: Ferreira de Souza, Alfredo Silva, Francisco Marzullo, Antônio Ramos, João de Deus, Cândido Nazareth e Tavares. As atrizes: Lucília Peres, Cinira Apolônio, Gabriela Montani, Luiza de Oliveira, Natalina Serra, Estefânia Louro e Julieta Pinto. O diretor, seu marido, Álvaro Peres.

Por três meses seguidos foram levados à cena, para os visitantes da Exposição, os seguintes originais brasileiros: O Quebranto, Coelho Neto; Sonata ao Luar, Goulart de Andrade; A Herança, Júlia Lopes de Almeida; As Doutoras, França Júnior; O Noviço, Martins Pena; Romançe de uma Moça Rica, Pinheiro Guimarães; O Defunto, Felinto de Almeida; Não Consultes Médico, Machado de Assis; Os Irmãos das Almas, Martins Pena; Vida e Morte, a última peça de Artur de Azevedo; Duelo no Leme, José Piza; O Dote, Artur de Azevedo; A Nuvem, Coelho Neto; Eterno Romance, lever de rideau, Agenor de Carvoliva; Carta Anônima, Figueiredo Coimbra; e Desencanto, Carmem Dolores.

Segundo Mario Nunes, “Algumas dessas peças foram levadas à cena mais de uma vez. O teatro era ocupado por outras companhias itinerantes, nele se realizavam concertos e conferências; a falta de continuidade dos espetáculos da companhia influía prejudicialmente na freqüência do público; e bem assim, as outras diversões no recinto da Exposição.
Artisticamente porém, o êxito foi satisfatório. Trabalhava ainda ali a companhia quando Artur faleceu; adotou ela então, como justa homenagem, o nome do ilustre homem de teatro, realizando, depois, espetáculos no Carlos Gomes, dissolvendo-se em seguida.”

Ao que tudo indica, o elenco tentou, por mais uns meses, resistir à dissolução da companhia. Saiu em turnê pelos estados do Norte e Nordeste e se apresentou em São Paulo, em março de 1909, conforme registro de O Estado, citado por Sábato Magali e Maria Thereza Vargas no livro Cem Anos de Teatro em São Paulo: “Apesar da crise por que está passando o teatro nacional, os artistas constituíram-se em empresa, de que todos são societários, e empreenderam a louvável tarefa de representar de preferência peças nacionais e uma ou outra estrangeira” (24/03/1909).

Em 1911, nasceu a Companhia Lucília Peres, que encenou várias peças no Teatro Apolo, levando a série, acrescida de outras, ao Teatro Carlos Gomes. Lucília foi, ainda, a primeira figura da temporada do Municipal de 1912 e da Companhia Cristiano de Souza, no São Pedro, quando saiu Maria Falcão. Trabalhou com Leopoldo Fróes no Pathé, e com Alexandre Azevedo no Trianon. Ao lado de Dias Braga teve grande destaque no Recreio. Com Leopoldo Froés chegou a fundar a Companhia Lucília Peres - Leopoldo Froés, criada em 1915 e desfeita em outubro de 1916.

Sua carreira prosseguiu por muito tempo pelos palcos brasileiros ao lado de colegas famosos e em companhias renomadas. Uma grande artista que merece o reconhecimento da posteridade, aplausos calorosos e justas homenagens.



Foto:
Levi, Clovis - História Visual - Teatro Brasileiro, um panorama do século XX. FUNARTE; Rio de Janeiro e Atração Produções Ilimitadas; São Paulo, 1997.

Nunes, Mario - 40 Anos de Teatro - 1º Volume . Departamento de Imprensa Nacional; Rio de Janeiro, 1956.

Silva, Lafayette - História do Teatro Brasileiro. Serviço Gráfico do Ministério da Educação e Saúde. Rio de Janeiro, 1938.

Exibições: 1834

Comentário de Helô em 20 agosto 2009 às 0:55
Cafu
Gostei do pedido de noivado feito em verso. Mas o nome do noivo era mesmo Gilberto? Não seria Gregório? :))))
Brincadeiras à parte, sabia que já havia passado pelo nome de Lucília Peres em algum post. Agora descobri ter sido nas minhas pesquisas para o post do centenário do teatro Municipal do Rio. Além de "O Quebranto", Lucília participou de "Bonança", peça também de Coelho Netto que fez parte do programa de inauguração do Teatro. O elenco do espetáculo contou ainda com Antonio Ramos, Nazaré, João de Deus, Luiza de Oliveira e Gabriela Montani.

No site "Teatros do Centro Histórico do Rio de Janeiro", quando é citado o Cine Pathé, há também uma referência a Lucília.
"Mudando-se para novo prédio, que ficava ao lado do edifício do Jornal do Brasil, ”possuía um pequeno palco para a realização de conferências” (M. Nunes, v.1. p. 76). E com a formação de uma pequena companhia teatral, organizada por Leopoldo Fróes, as instalações da casa sofreram modificações. “Foi ampliado, apropriado a representações teatrais e construídos camarins, que eram gaiolas de madeira, umas sobre as outras”. (21).
Foi somente na mudança para o prédio da Av. Central 151/153 que, por poucos meses, o Pathé apresentou espetáculos teatrais. A estréia em 12 de maio de 1915 foi com a peça “Mulheres nervosas”, de Blun e Touché, traduzida por Jaime Vitor. Elenco do espetáculo: Lucília Peres, Leopoldo Fróes, Tina Vale, Montani, Julia Vidal, Eduardo Leite, Comendador Matos, Átila Morais, Manoel Pinto e José Castro.
A peça apresentada em duas sessões, com a casa repleta, “fora montada com elegância e a representação tivera um cunho de alta distinção”.

Haha, fiquei curiosíssima pra saber mais sobre "mulheres nervosas".
Ao garimpo!
Beijos.
Comentário de Cafu em 20 agosto 2009 às 14:49

Apolo e as Musas no Parnaso, gravura de Raphael Morghen, 1784


Helô, Transmimento de pensassão: pensei igualzinho a você sobre a Laura e o Gregório, digo, Gilberto. O:)
Se a notícia se espalhar por aí, o que vai ter de neguinho querendo ir ao Parnaso buscar a água da fonte Castalia para transmitir o dom da poesia para sOGRO e sOGRA, nãovai ser brincadeira! Menos a Mari e o Pedro, Craro! Hahaha.
Essas "mulheres nervosas" são as bisavós do Almodóvar! Uma pista ótima pro seu garimpo. Talvez você tenha passado pela Lucília Peres na última viagem a São Paulo. Lá ela virou nome de rua, e quase ninguém sabe porque. Foi uma dificuldade encontrar informações sobre ela. E eu só tinha essa foto linda para começar a pesquisa. Confesso que coloquei o resumo do Fonte Castalia e a menção a O Dote para rechear a linquiça no vazio da desmemória. Mas aí, Melpômene, Tália e demais musas enviaram do Olimpo um parágrafo do livro Cem Anos de Teatro em São Paulo mencionando a proposta da Companhia Dramática de apresentar um repertório basicamente de autores brasileiros (isso sim é uma informação curta, mas relevante!),
bem como o volume primeiro do 40 anos de Teatro do Mario Nunes e eu pude descobrir que a Companhia Dramática Brasileira foi o "último esforço", o "último alento construtivo" desse "apaixonado visionário" chamado Artur Azevedo. Ele morreu três meses depois da estreia de O Quebranto. Nesse ínterim a companhia consegui apresentar todas peças acima mencionadas. Todas de autores brasileiros. Essa turma era fera!

Beijos olímpicos.
:)
Comentário de Helô em 20 agosto 2009 às 15:40
Cafu
Os dois curtindo o Festival de Música e nós duas falando deles. Pelo menos estamos falando bem, haha. E eu também pensei no Almodóvar quando vi aquele título!
Ontem, descobri que a Companhia Dramática passou por Juiz de Fora. Poxa, e eu nem fiquei sabendo :)) Tô com preguiça de digitar, então vou colar o que encontrei num trecho de artigo intitulado "Lembranças da Companhia Dramática Nacional", de Aldo Calvet. Depois, deixo uma foto mais recente da Lucília com Fróes (que não é o velho Leopoldo), em Petrópolis. Tirei daqui.
Beijos, "sogrinha" \o/ \o/


Comentário de Teatro de Revista em 20 agosto 2009 às 20:03
Cafu e Helô,
Uma curiosidade relacionada a Lucília Peres, que li na revista teatral eletrônica Antaprofana(http://www.antaprofana.com.br/home.asp), é que Fernanda Montenegro fez sua estréia atuando com ela. Sadi Cabral também, como muitos outros. É, portanto, uma atriz de trajetória longa que deve ter influenciado muita gente.
Helô, acho que o Fróes aí da foto é o Leopoldo, com quem Lucília formou uma companhia.
beijão
Henrique Marques Porto
Comentário de Laura Macedo em 20 agosto 2009 às 20:51
Cafu,
Você foi na mosca quando caracterizou Lucília Peres como uma das grandes damas do teatro brasileiro.
No "Dicionário do Teatro Brasileiro: Temas, Formas e Conceitos", a grande dama ou "dama-galã" era a denominação referente aos primeiros papéis femininos que, segundo sua pesquisa, ela exerceu inúmeras vezes na sua carreira.
Ainda segundo a fonte citada os atributos da dama-galã não eram simples: "deveriam revelar a mulher no seu esplendor, deveria ser bela, fascinante, culta, insinuante, dotada de forma física impecável e de educação esmerada; deveria ser capaz de intensa expressividade, para expor a violência da tragédia, as crises internas do drama, as sutilezas da alta comédia.
Tais atributos teriam uma localização etária bem definida - a dama-galã estaria entre os 25 e 35 anos".

No caso de Lucília Peres, Iracema de Alencar, Apolônia Pinto e Lucinda Simões o reinado extrapolou essa faixa etária.
Agora no nosso caso, quanto ao quesito faixa etária (eu, e vocês duas) , estamos a anos luz de sermos uma dama-galã :)))

Helô e Cafu, adorei a brincadeira. Há uma grande semelhança com o nosso caso, já que o pedido foi feito via carta. Caso papai exigisse que fosse em forma de poesia, aí é que Gregório "tava" feito mesmo, não precisaria nem ir ao monte Parnaso e muito menos beber da água milagrosa da tal fonte de Castelia. Hahahahahaha...
Beijos.
Comentário de Cafu em 20 agosto 2009 às 22:50
Laurinha,
Tá vendo como casar com artista tem suas vantagens! Dá pra levar o sogro no bico, com belas palavras. Carta, huuummmmm. Conta pra nós se ele se arriscou com algum picles, ou máximas e charges sobre sogro/sogra. Aposto que não!
Esse acerto na mosca foi puro sem querer, mas o seu comentário e a lembrança da definição do dicionário foi uma ótima sacada.

Henrique,
Eu também entendi como você, que a foto é de Leopoldo e Lucília.

Helô e Cia,
Estou intrigada com uma coisa. Esta foto é de 1908 e reproduzida de Épocas de Teatro no Grão Pará (ao que tudo indica deve ser um livro sobre o tema). Será que eles foram lá em 1908 e depois de novo em 1910? Lembram aquele trecho da Luiza Nazareth se referindo à Lucília Peres em post anterior? Ela disse na entrevista que a Companhia se chamava Artur Azevedo e prossegue “Eu, tinha quinze anos. Fizemos uma excursão passando por Recife, Maranhão e Pará, onde assisti a coisa mais linda da minha vida, coisa que nunca mais assistirei e acho que nem as minhas filhas assistirão. A companhia fez um grande sucesso e Dona Lucília foi coroada em cena pelas moças da alta sociedade de Belém. Essa coroa era de ouro. Derreteram cem libras para fazer essa coroa. A pessoa que fez, fez com orgulho. Uma beleza! Na hora da coroação vinha uma chuva de pétalas de rosa. Nesse dia foi representado Maria Antonieta. Dia 16 de julho de 1910. Então a Lucília com aquela camisola branca...Foi uma coisa linda! Maravilhosa. Eu até hoje digo Dona Lucília Peres porque , naquele tempo, a gente não dizia: -”Oh! Lucília!” Não! Era Dona Lucília. Essa companhia tinha artistas como Gabriela Montani, Eliza Campos, Estela Gerard, era uma companhia enorme. Eu tenho a fotografia.”

Beijos (eu continuo...:)
Comentário de Cafu em 20 agosto 2009 às 23:46
Foi desses 2 blogs mencionados por vocês que retirei a informação sobre a data de falecimento da Lucília. Não encontrei em outro lugar (por enquanto). Fiquei meia insegura de colocar a informação" foi para ela que o Artur escreveu O Dote e A Fonte Castalia". Ambos os blogs mencionam. O Lafayette Silva também (pg 225). Pero...aquele link com obras completas de Artur Azevedo que colocamos anteriormente, diz que O Dote foi dedicado à Júlia Lopes de Almeida. E aí como ficamos?
Ficamos com R. Magalhães Jr, biógrafo de Artur, que conta a história completa, no livro Artur Azevedo e sua Época. Resumindo, o Artur leu a crônica Reflexões de um Marido e achou que continha boas idéias para uma peça teatral."Amigo e admirador de Júlia Lopes de Almeida, incentivou-a em artigo, a que aproveitasse a idéia, escrevendo a comédia. É muito provável que nos corredores do Lírico e do São Pedro, ou de outro teatro qualquer, tenha conversado com a ilustre escritora, cujo marido, Filinto de Almeida, por vezes escrevia teatro e poderia colaborar com a esposa, como já o fizera, antes nesse domínio com Valentim Magalhães. Houve, porém desinteresse por parte da autora de Reflexões de um Marido.Que fizesse ele, Artur, a peça que ali julgava existir. Autorizado, lançou-se Artur ao trabalho. Criou personagens,arquitetou cenas, foi às conseqüências inevitáveis da crise esboçada na crônica e algum tempo depois surgia O Dote, por ele dedicada a Júlia Lopes de Almeida em retribuição ao seu gesto, cedendo-lhe a idéia que gerara a comédia."(pg 337)

Porém, "A primeira representação de O Dote se verificou a 8 de março de 1907, no Teatro Recreio, em benefício de Lucília Peres...Lucília, é claro, fazia a protagonista etc."
R. Magalhães Jr diz que Lafayette errou a data da crônica da Júlia, não em dezembro (temos que corrigir aí encima) mas em 18 de novembro de 1906.
Eu não estava entendendo bem o que o Lafayette queria dizer, na pg 71, que "Artur Azevedo escreveu para a festa de Lucília Peres".
Era para o "benefício", ou "festival" como a Briebinha chamava, que já sabemos ser uma apresentação em que toda a renda arrecadada com a venda dos ingressos vai para o artista ( ou companhia) para o qual ele é feito. Elementar, meu caro Watson! Mas falta as informações sobre A Fonte Castalia .
Beijos.

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