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Magda Olivero. 100 anos!

Uma lenda viva da ópera, "a última Diva do verismo", Magda Olivero está completando 100 anos hoje. Magda nasceu em Saluzzo, em 25 de março de 1910. Estreou na Rádio de Turim em 1932, na ópera I Misteri Dolorosi, de Nino Catozzo. Sua carreira se desenvolveu com sucesso até 1940, período em que conheceu o compositor Franscesco Cilea, que a considerava a melhor intérprete de sua ópera Adriana Lecrouveur. De fato o personagem traria fama à Magda, cuja interpretação é uma referência para todos os sopranos.
No entanto, em 1940 Magda decidiu interromper a carreira para se casar. A pedido de Cilea, retornou aos palcos dez anos depois na mesma Adriana Lecrouveur. Cilea estava doente, temia não viver muito tempo e disse à Magda que antes de morrer gostaria de ouví-la cantar ainda uma vez a sua ópera. Magda Olivero nunca mais parou. Gravou e se apresentou no circuito internacional de ópera até depois dos 70 anos.
Aos 83 anos surpreendeu o mundo lírico com o anúncio de que voltaria a cantar! Artista consciente, ela sabia que sua voz ainda estava íntegra e que podia se apresentar em público. Não o fez profissionalmente, é claro, nem com a mesma intensidade de antes. Mas se apresentou em concertos e até gravou em estúdio mais uma versão de Adriana Lecrouveur. E cantou com o mesmo fôlego, a mesma chama e na mesma tonalidade da juventude. Um fenômeno verdadeiro, uma artista que conseguiu ultrapassar a difícil barreira dos limites físicos. Algumas dessas apresentações foram registradas em vídeo e estão disponíveis no YouTube. Num desses vídeos ela aparece cantando o Panis Angelicus aos 92 anos de idade! Foi numa ocasião especial: a missa pelos 25 anos de morte de Maria Callas. No ano passado, quando completou 99 anos, contou uma curiosa história sobre um sonho que tivera e pediu licença aos amigos que a homenageavam para cantoar um pequeno trecho da Francesca da Rimini, de Zandonai.
Em 1975 e com 65 anos, apesar de mundialmente conhecida e admirada pelo público de ópera, Magda Olivero ainda não havia se apresentado no Metroplitan Opera House. Joan Sutherland, que desfrutava de enorme prestígio junto à direção do Met, pressionou para que Magda fosse convidada a cantar para o público de Nova York. A Tosca, de Giacomo Puccini, com que se apresentou então foi um acontecimento que entrou para a história do famoso teatro. Num intervalo da récita, uma grande cantora abordou Joan Sutherland com um comentário.
"-É...ela canta muito bem, mas 'divas' mesmo somos nós, não é mesmo?"
Damme Sutherland respondeu:
"-Não, minha cara. Nós somos apenas famosas. A verdadeira Diva do público de ópera é Magda Olivero."
Em 1964 Magda Olivero se apresentou no Rio, na temporada internacional do Teatro Municipal. Cantou o Mefistofele, de Boito, com Cesare Siepi e Flaviano Labò; a Tosca, com Gian Giacomo Guelfi e o mesmo Labò; Fanciulla del West, com Guelfi (Paulo Fortes na segunda récita) e o brasileiro João Gibin; e mais uma Adriana Lecrouveur, com Angelo Lo Forese e Piero Cappuccilli. Fez um sucesso extraordinário, que eu tive o privilégio de testemunhar e apaludir.
Nessa excursão ao Rio deixou-nos um presente. Doou ao Museu dos Teatros do Rio de Janeiro o figurino que usou em seu maior papel, Adriana. No vídeo abaixo, gravado em 20 de março (em italiano, sem legendas) ela relembra o episódio e diz: "-Estou lá".


Magda Olivero. Tosca. Teatro Municipal do Rio de Janeiro, 1964

Sim. Está no Rio de Janeiro e em centenas de cidades espalhadas por todo o mundo. "A última Diva do verismo", uma cantora sensacional como poucas, ainda emociona o público de ópera. Público de todas as idades e épocas.
Magda Olivero é uma página única da história da ópera, pela beleza e expressividade de sua voz e de suas interpretações, e pela longevidade de sua carreira e de sua vida. Percorreu gerações inteiras de cantores. Cantou com Beniaminio Gigli, Tito Schippa e Giacomo Lauri-Volpi; com Mario Del Monaco e Franco Corelli; e também com Placido Domingo. Magda é a história viva dos últimos cem anos de ópera.
Não ficarei surpreso se amanhã ou depois aparecer no YouTube um vídeo com Magda cantando um trecho que seja de alguma ópera. Aos 100 anos!



Exibições: 141

Comentário de Oscar Peixoto em 25 março 2010 às 22:43
Henrique, aplausos de pé para este post. Belíssima homenagem a uma artista que, mais do que um fenômeno biológico, é um fenômeno artístico. Isso é que é ser imortal!
E que beleza de mulher...
Grande abraço.
Comentário de Henrique Marques Porto em 26 março 2010 às 0:30
Oscar,
Tenho uma predileção especial pela voz de Magda e por sua personalidade artística. Era o tipo de cantora que sabia o que estava cantando, nota por nota, palavra por palavra, e passava isso ao público. Às vezes se emocionava em cena, tomada pelo personagem que interpretava. Quando isso acontecia abandonava a música e se prendia ao texto, declamava ao invés de de cantar. Era uma cantora-atriz, talvez a maior de todas.
Nesse vídeo, acho que ela conta algo que aconteceu na récita da Fanciulla del West aqui no Rio, em 1964. Não consegui entender tudo ainda, até porque o vídeo foi editado. Mas ela menciona o Guelfi e descreve a cena do final do segundo ato (a partida de pôquer) -jogando as cartas para o alto. Foi exatamente isso o que eu vi e me lembro direitinho! Vi de perto, estava na fila B da platéia. O público pulou das poltronas aplaudindo aos gritos antes mesmo da cortina fechar. Impressionante.
abraço
Henrique Marques Porto
Comentário de Helô em 26 março 2010 às 0:49
Que história bonita a da Magda, Henrique. No início do filme, ao vê-la acompanhando a música, achei que ela fosse cantar! Impressionante seus gestos ainda firmes e expressivos, mesmo aos 100 anos. Privilégio o seu de ter tido a chance de vê-la e ouvi-la.
Bela homenagem. Saúde e vitalidade pra Magda Olivero!
Beijos.
Comentário de Laura Macedo em 26 março 2010 às 21:43
MA-RA-VI-LHA, Henrique!
Assino embaixo do comentário do Oscar.
Beijos.
Comentário de roberto elias da camara moura em 19 abril 2011 às 0:11
Ainda podemos comentar que na entrevista que concedeu em março de 2010, pela passagem do centésimo aniversário, sentada em um palco de um teatro de ópera em Modena ou Padova, na Itália, cantou com muita emoção, a ária final de Adriana Lecouvrer, sua ópera preferida. Nessa entrevista ela relembra sua passagem pelo Rio, onde cantou Adriana, e que teria doado o figurino que usou na ocasião para o TMRJ. Memória incrível. Um abraço para todos.

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