Portal Luis Nassif

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o termo "cinema extremo" serve ... para designar os filmes que de alguma forma rompem convenções, levam suas idéias e propostas de forma e/ou conteúdo anticonvencionais às últimas conseqüências ou subvertem deliberadamente os conceitos acadêmicos da gramática cinematográficas. Não serão considerados relevantes ... os filmes que, de alguma forma, procurem estimular a intolerância e o preconceito; muito menos aqueles que visam exclusivamente o lucro fácil ou a exploração mercenária da ignorância alheia.

carlos reichenbach

(...)


o crucifixo
– Ele fez a promessa de não tirar do pescoço
aquele crucifixo na correntinha de ouro.
– ...
– E, quando a gente transa, a cruz fica batendo
sem parar no meu rosto.
– ...
– Me deixa com tanta raiva de Jesus.


dalton Trevisan
duzentos Ladrões

(...)

um parêntesis: pelo que se pode ver no cinema japonês dos anos 1960, não era qualquer um que conseguia filmar uma mulher livre dentro das grandes produtoras. Este, aliás, é Shohei Imamura. Há uma cena em Desejo Profano (1964), entre as mais impactantes que já vi, que simboliza bem a ruptura em relação à personagem feminina que Imamura propunha naqueles anos. A cena: enquanto é estuprada, a protagonista é ameaçada com um ferro quente. Na superfície espelhada do ferro, vê a imagem disforme de seu rosto – como se ali se visse pela primeira vez e justamente por isso, não conseguisse realmente se ver. Talvez seja a cena que rompa, de vez, com a imagem clássica da mulher japonesa no cinema – extremamente submissa e condescendente com sua própria tragédia. Não é qualquer cineasta que filma a libertação da mulher através de um estupro. A delicadeza contundente de Imamura impressiona.

leonardo Bomfim
freakium&meio

(...)


Portanto, vamo lá, minha gente, embutidos de frango. Yes. Tá tudo aqui no catálogo da Itaquerambu. Ó só o salsichão de frango que beleza. Com ou sem alho. Tremendo pirocão, curtido no rabo da diretora de relações institucionais.
Ou no do diretor de marketing exógeno.

"Uma festa para o paladar, um refresco para as coronárias", diz outro slogan da campanha.

Caraca, não foi pra isso que eu li Rimbaud. J'ai horreur de tous les métiers.

Aquela última reunião na Itaquerambu lá na Vila Olímpia foi o suprasumo da sacalidade corporativa. Fiquei filando a diretora de relações institucionais, tipinha magrela, 38, 40 anos, loira tingida, cabelo espantado a gel, alta, cara comprida atrás dos óculos estreitos a lhe afiar a navalha das retinas. Toda pose, a fulana, tailleur moderno, cor de aurora boreal em Júpiter. A saia do tailleur, curta, exibia razoável centimetragem de suas pernas granfinórias embaladas em meias pretas de náilon, pés magros enfiados em sapatos de bico fino e salto agulha. A mulher fazia dobradinha inquisitorial com o babaca do marketing endógeno, um pelintra pós-pósyuppie com um iPhone na mesa à sua frente. Os dois, atuando em dupla de vôlei de praia, se compraziam em rebater cada idéia que eu e o Zuba, os caras da "criação", sacávamos na mesa. O atendimento da agência de publicidade, um gordinho de camisa roxa e uma inacreditável gravata amarela, que tinha chamado o Zuba pro job, olhava da dupla de clientes pra nós, e de nós pra dupla de clientes, com aquela cara de coala sorridente dele, como quem assiste a uma partida de tênis. Pelo menos não metia o bedelho nas discussões. Ele não podia discordar dos caras da Itaquerambu, fonte da nossa grana, nem do Zuba, escolha dele para o job, nem de mim, escolha do Zuba.

O papo ali era foco no cliente, agregar valor, sinergia, comunicação integrada, trade marketing, upscaling, benchmarking, opportunity scanning e o caralhaquatring. Levemente cheirado e fumado - sempre dou uns pegas e uns tirinhos no carro antes das reuniões -, eu boiava naquele patuá barbárico. Fico dois, três meses sem pegar um job, e quando volto à ativa já não entendo metade do que esses caras falam, tão rápido se renova a porra do marquetês. Uma hora lá, pra marcar presença, sugeri um slogan que tinha acabado de me vir à testa: "Porco só dá chabu. Peça Itaquerambu - o embutido do frango bidu."

Ninguém deu mostras de apreciar a excepcional sonoridade do meu mote, tão superior ao pífio "Itaquerambu, os embutidos do século 21", que nem rimar rima. O marqueteiro endógeno lembrou que eles também produzem e comercializam os tradicionais embutidos de porco, campeoníssimos no mercado.
Ou seja, porco também é bidu, na visão deles.

"Não podemos estigmatizar o porco", reforçou a diretora anoréxica, sem esconder seu extremo enfado por ter que me explicar uma obviedade dessas. Retruquei no tom mais simpático que pude arrancar dos confins das minhas tripas:

"Longe de mim estigmatizar o porco, gente. Tô ligado que o porco é o melhor amigo do homem, muito mais que o cachorro. E que o frango também, se for ver, né? Quer dizer, numas. Quer dizer..."

Vi que o Zuba tinha se posto um tanto pálido de repente. Os demais se remexeram em seus assentos, como se acometidos por uma crise conjunta de hemorróidas. Arrematei:

"Eu, por exemplo, adoro uma lingüicinha torrada. Pernil, então, nem se fala. Cuma breja bem gelada, sai de baixo!"

A diretora tentou me fatiar com seu olhar horizontal. O Zuba com toda certeza pensou em furar minha jugular com a Mont Blanc que fazia girar entre os dedos feito uma ginasta olímpica. Limitou-se, contudo, a comentar que eu não precisava me preocupar com slogans nem conceitos, que isso era com a publicidade, com o marketing, com os diretores da Itaquerambu ali presentes, e que, quanto à rima, ninguém estava tentando fazer poesia nem mesmo publicidade.
A diretora, com sua voz de franga desossada, acrescentou que, de mim, eles só queriam o vídeo, "mais nada". O Zuba se apressou em explicar que eu às vezes exagerava um pouco na criatividade, mas que ninguém ali se preocupasse, "o Zeca é o mó craque, tudo vai dar certo, de modo que vamo em frente, né?"

O Zuba estava certo. Tendo mesmo ao overacting nas reuniões com os clientes, falo dez vezes mais do que ouço, solto piadelhas infames e mudo de assunto com facilidade espantosa. "Só fala, esse menino. Fazer que é bom, não faz nada." Esse era um dos bordões prediletos do velho a meu respeito.
Com meu irmão era o contrário: "Não abre mais a boca, o Rubens? Quê que tá acontecendo? Teve derrame, desaprendeu a falar?" O véio também estava certo.
Tava tudo errado ali. Acho que estava. Sei lá, certo ou errado, ele já morreu.
Meu irmão também, levando com ele as palavras que nunca falou.

Lá na reunião, consegui pelo menos manter restrito ao meu gabinete craniano outro slogan genial que me ocorreu: "Embutidos Itaquerambu - um refresco para o seu cu." Achei tão bom que me pus a rir sozinho, o que não deve ter ajudado muito a melhorar minha imagem no pedaço.

Quando a reunião acabou, o Zuba me olhava torto, o diretor de marketing endógeno da Itaquerambu olhava mais torto ainda pro Zuba, a diretora de relações institucionais olhava de esguelha pro diretor de marketing endógeno e pro atendimento da agência, que, por sua vez, olhava fixo pra sua Mont Blanc - só dá Mont Blanc nessas reuniões - que ele amaciava nos dedos como se fosse um charuto.

Job é foda, cara. Meu reino por um b******.

Nas despedidas, lembrei de dizer que, segundo o meu dicionário tupi-guarani, do Padre A. Lemos Barbosa, Itaquerambu queria dizer "pedra que ronca dormindo". Não sei se a turma deu muito crédito a essa informação, verdadeira, aliás.


reinaldo Morais
pornopopéia

(...)

é marcante a cena em que ela resolve transar com o chantagista, na beira da praia, nas sombras seguras de um barco abandonado. Há uma força tremenda porque antes de tudo é uma cena de sexo mesmo: seca, direta, sem floreios. Difícil encontrar algum valor metafísico. E quando a mulher abre os olhos e encara a câmera, ela parece pedir silenciosamente, pro filme e pro espectador, uma paciência, um olhar menos inquisidor. Pois ali ela é apenas uma mulher que descansa depois de transar. É uma cena claramente oposta ao estupro de Imamura. Dificilmente tiramos uma lição a respeito daquela mulher – muito menos a respeito da figura da mulher. Talvez a única premissa que podemos pensar a respeito de A Mulher do Lago, é que para Yoshida o drama da mulher não precisa estar relacionado ao homem.

leonardo Bomfim
freakium&meio

(...)


o cafajestismo nem sempre se traduz em agressão física, mas implica, sim, o desejo perverso de subjugar a amante. É uma espécie de versão plebéia do sadismo. O cafajeste, como o sádico, despoja o sexo de qualquer idealismo ou transcendência, e só o que resta é a carne, pulsante e dolorida. Com sua lógica de dominação e humilhação, o cafajestismo se encaixa bem na obra dos dois autores mais violentos do Brasil. No subúrbio curitibano de Trevisan e no morro carioca de Fonseca, a luta de classes explode junto com a guerra dos sexos. Quando todas as relações sociais são movidas pela violência, o cafajestismo desponta como a afrontosa estratégia do homem feio e pobre para seduzir a mulher bonita e rica (alguns níveis abaixo na escala literária, Chorão, vocalista da banda Charlie Brown Jr., já expressou a mesma idéia em algumas letras). Fonseca ainda guarda uma certa ingenuidade erótica – em contos simpáticos (mas anódinos) como Selma – e até ensaia redimir os bandidos brutais que sempre infestaram sua obra – no conto Teresa, por exemplo, um assassino profissional ajuda uma velhinha em apuros. Trevisan revela-se mais radical. Em Macho Não Ganha Flor, a violência social é um abismo sem fundo. Os criminosos às vezes armam a pose de vítima da pobreza – mas suas próprias vítimas muitas vezes também são pobres.


jerônimo Teixeira
dalton Trevisan e Rubem Fonseca > Dois velhos safados

(...)


Teve uma época que ele marcava os apontos em botecos do centrão, sempre por volta de nove da noite. Tinha dado alguma treta na Pompéia e ele precisou se mandar de lá. A transação agora rolava pela Rego Freitas, Amaral 30 Gurgel, Cesário Motta, Marquês de Itu, Major Sertório. A gente ficava tomando cerveja até o Miro dar as caras, durante meia hora, uma hora, até duas horas já esperei o Miro, frigindo na fissura, com a boca do lixo em volta fervendo de putaria, polícia e crime.

O Miro já nasceu traficante. Posso ver o Mirinho baby passando as primeiras petequinhas pros colegas de berçário, sob a vista complacente de uma enfermeira subornada ou seduzida por ele. Como todo traficante, o Miro se aproveita até o último fiapo do poder que exerce sobre a clientela fissurada. Ele adora seu papel de ansiado das gentes, trazendo mais uma vez a peteca divina, a salvação em pó, o acesso rápido aos portais do nirvana dopamínico em troca de grana viva e, não raro, algum afago sexual da parte de algumas consumidoras mais cheias de gratidão e amor pra dar. Só eu conheço umas duas.

Uma vez, emprestei pra ele o vídeo do Holisticofrenia, movido pela estúpida generosidade cocaínica. Dias depois encontro o mala no B****:

"E aí, Mirão? Viu?"

"Viu o quê?", retrucou, invocado, como se eu me referisse a uma treta qualquer que não era pra eu saber que ele tinha visto.

"O filme."

"Que filme?"

"O meu filme."

"Seu filme?"

"Meu filme."

"Cê fez um filme, maluco?"

"Fiz."

"Já estreou?"

"Já."

"Quando? Nem me convidou."

"Faz uma cara que estreou, Mirão. Te emprestei o vídeo outro dia."

"Ah, é?"

"É. Viu?"

"Não."

"Tudo bem, quando der cê vê. E me devolve."

"O quê?"

"O vídeo."

E ficou por isso mesmo.


reinaldo Morais
pornopopéia

(...)

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