MAIS UM CASO DE POMPÉU (Crônica de Sebastião Verly de Oliveira Campos)


MAIS UM CASO DE POMPÉU 

Sebastião Verly de Oliveira Campos (*)
– 28-12-12 -

        O médico pompeano, Doutor Osvaldo, de quem ainda terei que escrever alguns causos ou, pelo menos um texto com vários deles, sempre que acontecia algo inusitado na cidade, falava com seus amigos  que “o impossível acontece em Pompéu, Belo Horizonte e Nova Iorque.”
Este caso, de que fui contemporâneo, é um dos impossíveis, mesmo para aqueles tempos que em não havia transporte nem comunicação para o interior. Pompéu não tinha telefone e diariamente uma viagem única de ônibus para BH.
Trata-se do caso Davi, um tipo do personagem Schreber, aquele paciente famoso de Freud.
Davi, na ocasião deste causo, era um homem maduro, de pouca conversa, bom papo, sério e agradável. Frequentava a loja a qual, quando eu era criança, tomava conta e sempre conversávamos sobre o cotidiano, independente da diferença de nossas idades. A loja era do meu primo casado com Dona Elza, uma sobrinha do Davi.
Ganhei sua confiança e, um dia, ele até me mostrou a foto de sua esposa, Célia, creio eu, de quem estava – mais ou menos - separado, entretanto  nutria por ela grandes ciúmes. Na foto, ela de vestido de branco, apresentava uma beleza acima da média. Ele mesmo confirmava: era uma mulher linda. Não a conheci, pessoalmente, creio que vivia em Abaeté ou outra cidade da região, mas soube que era uma mulher fiel.   Não me recordo se tinham filhos. Levado pelo ciúme gerado pela sua imaginação fértil, existem muitos casos de agressões do Davi a pessoas que, talvez, nem conhecessem a sua esposa.
À boca pequena dizia-se que ele era louco, doido ou maluco. Muitas vezes internado em manicô
mios, ele sempre melhorava e convencia aos médicos a lhe darem alta. Era um homem inteligente. Voltava bonzinho para Pompéu.   Houve até uma das vezes em que, depois de várias tentativas, conseguiram interná-lo num daqueles hospícios tão em moda na época, em que, ele depois da entrevista inicial com o diretor da casa, e também oportunidade em que o médico foi claro para com o paciente: “o pessoal de Pompéu, pede a internação do senhor, por considerá-lo louco.” E o Davi (quem me contou isto foi meu primo Tunico) teria respondido: “Se ser louco for como eu sou, o senhor pode mandar fazer um muro em Pompéu e terá o maior Hospício do mundo. Lá, diz a voz corrente: “de médico, poeta e louco, aqui em Pompeu, todo mundo tem um pouco”.
Mas, não foi este caso que me trouxe aqui ao teclado do computador.
Hoje, relatarei uma primeira vez em que tentaram internar o Davi, no Instituto Raul Soares, naquele tempo símbolo de cárcere para loucos. Como o Davi era o que hoje se chama de bipolar, havia dias que ele estava bem e outros em que desandava a criar problemas. Era bem forte e ficava agressivo sem motivos. Era um perigo! Pensaram em interná-lo, mas faltava um jeitinho para conseguir convencê-lo a viajar e conduzi-lo à internação. Ainda mais que grana andava curta para os parentes mais próximos e ele e um acompanhante teriam que viajar em ônibus de carreira. E mais: quem o acompanharia até o manicômio?
Propuseram a seguinte esperteza: quem o levaria seria o Nego do Soquim, casado com a Cotinha e pai de belas meninas; acrescento essas informações para dar mais veracidade e credibilidade ao meu causo.
Para o Davi, seria ele quem estaria levando o Nego do Soquim para internar. Na viagem, que naquele tempo e nas estradas de terra, durava cinco a seis horas ou mais se furasse um pneu, em comparação com pouco mais das duas horas atuais, o Davi conversava o tempo todo com seu acompanhante e o tratava carinhosamente como louco. Já o Nego do Soquim, para facilitar as coisas, correspondia com falas de louco, o que era muito fácil para um pompeano daqueles tempos. E mais: O Davi como bom acompanhante de um louco, pagava os lanches, dava toda a atenção ao primo que, segundo lhe disseram os articuladores do plano, passava por uma fase de suave loucura.
         Sim, o Nego do Soquim era parente não muito próximo do Davi, mas em Pompéu parente até o sétimo grau é considerado primo. Tanto que este tratamento é comum em todas as rodas, especialmente quando as partes nem se lembram corretamente o nome do interlocutor do momento. É primo pra lá e primo pra cá.
Quando chegaram a Belo Horizonte, ao descer na Rodoviária, embarcaram em carro de praça até o famoso Raul Soares e o Davi pagou o taxi, desceu na frente e explicou ao médico que os recebeu que trazia seu primo Joaquim Afonso, pois Joaquim Afonso Filho, esse era o nome do Nego, filho do Soquim ou Joaquim Afonso de Carvalho ou Soquim do David, um outro o David Afonso avô do Nego, portanto. O Nego sempre foi homem de uma excelente apresentação, ainda mais que viera com seu costumeiro terno preto de casimira (o hábito não faz o monge), tentava por todos os meios explicar a artimanha adotada para trazer o Davi para a internação.
Enquanto que o Nego se apresentava vacilante o Davi foi incontestável. Sabia de cor os nomes, idades e tudo mais sobre seu conduzido.
Em resumo: os argumentos do que era considerado o verdadeiro “louco” foram mais convincentes e internaram o Nego.
Afianço-lhes, finalmente, que o Davi exibia um sentimento diferente de vaidade; parecia consciente de haver cumprido com êxito a incumbência que lhe fora confiada. Ao sair do Hospital evitou hotéis e casas de conterrâneos conhecidos onde pudesse ser encontrado. Comprou uma dúzia de rosas num arremedo de flora que existia  naquele vértice do Parque Municipal com a Avenida Afonso Pena, e foi presentear uma conhecida de visita anterior que havia feito à Belo Horizonte. O Davi voltou para Pompéu, vaidoso de ter cumprido bem sua missão, ainda que no fundo dos seus olhos sempre embaçados, notasse certa malícia de sua vingança maligna para com todos que armaram o plano contra ele.
Do Nego eu diria que fora imprevidente e até mesmo caipira em aceitar a incumbência para a qual demonstrou evidente despreparo.  Como um bom samaritano, fez o que lhe pediram e como lhe ditou a consciência. Pagou um alto preço: até que os parentes mais próximos conseguissem a interferência de pessoas conhecidas para tirá-lo do Raul Soares, mofou durante vários dias num daqueles cubículos onde só havia um colchão sem lençóis sobre uma base retangular com cerca de 60 centímetros de altura, construída de alvenaria.
Durante muito tempo os dois não mais se falaram. Nem era para menos.

 

- Sebastião Verly de Oliveira Campos é

Sociólogo, Historiador, Escritor,

Cronista, Contista, Professor,

nascido em Pompéu, MG, 

reside em Belo Horizonte,

membro da 

Confraria Mineira de Cultura.

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