AS ORIGENS
O Japão durante séculos foi um país quase totalmente isolado do resto do mundo – o que despertava no ocidente a imaginação fantástica de terras distantes e culturas exóticas, quando do relato de alguns viajantes e aventureiros. Por volta de 1870 o presidente americano Ulysses Grant enviou uma expedição de reconhecimento a Sua Majestade Imperial, cujo intuito era estabelecer laços de amizade e comerciais com o Império do Sol Nascente. Nas décadas seguintes, centenas de oficiais e soldados da marinha americana pisaram em solo japonês, alguns dos quais se estabelecendo na ilha e contraindo matrimônios temporários (permitidos pelas leis nipônicas da época) com jovens japonesas.

Várias histórias decorrentes dessas relações extravagantes foram registradas no séc. XIX, sendo que uma delas foi romanceada pelo advogado e escritor norte-americano John Luther Long. Com o título “Madame Butterfly”, Long relata o relacionamento de um desses oficiais americanos com uma jovem gueixa de Nagasaki de apenas 15 anos de idade (vide). A novela despertou o interesse do dramaturgo David Belasco que, juntamente com Long, a adaptou para o teatro, sendo estreada em 1900, em Nova Iorque, numa peça de um ato apenas. Sete anos depois Belasco elabora uma versão em três atos que é apresentada em Londres. Giacomo Puccini assiste a uma das apresentações e fica profundamente impressionado e comovido com a história. Decide então transformá-la em ópera, contando com a colaboração dos libretistas Giuseppe Giacosa e Luigi Illica.


A primeira apresentação da ópera, no Scala de Milão, em 1904, foi um fiasco. O diretor de cena resolveu inovar criando efeitos sonoros especiais para dar mais colorido ao intermezzo do segundo ato. Pretendia que quando os pássaros chilreassem no ambiente japonês do palco, outros respondessem de vários pontos do teatro. Para isso, distribuíra pelas galerias alguns funcionários, munidos de instrumentos que imitavam o pio de passarinhos no momento adequado. Mas o efeito foi bem menos poético do que se esperava. Segundo o depoimento da soprano que fez o papel principal, Rosina Storchio, “graças a uma imprevista colaboração do público, de todos os lados ergueram-se cantos de galos, ladrar de cães, mugidos de vacas e zurros de asnos, como se naquela madrugada estivesse despertando a própria arca de Noé”. Óbvio que o espetáculo tornou-se uma patacoada.
Puccini e seus libretistas, entretanto, acreditavam no valor da obra e fizeram sua revisão eliminando episódios, reduzindo compassos, dividindo atos e simplificaram a história de forma a evitar comparações desagradáveis entre as enormes diferenças culturais dos dois países. Puccini escreveu mais quatro versões da ópera depois do fracasso inicial. A última versão data de 1907 e tornou-se a definitiva. Puccini construiu assim uma partitura com maravilhosas gamas inteiramente novas de timbre e harmonia, conseguindo uma narração fluida e comunicativa, que passou a comover platéias no mundo inteiro.


Foi a ópera que assinalou o ponto mais alto da carreira de Giacomo Puccini, cujas obras posteriores não alcançaram popularidade equivalente. Foi também o trabalho que deu maior divulgação ao talento de Giuseppe Giacosa, poeta e dramaturgo que se caracterizava por descrever, de forma realista, os fenômenos da decadência, crise e transformação de um mundo que experimentava os desafios do novo século que se avizinhava. Giacosa não teve a oportunidade de acompanhar a sucessão de êxitos obtida pela obra que ajudara a escrever, pois faleceu em 1906. Mas esta satisfação foi dada a Giacomo Antonio Domenico Michele Secondo Maria Puccini, que viu o mundo inteiro aplaudi-la, até 29 de novembro de 1924, quando morreu, deixando inacabada a ópera Turandot, que Franco Alfano iria terminar.

A ÓPERA

Em Nagasaki, o tenente Benjamin Franklin Pinkerton, da marinha dos Estados Unidos, vê pela primeira vez a casa onde residirá com a “esposa” japonesa durante sua curta permanência na cidade. O agente matrimonial, Goro, mostra-lhe os aposentos e Pinkerton fica maravilhado com tanta arte. Conclui que a aventura lhe sairá barata, afinal, por apenas 100 iens, desfrutará a bela residência e terá como mulher uma jovem encantadora, mediante um contrato de matrimônio por 999 anos! E pelas leis do país, poderá desfazer o relacionamento a qualquer momento.
O cônsul americano Sharpless adverte Pinkerton de que a menina com quem se casará leva o matrimônio a sério e não de forma leviana como ele. Seria um pecado destroçar seu ingênuo coração. Butterfly tem apenas 15 anos e está apaixonada por Pinkerton. Sua família era próspera, mas sobreveio a pobreza e ela foi obrigada a tornar-se gueixa para sustentar a mãe viúva. Para Pinkerton, egoisticamente, isso não faz diferença, está transtornado de desejo pela jovem japonesa e nada o deterá no alcance de seu objetivo. Ambos brindam à América, seu poderio e seus valores. Pinkerton está seguro de que está acima de todas essas questões de uma cultura inferior.
Nesse momento Goro, o casamenteiro, anuncia o cortejo nupcial da noiva. Pinkerton e Sharpless ficam fascinados com o exótico espetáculo – algo a que seus olhos ocidentais ainda não se acostumaram. Butterfly e suas acompanhantes cantam louvores à natureza e as vozes chegam como um murmúrio de brisa, distantes, irreais. Butterfly, apaixonada, anuncia às amigas sentir-se a mulher mais feliz do Japão.





Terminada a cerimônia nupcial, irrompe a cena o tio bonzo (sacerdote) de Butterfly que a amaldiçoa por ter renegado sua religião para casar-se com um estrangeiro. Há enorme tumulto e Butterfly fica arrasada com as palavras do tio.
Pinkerton fica penalizado e a conforta com palavras de carinho. A noite vem descendo; ambos se abraçam, iluminados pelo luar. Trocam, então, ardentes palavras de amor e, depois se recolhem à casa. É o dueto de amor, considerado pelos estudiosos como uma das obras-primas de Puccini. Constitui, possivelmente, a página mais expressiva de quantas já foram compostas no gênero.



Três anos se passaram e Pinkerton não dá notícias: voltara aos EUA deixando Butterfly a aguardá-lo. Suzuki, a criada, não acredita mais no seu retorno, mas implora aos deuses que isto aconteça. Butterfly, obstinada em sua fé, procura infundir-lhe esperança.
“Um belo dia, veremos elevar-se um fio de fumaça lá distante, no mar”, diz ela com ar sonhador. “É ele quem chega”. E prossegue em sua fantasia, imaginando o que ocorrerá em seguida: Pinkerton sobe a colina, chama por ela e tudo será maravilhoso como antes.
A intensidade melódica desta ária atinge o ponto mais emocionante quando Butterfly conclui (pretendendo ela própria convencer-se do que afirma) “Tudo isso acontecerá, prometo-te. Eu, com segura fé, o espero”.


Butterfly recebe a visita de Sharpless que recebera uma carta de Pinkerton na qual relata seu casamento com uma conterrânea. Butterfly não lhe permite ler a carta, demonstrando intensa alegria (mas obviamente temendo conhecer seu conteúdo). Pergunta ao cônsul se na América os pintarroxos regressam todos os anos para fazerem os ninhos. Diante do embaraço de Sharpless, ela esclarece: Pinkerton lhe dissera que estaria de volta quando isso ocorresse, e no Japão as aves já haviam retornado três vezes!
Sharpless a aconselha a esquecer Pinkerton e aceitar a oferta de casamento feita por um rico aldeão, mas ela o repudia, furiosa e ofendida. Corre ao aposento contíguo e volta com o filho no colo: “E este, se pode esquecer?” Sharpless, estupefato, reconhece os traços de Pinkerton na criança, e pergunta como se chama. Butterfly declara que seu nome é Dor, mas que o mudará para Alegria quando da volta de Pinkerton.
O navio de Pinkerton chegou finalmente. Butterfly sente, triunfante, que sua angústia terminou e corre para o terraço. Saúda a canhoneira branca que entra no porto. Agitada, faz com que Suzuki recolha todas as flores que puder, a fim de enfeitar a casa. Ri e chora ao mesmo tempo, enquanto espalha por todos os cantos a colorida colheita da criada.
Neste trecho (que se tornou famoso como “dueto das flores”, Puccini utiliza uma estrutura musical complexa. Há mudanças bruscas de tonalidade, ligeiros acentos orientais na linha melódica e a orquestra volta a atuar como parte integrante da movimentação. Há quem veja nessa passagem características de Wagner e Debussy.
Suzuki e Butterfly dão uma poética conclusão ao dueto, que se fecha com grande delicadeza.



Começa a longa vigília noturna de Butterfly. Seu filho já está deitado, Suzuki também. Só ela permanece acordada, qual uma estátua, junto à janela, aguardando o novo dia e seu amado.
A cena, de grande força comunicativa, é ilustrada por um coro a bocca chiusa (de boca fechada), que parece emergir da noite, lá fora, qual serena cantiga de ninar.
Os sons vão se extinguindo lentamente e a cortina fecha-se encerrando o segundo ato da ópera.


O terceiro ato é precedido por um longo intermezzo sinfônico. A jovem permaneceu junto à janela a noite toda, imersa em expectativas e reminiscências. A primeira parte do prelúdio, portanto, sugere ao espectador as possíveis imagens que passaram pela mente de Butterfly: Pinkerton atravessando os mares, as juras de amor que trocaram no terraço, a maldição do tio bonzo, a interminável espera...
O dia começa a clarear e a cortina se abre: Butterfly permanece na mesma postura anterior, olhando pela janela. Ouvem-se vozes, os pássaros começam a cantar, as sonoridades orquestrais tornam-se alegres e a natureza parece encher-se novamente de vida.

INTERMEZZO


Butterfly retira-se para se preparar para receber o tenente e a jovem quer a criança vestida para conhecer o pai. Aparecem Pinkerton e Sharpless e Suzuki, ao recebê-los, nota que há uma senhora no jardim. Quando Sharpless revela que é a esposa americana de Pinkerton, Suzuki cai em prantos. O cônsul procura acalmá-la e conta que a senhora veio para adotar o menino.
Pinkerton mostra-se constrangido e confessa sua covardia perante a situação. Dando-se conta dos males que sua leviandade provocou, sente-se abater pelo remorso e pela covardia. Falta-lhe a coragem para enfrentar Butterfly: ele pede a Sharpless que procure confortá-la.
Antes de retirar-se, entretanto, olha tristemente ao redor e despede-se do ninho florido onde convivera brevemente com Butterfly. “Fujo, sou covarde”, exclama amargurado, sob comentários lacônicos de Sharpless.


Butterfly aparece em seguida e percebe nos modos de Suzuki que algo de mau aconteceu. Vê a estranha senhora e compreende o que se passa. A esposa de Pinkerton sente compaixão por ela e pergunta se o marido pode levar a criança. Com patética resignação, Butterfly responde que sim, desde que ele venha pessoalmente buscá-la...dentro de meia hora.
Todos saem, deixando Butterfly sozinha. Ela se ajoelha diante de uma imagem de Buda, permanecendo imóvel em dolorosa meditação. Com gestos lentos, cobre-se com um véu branco e tira a adaga que estava escondida no nicho da estatueta. “Com honra morre quem não pode conservar a vida com honra” está gravado na lâmina. São os últimos momentos da ópera. Na iminência de praticar o haraquiri, Butterfly é interrompida pela súbita chegada do filho, que corre perto dela. Largando a adaga, a jovem estreita a criança com infinita ternura, cobrindo-a de beijos.
“É por ti e por teus olhos puros que morre Butterfly”, diz angustiada. “Para que possas ir para além-mar, sem que te magoe, na maturidade, o abandono materno”. Despede-se dele ternamente, e manda-o brincar. A seguir, volta a empunhar a adaga e pratica o haraquiri.
A orquestra comenta essa passagem com frases dolorosas, e Butterfly morre enquanto ouvem-se os gritos de Pinkerton, do lado de fora, chamando por ela.

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Comentário de Henrique Marques Porto em 17 outubro 2009 às 20:40
Oscar,
Essa matéria sobre Maddame Butterfly está primorosa! Pode parecer a alguns que é simples escrever sobre um título tão conhecido, talvez a ópera recordista em encenações. Mas é difícil exatamente porque é conhecida, porque muitos têm alguma informação sobre ela. Pois você, além de contar o nascimento da partitura de Puccini com seus antecedentes e explicar a trama da ópera e seu desenvolvimento ainda acrescentou informações novas que não são mencionadas nas resenhas feitas nas rádios e editadas nas caixinhas do CDs. Parabéns!
Mas você sabe que sou suspeito para falar sobre essa ópera. Para quem não sabe a explicação é essa, que copiei da página do tenor Alfredo Colósimo, falecido recentemente:
"Madamme Butterfly
1956
12 de Maio
Teatro Municipal do Rio de Janeiro
Regência de Santiago Guerra
Elenco: Clara Marise – Alfredo Colosimo – Peter Gottlieb – Carmen Pimentel – Geraldo Chagas – Marino Terranova – Carlos Walter – Helio Paiva – Loretta Lacce – Eraldo de Marco – Henrique M.Porto Filho (filho de Butterfly)"
Bom, o meu nome não tem esse "Filho" que colocaram no programa. Mas sou eu mesmo. Esse é o elenco do segundo ou terceiro espetáculo. No primeiro, o Sharpless foi o grande Sílvio Vieira.
A propósito, a participação de crianças nessa ópera deveria ser proibida! É dureza ver a mãe fazer arakiri! E depois ainda ser sequestrado e levado para o estrangeiro pelos gringos responsáveis pela tragédia toda! Criança sofre em ópera. Brincadeira minha. Tem que ter criança fazendo figuração nessa ópera. É quando a criança entra em cena que metade da platéia puxa os lencinhos do bolso. A outra metade puxa depois.
Alguns críticos mais rigorosos dizem que esta ópera é um dos títulos "comerciais" de Puccini. O outro seria La Fanciulla del West. Quanto a este não há dúvida que seja. Na época em que as duas óperas foram compostas Puccini estava sendo contratado pelo Metropolitan de Nova York. Os americanos já tinham atraído grandes cantores, regentes e músicos europeus. Estavam muito bem servidos. Mas faltavam compositores de qualidade para lançar títulos novos. A criatividade de Puccini caiu como uma luva. A Butterfly pode não ter sido escrita por encomenda, mas com certeza terá servido aos interesses da diplomacia americana. Não foi a primeira vez que a ópera se cruzou com a política. A Aída, de Verdi, foi escrita por encomenda do Egito para a inauguração do Canal de Suez e criou problemas com os etíopes.
De fato, os temas musicais centrais da Butterfly são baseados nos hinos nacionais dos dois países envolvidos, Japão e EUA, facilmente idendificáveis nos três atos da ópera. Com a partitura revisada o sucesso da obra nos EUA foi imediato.
Sobre o libreto, existem duas histórias originais nas quais Puccini teria se baseado. A de Luther Long, mencionada por você, e o "Madamme Chrysantheme" (Madame Crisântemo), de Pierre Loti. Note que Puccini compôs uma suite orquestral chamada precisamente "Chrysantheme", onde encontramos temas usados em Madamme Butterfly, notadamente no Cora a Bocca chiusa.
Por fim uma curiosidade. Madamme Buterfly, ou Cio-Cio-San, teria existido realmente! Não seria uma figura de ficção. Colo aqui um pequeno artigo publicado na Folha da Noite (do Grupo Folha) em 12 de março de 1959.

" ROMA (FOLHAS) - Em artigo publicado na revista "Musica d'Oggi", um critico musical japonês, Duiti Miyasawa, oferece novos elementos sobre a possivel origem da "Madame Butterfly" da opera de Puccini.
Sobre os "matrimonios temporarios" entre gueixas e oficiais de navios estrangeiros visitantes, que eram tolerados em fins do seculo passado, foram escritas duas historias que se tornaram famosas: "Madame Chrysantheme", de Pierre Loti, e "Madame Butterfly", de John Luther Long e David Belasco.
Em entrevista concedida a uma revista japonesa, a irmã de Long, cujo marido era missionario no Japão, afirmou ter sido ela quem contava a verdadeira historia ao seu irmão. Este, posteriormente, contara a uma atriz japonesa que a verdadeira Cho-cho-san sobrevivera à sua tentativa de suicidio.
Esses fatos foram confirmados pelo diretor e secretario do Museu de Nagasaqui. Declarou ele que o verdadeiro nome de "Madame Butterfly" era Tsuru Yamamura. Nascera ela em Osaka, em 1º de janeiro de 1851, e morrera em Toquio, em 23 de março de 1899. Seu filho, Tom Glover (ou Tomisaburo Kuraba) foi levado para Nagasaqui por seu pai, um rico comerciante inglês, e tornou-se aluno da irmã de John Luther Long. De acordo ainda com as afirmações do diretor do Museu de Nagasaqui, Tsuru e Glover viviam naquela cidade, onde ela era sempre vista com um manto no qual havia o desenho de uma borboleta (butterfly), simbolo de sua familia.
Entretanto, essa versão é contraditada pelo historiador K. Watanabe, de Nagasaki. Afirma ele que o emblema da borboleta era usado por todas as gueixas. Apresenta o historiador outra gueixa, chamada Daté, como a possivel "Madame Butterfly" da vida real.
K. Watanabe sugere tambem a possibilidade de "Pinkerton" ter sido um oficial da marinha russa. A sugestão é curiosa e chega a ser ironica, considerando-se que os comunistas têm apresentado "Pinkerton" como o tipo do imoral colonialista anglo-americano."

Verdadeira ou obra de ficção, Butterfly é um poderoso personagem, talvez único na história da ópera. Se você não for até ela, ela chegará até você! Trata dos sentimentos mais simples, aqueles que afetam de algum modo todas as pessoas. Emociona e vai continuar emocionando o público por muitos e muitos anos.
abração
Henrique Marques Porto
Comentário de Oscar Peixoto em 17 outubro 2009 às 20:56
Puxa vida, meu amigo!!!! Quem chegou aqui no post antes de você e não leu seu adendo, não sabe o que perdeu!!!
Enorme abraço
P.S. Bem que v. poderia botar aquele retratinho no palco...
Comentário de Henrique Marques Porto em 18 outubro 2009 às 0:24
Oscar e Lena,
Por causa dessa ótima postagem estou há horas ouvindo e vendo vídeos da Butterfly, uma ópera para mim especial por várias razões. Começo a ouvir e não paro. Estava tentando selecionar uma boa versão do Che tua madre, ária do segundo ato que talvez seja a mais bonita e comovente passagem da ópera. Até que cheguei ao vídeo promocional postado pela EMI sobre o mais recente registro fonográfico de Madamme Butterfly, gravado no ano passado e lançado este ano no mercado. É seguramente uma das melhores versões. Angela Georghiu no papel título, Jonas Kaufmann como Pinkerton e ótimo elenco sob a regência de Antonio Papano. Não tem a ária que eu queria mas o vídeo é muito bem feito. Um passeio de 14 minutos pela partitura de Puccini. E ver cenas da gravação, o comportamento dos solistas, do regente e dos músicos é conhecer um pouco a ópera por dentro, chegar quase ao coração de Puccini. A gente vê o vídeo e fica a fim de baixar...herr...quer dizer, digo, comprar o CD. Butterfly é o tipo de ópera que deve ser vista e ouvida com vários elencos diferentes. É impressionante como o drama da japonezinha de 15 anos se apodera das cantoras.
Lena, eu estou sempre por aqui. Onde tem ópera eu chego junto. E torço para que sempre apareçam mais pessoas.
abraço
Henrique Marques Porto

Madamme Butterfly
Comentário de Henrique Marques Porto em 18 outubro 2009 às 16:22
Oscar,
Faltou dizer que Madamme Butterfly, salvo engano, é a ópera mais representada no mundo e em todos os países. São milhares de montagens desde a estréia em 1904.
Aqui no Brasil são mais de 200 apresentações. Mais de 100 só aqui Rio, no Teatro Municipal. Média de uma por ano, mesmo com o TM "fechado para obras" -a ópera preferida dos administradores do grande teatro.
Uma delas aconteceu na temporada de 1950, com elenco internacional. Elisabeta Barbato foi Cio-Cio-San e Gianni Poggi foi o Pinkerton. Completando o elenco, o nosso Sylvio Vieira, barítono, no Consul Sharpless. A criança foi minha irmã Comba Marques Porto.
Na foto o final da ópera.
Abraço
Henrique Marques Porto

Comentário de Helô em 21 outubro 2009 às 2:05
Oscar
Impecável o seu post!
Fiquei aqui pensando como foi meu primeiro contato com Madame Butterfly. Acho que tudo começou muitos anos atrás com um velho vinil de Coros de Óperas Famosas (The Mormon Tabernacle Choir). A delicadeza do coro a bocca chiusa me encantou. Lembrei-me também que Adrian Lyne, no filme Atração Fatal, usou alguns trechos da ópera em diversas cenas representadas pela atriz Glenn Close. Só muitos anos depois, um pouco mais amadurecida, pude assistir a ópera completa com belíssima interpretação de Mirella Freni e Placido Domingo. Agora, passo a conhecer a origem de tudo nesse belíssimo trabalho. De quebra, acrescento ao meu pobre conhecimento operístico as preciosas e "henriquecedoras" informações do nosso amigo Henrique (com direito à foto histórica!) e a presença da afetuosa Lena. Deixo para os três uma Butterfly da Ópera Imaginária, um belo filme produzido para a Televisão pública Francesa com doze extractos de óperas famosas, animados por vários artistas Europeus.
Beijos.

Un bel di vedremo - Felicia Weathers
Comentário de Henrique Marques Porto em 21 outubro 2009 às 19:00
Helô e Oscar,
Ja conhecia esse vídeo. Muito bonito. E essa Felicia Weathers é ótima cantora. Perfeita para a Butterfly, que deve ser um soprano lírico de voz mais incorpada. O primeiro ato é mais leve, mas já a partir do dueto no final do ato Puccini escreveu uma partitura mais adequada para os sopranos dramáticos.
Oscar, por falar em sopranos, será que existe por aí alguma gravação com a Violeta Coelho Neto de Freitas? Foi nossa maior Butterfly. Talvez nossa melhor soprano. Só não fez carreira internacional porque não quis. Dela só tenho fotos na Madamme Butterfly. Vou postar uma ou duas aqui.
abraço
Henrique Marques Porto
Comentário de Helô em 21 outubro 2009 às 19:15
Henrique e Ocar
Fui pesquisar a Violeta e encontrei uma foto ótima.
Vejam:

Ópera Boheme, 1951, Temporada lírica Internacional,abertura do TM de S.Paulo.elenco: Rossi Lemmenni, Adélio Zagonara, Violeta Coelho Neto de Freitas Carlos Marchesi, Ferruccio, Tagliavini, Enzo Mascherini e Antonio Lembo.
Comentário de Henrique Marques Porto em 21 outubro 2009 às 20:48
Oscar e Helô
Na década de 50 e até início dos anos 60 o Teatro Municipal fazia não uma, mas duas temporadas líricas. Uma internacional, outra nacional. Quem começou a organizar as temporadas com elencos nacionais foi Gabriela Bezanzoni na década de 30 para estimular novos talentos. De fato tínhamos um elenco que dava conta de todo o repertório clássico italiano e francês. Nossos cantores só não sabiam cantar Wagner. Era comum alguns deles, como Paulo Fortes, Assis Pacheco ou Violeta Coelho Neto integrarem elencos internacionais como este da foto que Helô publicou
Em 1950, por exemplo, tivemos duas Butterflys. Essa foto é a da temporada nacional. Final da ópera com o elenco agradecendo os aplausos. Violeta como Cio-Cio-San, Roberto Miranda como Pinkerton, Julita Fonseca foi a Suzuki e Geraldo Chagas o Goro. Não consegui identificar o barítono -podem ser Eraldo de Marco ou Lourival Braga. A criança é minha irmã, que aparece na outra foto também. Essa roupa que ela está usando -e que eu também usei- ainda existe e está guardada com ela.
A outra foto é de Violeta com dedicatória para meu pai. Foi ele que a lançou em 1936, numa montagem da Cavaleria Rusticana no Tijuca Tênis Clube, onde era na época diretor cultural. No ano seguinte, Violeta já estreou no Teatro Municipal cantando a Butterfly.
Um detalhe curioso: a indumentária de gueixa que Violeta usava nos palcos era autêntica. Encantado com suas representações da ópera o embaixador japonês no Brasil mandou trazer do Japão uma roupa de verdade. Violeta doou parte de seu guarda-roupa para o Museu dos Teatros, que funcionava no Salão Assírio. Essa estava lá, mas já deve ter sido roída por traças e ratos melômanos.
abraço
Henrique Marques Porto

Madamme Buterfly - Rio de Janeiro, 1950


Violeta Coelho Neto de Freitas

Comentário de Oscar Peixoto em 21 outubro 2009 às 21:29
Helô e Henrique, vocês estão dando um grande brilho na minha página. Polimento de primeira! E ainda estão me obrigando a mexer no meu baú de recordações, trazendo à tona coisas que já havia fechado a 7 chaves. Um verdadeiro "sacode" na memória!
Na década de 50, conheci essa turma de longe, olhando por cima dos ombros do pessoal dos bastidores. Eu estudava canto com uma francesa, Madame Leblanc (certamente seu pai a conheceu), contratada pelo Municipal para montar óperas e renovar valores. A gente (os novos valores, hehehe!) estudava no anexo do teatro e via e ouvia os ensaios da tropa, mas não tinha muita chance de chegar perto. Foi uma história que hoje me soa inverossímel, que custo a acreditar que a vivi intensamente. Qualquer dia desses eu a conto, bem como seus desdobramentos ao longo dos anos.
Abraços
Comentário de Oscar Peixoto em 21 outubro 2009 às 21:32
Lena, adorei as "associações crescentes"! Esse é, para mim, o grande barato do blog!
Abração

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