Marcus Góes especial para o blog de Ópera e Ballet.

As óperas, o teatro e os venenos...



Não, não é de “venenos” do tipo intrigas, fofocas, maledicências, que iremos falar. O assunto é veneno mesmo, tipo cianuretos, estricninas e racumins, dos quais romances literários e teatro de prosa, e consequentemente a ópera, estão cheios.

No teatro de prosa se acham certamente os dois mais famosos venenos do palco, ambos mais tarde transformados em eventos centrais de óperas: o veneno da ponta da espada de Laertes, que causa a morte de Hamlet, e que é seguramente entre todos o mais dramático e teatral veneno, e o veneno que um equivocado Romeu ingere, crendo morta sua Julieta, entre todos o mais trágico e triste dos venenos.

Ambas tragédias de Shakespeare, ”Hamlet” virou ópera de Ambroise Thomas, criada em 1868 na Opera, com libreto de Barbier e Carré, e “Romeu e Julieta” serviu a Gounod para uma ópera criada em 1867 no Teatro Lirico em Paris, também com libreto dos onipresentes Barbier e Carré.

Ambos os citados venenos deram morte a quem foi por eles atingido. Já Siegfried, vivo e desconfiado, de modo algum ingeriu a “sopinha” que Mime lhe preparou com todo “carinho”, mais venenosa que a mais venenosa das poções. Siegfried percebe logo que o nibelungo quer vê-lo morto e, em seguida, divide-o em dois com sua espada invencível. ”Siegfried”, terceira ópera da tetralogia “O anel do nibelungo”, tem naturalmente libreto do próprio Richard Wagner e foi estreada em Bayreuth em 1876, na criação do Anel integral.

Veneno ingerido de modo sorrateiro e portanto pouco teatral é aquele de ação lenta que Leonora engole em “O trovador” de Verdi, com libreto de Salvatore Cammarano, criada no Teatro Apollo em Roma em 1853, para obter a liberdade do trovador, prometendo-se ao Conde de Luna, morrendo antes de cumprir a promessa. “O trovador” é ópera tão querida e popular que certas observações críticas são inteiramente inócuas, como a que afirma que nem Verdi nem Cammarano souberam aproveitar operisticamente a cena em que Leonora ingere o veneno.

Veneno curioso mas extremamente teatral e operístico é aquele que causará a morte de Adriana na ópera “Adriana Lécouvreur”, de Cilea, com libreto de Arturo Colautti baseado em peça de Scribe e Legouvé, criada no Teatro Lirico em Milão em 1902. Adriana morre por haver cheirado o perfume de flores enviadas por sua rival, perfume esse envenenado por esta. Não me vem à memória neste momento em que escrevo a existência de outro veneno olfativo nas grandes óperas.

Gioconda se envenena para não dar-se a Barnaba, Fosca envenena-se ao ver partir sua rival com seu amado, Suor Angelica toma veneno e morre em vez de largar convento e convenções e viver vida comum de amores e alegrias, e muitas outras se terão envenenado na história da ópera. Na ópera de Gounod baseada em Goethe, Fausto quase ingere o veneno contido na taça de seus antepassados, mas é dissuadido por um Mefistófeles de penacho no chapéu, espada na cinta e bolsa cheia. Otello na ópera de Verdi pede a Iago um veneno para matar Desdemona, mas Iago lhe aconselha a sufocação.

Quem souber de outros venenos na ópera, contribua para este artigo em “opinião do leitor”. Como sempre, escrevi de memória, com poucas consultas a esse monstro útll e castrador que se chama Internet.

Menos infeliz foi Isolda, que não precisou envenenar-se para morrer ao lado de seu Tristão morto antes. Isolda simplesmente morre de tristeza, de infelicidade. Um compositor italiano do século XIX a faria tomar veneno ou apunhalar-se desesperada. Wagner, não. Simplesmente a faz morrer de amor.

DONUM FAC REMISSIONIS – ANTE DIEM RATIONIS
MARCUS GÓES – MARÇO 2011

FONTE: http://movimento.com/

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