Caros,
Aos apreciadores do criador da literaura brasileira, a genialidade do retratista do Segundo Reinado, mestre da mimesis (verdade na história e na arte), a altura de Luis de Camões, de William Shakespeare ("o homem que inventou o ser humano que somos" - Harold Bloom), ao mais lustre morador do Cosme Velho, uma análise do segundo morador mais ilustro do Cosme Velho, Raymundo Faoro:
Machado de Assis: A Pirâmide e o Trapézio, Raymundo Faoro, 1975 (página solta inicial, após o Sumário):
“Não me ocorre nada que seja assaz fixo nesse mundo: talvez a lua, talvez as pirâmides do Egito, talvez a finada dieta germânica.” (Memórias póstumas de Brás Cubas, cap. IV).
“Com efeito um dia de manhã, estando a passear na chácara, pendurou-me uma idéia no trapézio que eu tinha no cérebro. Uma vez pendurada, entrou a bracejar, a pernear, a fazer as mais arrojadas cabriolas de volatim, que é possível quer. Eu deixei-me estar a contemplá-la. Súbito, deu um grande salto, estendeu os braços e as pernas, até tomar a forma de um X: decifra-me ou devoro-te.”(Memórias póstumas de Brás Cuba, cap. II).
“Na sociedade, como a criaram, as peças têm de ficar onde estão, bispo é bispo, cavalo é cavalo.”(Balas de estalo, 30 de novembro de 1885).
“O fato é que aos quatorze anos Capitu não acha mais graça pular de corda, já começou a ensaiar o grande salto social, brinquedo muito sério. Pádua é visinho de D. Glória. Mas entre uma casa e outra, medeia uma distância enorme, e o pulo de Capitu exige um treino rigoroso. [...] Respeitadas as proporções, Capitu também empreendeu a conquista das Gálias com as armas femininas de que dispõe nessa luta surda entre a ambição e os preconceitos sociais.” (Augusto Meyer – Machado de Assis. Rio de Janeiro, Livraria São José, 1958, pág. 145).
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Capítulo Final: O Espelho e a Lâmpada
Um pobre homem do século XIX, emparedado nos preconceitos e nas perspectivas do seu tempo, desvenda o quadro social e seu Segundo Reinado, com luz feita de aproximações, tímida e sombreada. Ele caminha tateando o terreno, passo a passo, avançando e recuando, enganando os contemporâneos, testemunhas de igual momento. Houve quem vivendo na mesma hora com a gente invocada no papel impresso, lhe negou a autenticidade do retratista. (Sylvio Romero, Machado de Assis, Rio de Janeiro, José Olympio Editora, 1936, 2. Ed., págs. 55 e 81). Ao lado do critico embaido, um escritor, mais próximo da realidade, reconheceu o genuíno homem de seu meio, lutando, pensando e escrevendo como homem do seu tempo. (Labieno, Vindiciae, Rio de Janeiro, Jacinto Ribeiro dos Santos, 1899, pág. 12). Dois juízos, o áspero e o benévolo, mordidos de equívocos semelhantes, preocupados de reduzir o escritor ao homem, e o homem a época, à concreta situação social e histórica, e daí armar o critério de validade poética e literária da obra.
A distância da sociedade significa, como primeira abordagem crítica, a ausência de autenticidade. Ao contrário, e a obra poética só teria validade estética na medida em que expressa-se a verdade social, esta talvez mais hipotética que a outra, a verdade literária, reduzindo-o aos fatores sociais, transpostos estes para uma moldura preexistente.
Em reação ao congelamento exteriorizador, à desumanização da atividade criadora, outro esquema, não menos linear que o primeiro, volatilizou a obra no mistério, no milagre inexplicável, em grau máximo vinculado aos conceitos puros, platonizantes.
À força de conceitos e de elaborações mentais, separou-se a obra literária do mundo social, interpondo, entre as duas categorias o vácuo. Para vencer a perplexidade, recorreu-se, num retorno de vinte séculos, ao livro X de A república, valorizando o texto platônico com nova interpretação. A ponte estaria na mimesis, cujo cimento restauraria as relações entre a realidade e a criação poética. À margem do plano intencional das palavras, esquecido o fantasma da imitação, conceito ambíguo que mais lança dúvidas do que certezas, haveria a interdependência dialética, por via da qual o homem encarnado no autor cria a mensagem e dela, em revide, recebe o impacto de significações, num complexo cultural total. O vínculo entre a obra e a realidade exterior perde, desta sorte, a autonomia, a qualidade de território independente, para mergulhar, fundindo os dois pólos, no fato da criação. “A genealogia da criação é a genealogia da vida social, e a vida social encontra, na especulação individual, o princípio e o motor da transformação.” (Jean Davignaud, Sociologia da arte, Rio de Janeiro, Forense, s.d. pág. 34, ver para exame do texto: Erich Querbach, Mimesis, Bern München, Franck Verlag, 1967, pág. 515; René Wellek e Austin Warre, Teoria literária, Madrid, Editorial Gredos, 1966, pág. 88).
A corte imaginária das personagens não se compõe de outro tecido, apesar de expressas no papel, que os da legião dos homens que freqüentam as ruas. Todos são filhos de igual teatro, comprometidos na mesma existência, quer a suscitada pelo historiador, que a evocada pelo romancista. Quem os veste, arrancando-os do anonimato e do caos, será o olho organizador, classificador, o olho do biógrafo ou ficcionista. No fundo, a situação histórica e social lhes dá a densidade, retratando as idiossincrasias de grupo: o homem que vê não está isolado, mas imerso no grupo, pré-formado pela conduta e pelo pensamento dos outros. O boneco de tinta cumpre um papel social como boneco de carne e sangue, representando ambos suas frustrações, na fantasmagoria de um mundo criado coletivamente.
Mas a raiz comum do pensamento não confunde o fato social com o fato artístico. O historiador e o romancista, perdidos no território de suas perspectivas e perplexidade, armam-se do espelho, para captar e refletir a realidade, enquanto a lâmpada, que a projeta, brilha com outra intensidade. Para a investigação histórica e sociológica, a obra de arte seria apenas uma fonte de estudo, entre outras. Só ela, com seus pesos e medidas, desprezando a especificidade estética, diria o que há de verdade e de mentira no poema e no romance. A deformação, visível na imagem refletida pelo espelho, traduziria uma carga subjetiva, composta de arbítrio e de infiel tradução da realidade. Para a compreensão, por meio e além da representação literária, haveria a necessidade de destorcer as linhas e filtrar as sombras, seja por critérios racionalistas, com a disciplina dos fatos a padrões esquemáticos, seja por via da apreensão intuitiva, mística, de transposição depurada da concepção do mundo ao plano dos acontecimentos dito reais.
O romance, o teatro, o poema, nas distorções da criação, indefinível e misteriosa, careceriam de objetividade, reino só acessível ao cientista social. A imagem do mundo, natureza e sociedade, seria subjetiva, o que significaria, além da sua inconversibilidade exterior, a sujeição ao arbítrio individual. A caracterização do fato social, caprichoso e ondulante na pena do ficcionista, só adquiriria conteúdo certo nas mãos do sociólogo ou do historiador, depois de sistematizada e depurada da mácula subjetiva. O dado literário, na ordenação da sociedade, deveria ser corrigido e ajustado, confrontando-se a outras fontes, para constituir a prova da verdade. Pressupõe essa orientação, confessada ou inconfessadamente, a existência de leis, de constantes inacessíveis à deformações pessoais, capazes de informar uma realidade dita científica. Científica com referência a um tipo particular de ciência, tendendo ao comando absoluto, segundo ao modelo da ciência natural. O positivismo, supostamente inviolável à fantasia, estaria na raiz do espectro das medidas universais.
O objetivismo, de base científica, esquece o elemento mais característico da apreenção da realidade social: a relevância cultural do dado. A significação do fenômeno social e histórico não se deriva de leis, nem sequer dos fatos neutralizados pela medida, senão que se abre à compreensão por meio de valores. A lei mera hipótese, tem valor como hipótese e não como critério universal de articulação do mundo exterior. O objeto que se apresenta ao espectador está predeterminado pela significação que o valor lhe infunde, transformando-o em objeto cultural. No lugar das leis, rígidas e fixas, se condensam padrões de outra índole, de conteúdo diverso, os tipos idéias. A conexão entre a realidade e o valor configura o sentido da realidade, gerando o ponto de vista que a torna perceptível, relevante (Max Weber, Methodologische Schriften, Frankfurt am Main, Fischer Verlog, 1968, pág. 30 e segs.). Não se confunda está operação de conhecimento, a conexão de valores, com o julgamento de valor, que afirma se uma coisa ou ato são bons ou maus. Só com tal limitação e dentro dessa categoria há a objetividade, reduzida à visão da realidade por meio de valor, purificada do julgamento, este forçosamente subjetivo, traduzindo impressões, gostos e disposições individuais.
A escolha, a seleção de um fato entre fatos sem número depende da conexão do valor, da única objetividade possível no mundo histórico e social. A cultura está submersa na congérie infinita de acontecimentos e impressões – num dia ocorrem mil coisas, desde o afogamento de um marinheiro até o assassinato de César. O que fica na percepção do historiador e o que feriu a sensibilidade dos contemporâneos foi o gesto de Brutus. Na seleção, que deixou uma personagem no anonimato e deixou outra, intervém o valor, que moldou o conhecimento. Criminoso o ato ou patriótico? – a indagação, entregue ao julgamento de valor, indica outro movimento interior, este mais particularizado, composto de paixões partidárias ou de preferências individuais. O valor cultural relevante está presente na configuração seletiva do historiador como obra literária. No mundo real e no mundo imaginário, o mundo supostamente real do historiador e do espectador, há estruturas homólogas (Lucien Goldmann, A criação cultural na sociedade moderna, Lisboa, Editora Presença, 1972, pág. 101) capaz a esfera ideal de projetar, pela sua coerência e unidade, maior claridade da consciência coletiva. Coerência e unidade que se vinculam à realidade por dos tipos idéias, que simplificam, hipertrofiam e deformam os dados empíricos. A verdade de um e a verdade de outro, o campo do imaginário e do real, encontram-se na verdade total, que indica missões aos homens – personagens de papel ou personagens vivas – na busca da plenitude cultural. Desta sorte, realizam-se no campo poético, com mais densidade, funções sociais, que, com acento criador, são as mesmas do mundo real. A visão de um momento cultural, derivada da apreciação de valores, é sempre objetiva, mas não do objetivismo válido para todos, cientificamente demonstrável por meio de lei. O renascimento, para um historiador, que o desvenda com o subsídio da literatura e das artes, se forma de muitos caminhos e direções, que, percorrido por outro, dariam lugar a painel diverso, de diferente conteúdo (Jacobkhardt, Burc, Die Kultur der Renaissence in Italien, Berlin, Th. Knaur Nachf., 1928, pág. 1). Risco inerente às objetividades possíveis e várias, o das visões múltiplas, que assume quem, historiador ou romancista, se liberta das convenções artificiais. A lâmpada que deforma a imagem no espelho, arde em todos os altares. Negá-la seria esconder os pressupostos das ciências sociais. Esforço inútil e estéril de escamoteamento, falsa arte que esfalfou os positivistas e naturalistas, nem só de século passado, senão os de agora, montados em outros dogmatismos.
O abandono da fórmula que reduz a criação artística ao influxo da realidade exterior, fórmula revitalizada com pontos de referência e imputação da segunda sobre a primeira, não leva à identificação pura e simples de uma à outra. O mundo cultural se articula numa ordenação valorativa, na arte e na realidade, mas com intensidade diferente. A arte deforma a realidade, na mimesis dialética, não raro intencionalmente, por obra de sua estrutura específica. Na criação artística configura-se uma categoria própria da história, recolhida da imagem quebrada e reconstruída, mediante simetrias e desenho próprios. O processo deformativo – na realidade, processo de transmutação - , superando as velhas distinções entre forma e conteúdo, abrange o estilo e a própria realidade social.
O estilo (Erich Auerbach, op. cit. págs. 34 e segs.; Roland Barthes, Le degré zero de l’écriture, Paris, Seuil, 1953, págs. 24 e 25, sugere o termo écriture por considerar o estilo particular ao indivíduo.) seleciona, por força do ponto de vista da obra, os valores, o ethos que as personagens expressam na realidade. Para os grandes senhores, os grupos dominantes, reserva-se o tom sério, dramático ou trágico, sublime e grave. Só os realistas do século XIX – Stendhal, Balzac, Flaubert e Tolstoí – reabilitaram os homens comuns, o povo e sua vida, devolvendo-lhes a dignidade que a literatura de outros tempos refletia acentuando o lado grotesco, torpe e vulgar. A separação dos estilos, cujos sulcos perduram ainda, levava a desacreditar o quotidiano, infundindo-lhe a luz cômica, banindo a gente comum dos próprios sentimentos tidos por elevados, distintos – nobres. Na técnica literária, preconceitos de classes e de estamento, de camadas sociais e de prestígio políticos, faziam diferentes os homens. Sob o aspecto da sociedade atual, o quadro estará mutilado, iluminado certos setores, relegados outros ao desprezo, numa combinação de fragmentos que obedece à coerência valorativa. O escravo, o artesão, o empregado, o comerciante, confinados a destinos medíocres, nada significam nos salões dominados de barões e potentados, ainda que, sem riqueza, se aureolam em altas posições políticas.
Não só o estilo reflete e acentua o contexto social em que vivem e morrem as personagens imaginárias. A visão da realidade sofre outro impacto, ao transformar-se artisticamente, para readquirir luz mais clara, acaso perdida no hábito da perspectiva comum, no autoritarismo e no embotamento do olho que vê. O mundo exterior se retorce e deforma Para renascer do cinzento do quotidiano. A percepção apagada reanima-se mercê do objeto, reavivado na visão e não no conhecimento. (Viktor Sklovskij, Theorie der Prosa, Frankfurt, S. Fischer Verlog, 1966, pág. 14), singularizando-lhe o conteúdo e deformando-lhe o relevo. O estilo tem nessa operação, seu papel expressivo, ao refinar ou barbarizar a forma, eixo do movimento integral de aproximação à realidade. O mundo será apresentado, com o homem e as idéias, com se surgisse do caos, visto pela primeira vez, descoberto na fantasia criadora. Detalhes ou traços aparentemente insignificantes, segmentos da paisagem social, tomam o primeiro plano, enquanto caracteres habitualmente reputados essenciais mergulham na sombra, evocando a imaginação, com colorido ingênuo ou rebuscado, o trivial acontecimento com ares de fato novo.
Dentro do tempo histórico e do espaço social, reintegrados na realidade da arte e do mundo, a obra literária subsiste por si, com perspectiva peculiar, inteligível por valores comuns. Nem a abordagem extrínseca lhe dá conteúdo, nem o isolamento no mistério a purifica das impurezas do século. Incorporada ao momento sociocultual, ela, parte dela, o revela, revelando-se a si própria. Seu caráter especifico, irredutível a hora e ao lugar, não é tudo – mas o caminho, um dos caminhos, da visão integral da realidade, concretamente presente. No vínculo que refere à comunicação, ao leito que une os homens, leitor e espectador, provoca a consciência da verdade da representação, expressão comum da realidade. Na história, no centro que a orienta, gera-se a obra de arte, e, ao dirigir-se de homem a homem, seus caminhos são perceptíveis e inteligíveis, não apesar, mas por obra da singularização do objeto e da deformação estilística. A partir do Roman de La rose a Idade Média adquire contorno mais nítido do que nos documentos oficiais, como por via de Shakespeare o período elizabetiano cobre a sua verdadeira dimensão (J. Huizinga, The Waning of the Medle Ages, New York obs.: várias outras citações: Gilberto Freyre, Pedro Calmon... ver livro). Mais do que fonte do estudo histórico, a obra de arte testemunha a autenticidade dos valores que presidem o tempo.
Entre a cópia imitativa e o capricho está a criação artística. Aqui, entre os pólos está a realidade, transfigurada, mais essencialmente a realidade. Conscientemente, coerentemente, um realista, o realista Machado de Assis, desafeto do realismo escola, partiu na caça de suas personagens e na aventura da obra literária. A perspectiva é da mimesis, liberta do copismo e da imitação dos fatos, que se representam passivamente no espelho. “O autor”- escreve ele – “dirá que não podia alterar a realidade dos fatos; mas essa resposta é de poeta, é de artista? Se a missão do romancista fosse copiar os fatos, tais quais eles se dão na vida, a arte era uma cousa inútil; a memória substituiria a imaginação (...) O poeta daria a demissão, e o cronista tomaria a direção do Parnaso. Demais, o autor podia, sem alterar os fatos, fazer obra de artista, criar em vez de repetir (...)” (Crít. J. M. de Macedo: O culto do dever).
Enamorado do romantismo, dos preconceitos de escola se evadiu, como Stendhal, Balzac, sem perder-se na pretensa objetividade do naturalismo e na falsa subjetividade desgrenhada do ultra-romantismo. O caminho estava entre a retórica declamatória e o retrato que quer reproduzir tudo, os traços lagos e as linhas tênues. A “mercadoria deteriorada” dos quadros absurdos escondia a realidade, sem revelar nada, em seu lugar, senão o grotescamente cômico. Este o teatro do major Lopo Alves (P.A., A chinela turca): .....
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Raymundo Faoro – Machado de Assis: a pirâmide e o trapézio, página 525/532.
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Tags: Machado_de_Assis_A_Pirâmide_, Raymundo_Faoro, eo_Trapézio
Comentário de Oswaldo Conti-Bosso em 22 março 2011 às 13:13 Veja também: Um sugestão de Isabeau : Das dores e delícias de ler Machado de Assis: capítulo de "Memórias Póstumas de Brás Cuba"
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