LUCÍLIA ROSA, aos 98 anos, ainda revolucionária ... terá sua biografia lançado este ano, é testemunha viva da Esquerda no Triângulo Mineiro

Amigos,

Diretamente de Uberaba,
"A Cidade das Sete Colinas".

Aos 98 anos,
ainda revolucionária,
a ex-militante Lucília Rosa,
residente em Uberaba, que
terá biografia lançada este
ano, é testemunha viva da
esquerda no Triângulo Mineiro.

Carlos Guimarães Coelho - Editor
Jornal Correio de Uberlândia

Ela é a evidência de que o ser humano é essencialmente político. Com 98 anos completos no início deste mês, Lucília Rosa traz no verbo o inconformismo que caracterizou o seu passado revolucionário. Frases como “a herança que vou deixar são minhas ideias, que ninguém rouba, ninguém toma, ninguém compra” enfatizam esse legado.
Amiga do lendário Luiz Carlos Prestes, a ela foi entregue a guarda da filha do líder comunista como proteção às repressões da época do regime militar. “Desde muito nova, fui sempre uma inimiga visceral das injustiças”, diz a mulher que teve uma vida expoente, sobretudo como uma das protagonistas da história da esquerda na região do Triângulo Mineiro.
Ela, que vive hoje no asilo Cantinho da Paz, em Uberaba, cidade onde nasceu e sediou a maior parte de suas lutas políticas, foi uma das poucas mulheres brasileiras a tornarem-se vereadoras em 1945. Com o codinome Lucrécia, ela elegeu-se pela cidade de Campo Florido, onde mantinha a militância pela causa da reforma agrária.
A confusão mental , natural da idade, faz Lucília viajar ao passado e se perder em lembranças. Mas rapidamente volta a si e mostra seu perfil de sempre: crítica e lúcida.
“Meus filhos são profissionais de mão cheia e até ajudam os pobres, mas não passam de pequenos burgueses”, dispara, aos falar sobre os filhos, os cirurgiões dentistas Moyzés Soares Rosa e Calisto Rosa Neto.
Como os olhos de qualquer idoso, os de Lucília trafegam entre a saudade e a decepção, as alegrias do passado e a consciência de estar perto do fim.
Entre as histórias relatadas, algumas de difícil reprodução por confusão de datas e personagens, a maioria se impõe como uma trama de cinema, protagonizada por uma mulher à frente de seu tempo, ousada e crédula no seu ideal. Histórias do âmbito político como a luta contra o Estado Novo e a defesa dos camponeses pela reforma agrária.
Revolucionária, Lucília Rosa brigou com o Estado, com os patrões e com uma série de convenções sociais tidas por ela como “burguesas”. Foi assim quando decidiu viver com um homem desquitado e quando resolveu fazer laqueadura para não ter mais filhos, ações incomuns para a época.
Muitas outras ousadias da primeira vereadora de Minas poderão ser conhecidas na biografia, no prelo, com previsão de lançamento para o fim do ano, escrita pelo jornalista Luiz Alberto Molinar e pela historiadora Luciana Maluf.
A prisão em Uberlândia
Paulo Augusto 1/4/2004

Olívia Calábria, um dos ícones do comunismo em Uberlândia
Entre as histórias de militância de Lucília Rosa, várias aconteceram em Uberlândia. Segundo ela, em Uberaba era o clero que mandava e, portanto, em muitos aspectos, na vizinha Uberlândia a luta comunista tinha elementos facilitadores. “Em Uberlândia, pelo que me lembro, parece que o movimento tinha mais consistência”, disse Lucília.
Por aqui, tornou-se muito amiga de Stela Saraiva e Roberto Margonari, dois famosos marxistas em meados do século passado.
Em uma de suas passagens por Uberlândia, Lucília Rosa afrontou-se com a polícia, o que era frequente em sua vida e lhe rendeu duas prisões, uma em Campo Florido por morder o braço de um delegado e esta última em Uberlândia. Na época, a central de detenções era em Uberaba. Para lá, ela foi transferida, ao lado de uma outra ilustre comunista uberlandense, Olívia Calábria. Ambas foram detidas em um encontro da União Feminina de Uberlândia, que participava de um movimento, em nível nacional, contra o envio de tropas brasileiras à Coreia.
Ela cuidou da filha de Prestes
Divulgação/Luiza Becker

O jornalista Luiz Alberto Molinar, a assessora da Câmara Municipal de Uberaba, Evacira Gonçalves, Lucília Rosa e a historiadora Luciana Maluf
Foi trabalhando como empregada doméstica em São Paulo, que a comunista Lucília Rosa (comunista é a alcunha da qual se orgulha) permaneceu durante 14 anos, a maioria em casas de políticos paulistas. Segundo ela, foi um período em que leu bastante e aprendeu muito sobre o comunismo no mundo. Também é dessa época a amizade fundada com a família Prestes, do líder Luis Carlos Prestes, do qual foi seguidora ferrenha e chama carinhosamente de “o velho”. Lucília viveu na casa de Prestes durante três meses, em 1962, onde ajudava a cuidar de seis dos sete filhos.
À Lucília foi delegada a responsabilidade de cuidar de Anita Leocádia, filha de Prestes com Olga Benário, a alemã assassinada em 1942 pelas forças nazistas no campo de concentração de Bernburg. Nos anos de 1970, Lucília viveu na clandestinidade em São Paulo e escondeu Anita, que era procurada pela polícia. À Anita, naquele tempo, foi dado o nome de "Alice Nascimento". Lucília se passava por tia de “Alice”.
As duas mantêm contato até hoje.
Vida de Lucília vai virar livro
A riqueza da vida de Lucília Rosa rendeu uma pesquisa do jornalista Luiz Alberto Molinar e da historiadora Luciana Maluf. A pesquisa será lançada no formato de livro ainda neste semestre. Segundo os historiadores, as histórias capturadas na pesquisa são tão ricas que eles acabaram por traçar uma breve retrospectiva da história da esquerda comunista na região do Triângulo Mineiro.
A vida de Lucília era algo do qual vocês já tinham conhecimento? Como surgiu a proposta essa pesquisa?
Conhecíamos Lucilia e sabíamos por alto de sua história. A proposta foi da Câmara Municipal de Uberaba. O presidente, Lourival dos Santos (PC do B), em visita a Lucilia - que ficara 25 dias em coma após cirurgia - a conheceu juntamente com suas inúmeras histórias. Indagada se ainda teria algum sonho, ela disse desejar que sua história fosse registrada. A publicação do livro foi incluída nas festividades comemorativas dos 170 anos do Legislativo.
Quando e de que forma começou a pesquisa? Foi o tempo previsto ou vocês precisaram dilatar o prazo?
Iniciamos em julho de 2007 com previsão de se publicar no final daquele ano. Seriam 100 páginas, que foram ampliadas a 150 devido à quantidade de informações e documentos guardados pelo pai de Lucilia e por ela, além de outros encontrados durante as pesquisas. Foram mais de 300 horas de entrevistas com Lucilia. O livro foi concluído com 400 páginas.
Vocês mencionaram que a obra passou a ser um espécie de história da esquerda comunista no Triângulo Mineiro. É isso mesmo?
A história dela se desenvolve paralela à da esquerda. Quando percebemos o livro havia se tornado uma fonte rica de informações sobre a esquerda em Uberaba e região.

Como se deu essa amplitude do objeto de pesquisa?
Há muita informação no livro sobre a história do movimento popular na região e também de seus protagonistas. Conseguimos muitos documentos nos arquivos públicos de Uberaba, Uberlândia, Belo Horizonte e de Brasília. Alguma coisa em arquivos de São Paulo e no Rio de Janeiro. Sempre informações produzidas pelas polícias políticas e de jornais.
Nesse novo parâmetro, Lucília permanece como uma das protagonistas?
Não em todos os fatos narrados. Mas se desenvolve juntamente. Ela conviveu com personalidades conhecidas em São Paulo, onde foi trabalhar como doméstica entre 1958 e 1972. Trabalhou como ajudante da família de Luiz Carlos Prestes, passou-se por tia de Anita, filha de Prestes com Olga Benário, no período mais sangrento da ditadura, de 1969 a 1972.
O que vocês destacariam na trajetória de Lucília como o fato mais inusitado e/ou pitoresco?
Uma mulher à frente de seu tempo em todos os aspectos. Consciente politicamente, sem o perfil frágil e maternal quase unânime das mulheres da década de 30 e 40 do século 20.

Uma frase que resuma o que Lucília, a partir da pesquisa, passou a representar pra vocês.
Uma memória invejável capaz de fornecer detalhes de fatos e de pessoas. Ao dizer que desejava ter sua história registrada ela não o fez com a intenção de algo pessoal, de vaidade, sentimento do qual é desprovida. Era intuição pura. A mesma de seu pai ao guardar importantes anotações em cadernetas, cartas e recortes de jornais. Era de preservar nomes e acontecimentos do movimento popular.
Frases de Lucília
“Sempre lutei contra a censura interna e acho que esse é um problema que ainda atinge a maioria das mulheres. Muitas coisas que aconteceram com as mulheres até hoje eu já havia discutido com meu pai, na década de 30”
“Vou [morrer] de alma lavada. Estou feliz! “
“Lutei muito, sempre fazendo uma política sadia, séria, mas os grandes não respeitaram os comunistas. Apanhei e apanhei na cadeia com pontapés de coronéis e latifundiários”
“Filiei ao PC no fim da ditadura Vargas, uma hora na legalidade outra na clandestinidade, mas fui sempre comunista”
“O MST é o movimento da minha paixão. Eu sempre adorei o mato”
“Tive dois filhos, depois liguei as trompas com Dr. Shimidt e sempre cantei de galo na minha casa”
“Nunca tive medo, não. Se o marido falava e ameaçava de ir embora, eu respondia que podia ir, não vou morrer de fome, não, por falta de homem”
“Apanhei muito de um delegado de Uberlândia. Ele queria que eu chorasse. Eu pensava: quero mostrar a esse canalha que mulher comunista é assim”
“O Velho (referência carinhosa com que trata Luiz Carlos Prestes) é outra paixão da minha vida. Foi um inigualável. Só daqui a mil anos para aparecer outro”
“Minha cultura comunista não me dá o direito de explorar o mínimo que seja do direito do outro”
“Política é a arte do possível, de modificar a sociedade para melhor”
“Minha vida de empregada doméstica foi o melhor momento da minha vida, porque aprendi muito, lia todos os dias o Estadão. Lia, lia, lia...”
“Ser comunista é sofrer o cárcere e sair de lá sem ódio e sem rancores”
“Gente, eu era custosa mesmo... Eu era! E o mulherio aprendeu muito comigo... Eu ajudei muita mulher a abrir a cabeça. Aqueles maridos de lá [Campo Florido], não me olhavam com bons olhos, não”
“Eu me sinto bem por um lado, mas infeliz pelas contradições. A vida é uma contradição diária”
“É d-o-n-a L-u-c-i-l-i-a! Não é qualquer Lucilia”
“O tempo não repousa... O tempo não retorna...”
“Ensinei meus filhos a serem independentes: costuram, passam, cozinham...”
“Tenho aversão à crueldade”
“Não sei se é espírito ou o cérebro: estou caçando um jeito de descobrir o que é que me governa”
“A gente chega à velhice com certa alegria”
“O dinheiro seduz as pessoas...”
“Esse tal de ‘pepsi” não vai a lugar algum” (referência ao PPS, após o fim do PCB)

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Conheça a irreverente e revolucionária Lucilia Rosa
http://www.luciliarosavermelha.blogspot.com/

Participe da comunidade de Lucilia Rosa no Orkut
http://www.orkut.com.br/Main#Community?cmm=83748305

Exibições: 154

Comentário de luzete em 31 agosto 2010 às 23:33
quantas histórias temos ainda prá contar, não?
quantas mulheres à frente do seu tempo e, ainda hoje, traduzem idéias revolucionárias e uma filosofia de vida que amedronta a muitos.

certa vez, numa viagem nas alagoas, fomos almoçar num lugar chamado nísia floresta... conversa vai, conversa vem, e descobri o perfil de uma mulher linda que retrata histórias da mulher de um Brasil escondido.
Comentário de luzete em 31 agosto 2010 às 23:33
você viu? vim visitar você aqui!
Comentário de Marco Antônio Nogueira em 1 setembro 2010 às 0:09
LUZETE,

O livro que fala de Dª LUCÍLIA ROSA,
ainda a ser lançado, traz uma crônica
minha contando de um incidente entre
ela e o padre que celebrava meu
casamento. Acesse o "site" que
você verá.

Abraço,

Marco Nogueira

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