Machado é um clássico da nossa Literatura. Dom Casmurro, então, é título obrigatório para os amantes da boa leitura. Foi esse um dos motivos que me levou ao teatro em plena quinta-feira: assistir ao Dom Casmurro. Por tratar-se de uma obra comentada e sugerida pelos nossos mestres à exaustão, como já falei anteriormente, boa parte daquela platéia já conhecia a história -a trajetória de Bentinho e Capitu, pontuada por ciúmes, desconfianças e suspeitas de adultério.
Baseada no clássico realista, a peça concretiza uma inteligente leitura da obra, em especial os aspectos psicológicos da história. Na primeira fase nos deparamos com um Bentinho jovem, vivaz, tímido e cheio de sonhos. O ator que interpreta Bentinho consegue personificar o Bentinho da minha imaginação, cheio de dúvidas e questionamentos, a ponto de ser difícil de acreditar que aquilo é uma teatralização, e não fruto de minha incessante imaginação.
A maneira como Bentinho e Capitu se observam, transmite ao público a pureza de um belo idílio. Sem apegar-se aos detalhes, a peça também traz momentos cômicos, como a cena do cochilo do padre, os namoricos dos protagonistas, e as tentativas dos amigos Bentinho e Escobar em deixar o seminário. Destaque especial para a trilha sonora da peça, Beethoven com o seu “Claire de Lune” e outros tantos compositores eruditos.
Anoto aqui, uma pontinha de decepção em relação à Capitu, aquela moça com olhos de cigana oblíqua e dissimulada, olhos de ressaca. Não consegui em momento algum observar esse traço tão marcante na Capitu do Machado, naquela Capitu a que assisti. Confesso que sempre visualizei a Capitu, como a Carmen do Bizet. Cigana, apaixonada, quente, que sofre para conter os seus furores uterinos. Também imagino Capitu como La Belle de Jour. Por trás da dama recatada da sociedade esconde-se uma cortesã. Em momento algum identifiquei esse dualismo na Capitu. A Capitu menina, sempre teve ares e astúcia de mulher. Já a Capitu mulher ainda trazia a verve e o brilho da Capitu menina. Essas características foram quase imperceptíveis na peça.
Um som de mar, a figura de Escobar tentando agarrar as mãos de Capitu, representam a linda, onírica e quase enigmática morte de Escobar, e todo aquele jogo metalinguístico me levaram à duvida, e me fizeram por uns breves momentos desconfiar da fidelidade de Capitu.
Instigado por Otelo de Shakespeare, pelas lágrimas de Capitu no velório de Escobar, e uma (evidente?) semelhança entre Ezequiel e Escobar , Bentinho passa a desconfiar da mulher, e aos poucos transforma-se no Dom Casmurro. Dom, porque Bentinho era comparado aos nobres, e Casmurro, porque Bentinho tornara-se um homem amargo e turrão. Com isso, ao longo da peça, o espectador vai aos poucos mergulhando de cabeça naquele universo Machadiano, dos sentimentos paradoxais de amor, ódio e ciúme em relação ao melhor amigo, à mulher e ao filho de Bentinho. Uma verdadeira viagem ao mundo perturbador e instigante do imortal Machado de Assis!

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