“Mabruk!”, um diálogo através da dança*

Por Márcia Dib para o Icarabe


Uma viagem a passeio ou estudos para a Síria nos mostra a riqueza de sua história e a diversidade de lugares, costumes, manifestações sociais e culturais. Conforme relatado em artigo anterior – “A massificação cultural ameaça também a Síria” – é preocupante que estas expressões estejam se diluindo no caldeirão da “globalização”, transformando toda manifestação cultural em cópias mal-feitas da ocidental ou, mais especificamente, da americana. Não se costuma dar a devida atenção à dominação cultural, tudo é visto como natural: “todos fazem assim”. Uma pena...

É importante que exista o diálogo entre as culturas e, como se sabe, os diálogos mais saudáveis e frutíferos são aqueles em que as partes envolvidas têm seus próprios argumentos, igualmente válidos e respeitados como tal. Só assim é possível haver troca. De outra forma, se uma das partes envolvidas entra no diálogo como dona da verdade, se cria uma atmosfera de dominação e submissão. Essa atmosfera é comum entre países colonizadores e colonizados, e estes últimos geralmente abrem mão dos próprios valores, passando o diálogo a ser, ao invés de troca, de substituição ou eliminação de idéias.
Em função dessa ameaça, viu-se a necessidade de pesquisar e divulgar as manifestações artísticas da Síria e, posteriormente, de outros países de cultura árabe. Pois essa massificação cultural atinge vários lugares do mundo, e não apenas a Síria.

Foi escolhida a dança como veículo de expressão cultural. Sabe-se que a dança vai muito além dos passos em si: ela diz muito sobre a cultura, os costumes, os movimentos escolhidos para cada situação, a postura adotada em cada região, as músicas utilizadas, os modelos das roupas, as cores. A dança folclórica é uma expressão do modo de vida de uma comunidade; é mais uma consequência do que uma causa. Pela dança, podemos aprender muito sobre um agrupamento sócio-cultural.

O grupo “Mabruk! Companhia de danças folclóricas árabes” – foi então criado a partir dessa necessidade, com o objetivo de estudar a dança nesse contexto mais amplo, trabalhando no sentido do resgate e da divulgação dessa rica cultura. A intenção é ser uma ponte, uma via de comunicação e troca com as terras ditas árabes.

O grupo, ainda jovem, tem tido excelente aceitação do público em geral e a análise desta aceitação nos leva para outra necessidade: a do público, de entender melhor essa cultura, tão deformada pela mídia. Esse público recebe a dança e, junto com ela, a mensagem de que os árabes não são aqueles “bárbaros, rudes e ignorantes, que trancafiam e mutilam mulheres”. A dança pode levar ao público a mensagem de riqueza cultural; dos gestos ora delicados, ora firmes; de sutileza musical; de capricho nas formas e cores das roupas.

Essa mensagem não-verbal pode atingir ainda mais as pessoas, exatamente por não passar apenas pela razão. O grupo apresenta em movimentos e música o que as palavras nem sempre conseguem expressar. Os vários sentidos estimulados propiciam uma experiência rica, uma percepção diferenciada e, com isso, consegue-se comunicar uma cultura muito mais elaborada e cheia de nuances do que se costuma divulgar como árabe.

Todas estas ocasiões servem para reafirmar os objetivos do “Mabruk!”, que são pesquisar, discutir e divulgar, “engrossar o caldo” do conhecimento em relação a essa cultura, para que os diálogos deixem de ser unilaterais, para que as pessoas tenham mais formação e informação a respeito dos árabes em geral e para que possam existir trocas verdadeiras a esse respeito.

Mabruk (lê-se mabrúc) é uma expressão em árabe que significa um tipo de “Parabéns”, porém embebido em bênçãos. É usada quando algo novo se inicia – um casamento, um comércio, uma casa, um empreendimento. Então, deixa-se aqui um “Mabruk!” para todas as iniciativas no sentido de dissipar o véu do preconceito e ignorância em relação à cultura árabe.

Márcia Dib, pesquisadora e professora de dança

* texto publicado no blog Cultura Árabe de Márcia Dib.
Clique aqui e conheça.

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