Margarida Max - Uma das grandes estrelas da revista

por Helô

Filha de italianos, a atriz e cantora Margarida (D'Alessandro Tocatelli) Max nasceu em São Paulo. Mudou-se para o Rio de Janeiro e atuou com enorme sucesso no teatro de revista nas décadas de 20 e 30. Criou a Companhia Margarida Max de Teatro de Revistas e foi uma das principais vedetes de grandes montagens. Como as demais estrelas do teatro, Margarida Max lançou músicas, ficando famosa sua interpretação do samba Braço de Cera, de Nestor Brandão. Teve grande êxito na revista Brasil do Amor, de 1931, quando lançou a versão definitiva de No Rancho Fundo, de Ary Barroso e Lamartine Babo. Um sucesso nacional, que saltou do palco da revista para ser cantado pelo Brasil inteiro.

Outro grande sucesso foi À la Garçonne, considerada uma das 10 maiores revistas de todos os tempos. Salvyano Cavalcanti de Paiva, em seu livro "Viva o Rebolado", diz o seguinte:
Em 1924, foram remontadas as Revistas Penas de Pavão, Sonho de Ópio e a 5 de maio estreou no Recreio À la Garçonne, de Marques Porto e Afonso de Carvalho, música de Sá Pereira. À la Garçonne apresentava "assuntos da atualidade através de comentários ora amáveis, complacentes, ora mordazes, implacáveis, deliciando e fazendo rir à socapa ou abertamente. O sucesso absoluto garantiu-lhe o apoio unânime de toda a crítica e de um público que lhe assegurou mais de 300 apresentações ininterruptas, em quatro meses, o posto de maior revista do ano e de uma das 10 maiores de todos os tempos. Havia um elenco a defendê-la: Margarida Max - que fizera, anos antes, pequena incursão no gênero -, bonita vistosa, cheia de talento, juventude, disposição e enorme força interior, e viria a ser a maior das vedetas do gênero.


Qual a gênese da revista de Marques Porto e Afonso Carvalho? A melhor explicação histórica é a de Edigar de Alencar:

O aparecimento escandaloso do romance La garçonne (1922), de Victor Margueritte, que logo esgotou sucessivas edições na França e se espalhou por todo o mundo, repercutiu com intensidade no Brasil, no ano seguinte, quando foi lançada a edição brasileira sob o título A emancipada e com subtítulo o título original. Começaram a surgir coisas com o nome la garçonne, inclusive os cabelos femininos aparados na altura da nuca - grande escândalo na época.




À la garçonne, foi moda de corte de ida e volta: esteve em voga de novo nos anos 60 e nos anos 80. O compositor Pedro de Sá Pereira e o letrista Américo F. Guimarães comentaram o fato no carnaval de 1925 (lançado na revista de 1924), através da marchinha "Tudo à la garçonne", que Margarida Max e toda as coristas submetidas aos cabeleireiros implacáveis, por ordem da produção, de tesoura e máquina zero à mão, cantavam com estrondosa repercussão, e que foi gravada pela cantora Zaíra de Oliveira, em 1924 mesmo, em disco Odeon 122.768.



A gravação encontrada no IMS registra o nome da música como "Cabeleira à la Garçonne"
Intérprete: Zaíra de Oliveira


A revista "abafou a banca", como se dizia na gíria da época e a crítica declarou-a "leve, engraçada, brejeira, sem quadros fatigantes". Disse que a revista era "urdida à moderna, aproveitando assuntos em foco através de comentários ora amáveis ora mordazes" e exaltava a classe e a elegância de Margarida Max.


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Mamãe viveu parte da infância e pré adolescência em Barra do Piraí, cidade fluminense bem próxima ao Rio. Meu avô era bancário e nos anos 30 fora transferido de Minas para Barra. Frequentemente, ele levava mamãe e minhas tias para um passeio no Rio, cidade bonita e progressista. A capital federal ditava a moda e as meninas da época usavam o corte de cabelo a "La garçonne". Vovô faleceu prematuramente em 1939 e vovó, desolada, voltou para Minas com as filhas. Minha mãe conta que, além da enorme dor pela perda do pai tão amigo e tão querido, ela e minhas tias foram discriminadas pelo uso daquele corte de cabelo e da saia mais curta. A tradicional família mineira não perdoou e vovó teve de fazer novas roupas para as meninas, que tiveram ainda de deixar o cabelo crescer. Foi um tremendo choque, conta mamãe, mas não fosse assim não teriam amigas. Aqueles costumes, principalmente no interior de Minas, eram vistos como "coisa de mulher da vida".

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Comidas, Meu Santo!

De Marques Porto e Ari Pavão, música de Júlio Cristóbal e Sá Pereira, outro grande sucesso estrelado por Margarida Max! "Uma revista escrita por uma dupla de jovens atualizados, grande poder de observação, humorismo bem elaborado, malícia sem grosseria. O título da revista remetia a várias conotações: as de ordem sexual, uma de ordem litúrgica dos candomblés afro-brasileiros, outra de ordem gastronômica pura e simplesmente, enfim um verdadeiro achado. O elenco reunia o que de melhor existia no gênero, entre artistas experientes e coristas novas e de boa aparência." (Salvyano C. Paiva)
A revista foi elogiada unanimemente pela crítica nos jornais Correio da Manhã, Jornal do Brasil, O País, A Pátria, Jornal do Commercio, A Vanguarda, A Noite e O Imparcial. Acharam o texto ótimo e ótimas interpretações, especial menção feita a Margarida Max pelos seis papéis interpretados.
O número musical mais importante dessa revista foi Chuá Chuá, cantada em palco em dueto.

De Sá Pereira e Ari Pavão
Intérprete: Fernando



"Egressa da comédia, Margarida Max triunfou rapidamente na revista. A vivacidade da nova estrela, sua beleza sedutora, sua voz de soprano, o desembaraço ante a platéia e a simpatia que logo obteve junto à crítica asseguraram-lhe um posto importante nos círculos teatrais". (Salvyano C. Paiva)
Margarida teve carreira curta. Morreu aos 54 anos, mas viveu anos de glória como uma das mulheres mais cobiçadas da época.



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Fontes
Livro: Viva o Rebolado (Salvyano C. de Paiva)
Revistas O Malho e Para Todos
Instituto Moreira Salles
Cifrantiga

Exibições: 927

Comentário de Teatro de Revista em 8 junho 2009 às 0:05
Helô,
Bela matéria! A primeira coisa que me passa pela cabeça é que ela indica um entre os muitos caminhos que precisamos seguir -o do resgate das personalidades artísticas que fizeram o teatro de revista. São atrizes, atores, escritores, compositores, músicos, cenógrafos, etc que influenciaram mais de uma geração e chegam aos dias de hoje. São atuais! Nada a ver, portanto, com saudosismo ou mero registro histórico.
A respeito de Margarida Max ficou faltando apenas uma informação difícil de encontrar com algum detalhe: o teatro que ela construiu no bairro da Piedade no Rio e que tinha o seu nome. Até hoje não consegui descobrir aonde exatamente funcionava o Teatro Margarida Max. Mas é possível que exista alguma foto.
Essa história dos cabelos curtos, "à la gaçonne", merece um tratado. A começar pelo autor do romance "La Garçonne", que teria suscitado a revista de Marques Porto e Afonso de Carvalho. "Vitor Marguerite" é obviamente um pseudônimo andrógino. Provocativo. Quem seria esse escritor? O corte de cabelo "à la homme" na década de 20, por outro lado, remete à questões ligadas às identidades sexuais. Com muito pouco ou nenhum equipamento teórico os autores da revista "A la Garçonne" e Margarida Max mexeram neste vespeiro! Coisa que o chamado "teatro sério" não se atrevia a fazer na época.
E tome polca...digo, maxixe...
Henrique Marqies Porto
Comentário de Teatro de Revista em 8 junho 2009 às 0:52
Henrique
Sabe que eu também sempre penso no resgate de talentos pouco reconhecidos? Dias atrás, a Marise colocou nos comentários uma foto de Eros Volúsia. Fiquei feliz, pois a foto foi postada por mim em 2002, no meu antigo blog. Naquela época, eram raras as fotos da Eros na internet. Depois do livro do Roberto Pereira apareceram mais algumas.
Vou pesquisar sobre o teatro em Piedade. Ainda não li todo o livro do Salvyano e pode ser que ele cite alguma coisa. Não falei também da rivalidade entre Margarida Max e Otília Amorim, outra que merece ser lembrada, mas achei que o post ficaria grande demais.
Veja aqui sobre os irmãos Paul e Victor Margueritte. Ele se preocupava com questões sociais e emancipação feminina.
Beijos.
Helô.
Comentário de Cafu em 8 junho 2009 às 3:00
Ficou ótimo, Helô! Parabéns!


Henrique,
Esses acima são os irmãos Paul e Victor Marguerite. Parece que o La Garçonne causou muito impacto quando publicado em 1922 por tratar de temas tabus como homossexualidade e libertação feminina. Victor Marguerite é lembrado com certa freqüência em textos sobre história do feminismo por seu engajamento em defesa da igualdade de direitos e da sexualidade livre. Antes de La Garçonne ele escreveu um livro chamado Jeunes Filles (1908) sobre a iniciação sexual de moças.

Beijos.
Comentário de Teatro de Revista em 8 junho 2009 às 19:11
Helô e Cafu,
Eita ignorância vergonhosa essa minha! E preconceito também. Achar que Victor Marguerite era pseudônimo de dois gays d'antanho. Mea culpa, mea maxima burrice.
Corajosos esses irmãos. Vou querer saber mais sobre eles. Não sei se eram homossexuais, mas escreviam sobre o tema numa época em que as pessoas eram até condenadas à morte por causa da sexualidade. Tchaikovisky seria um. Oficialmente morreu de cólera, mas existem versões que indicam que ele teria sido "condenado ao suicídio" por causa de sua sexualidade -era a lei na Rússia de então. Basta ouvir sua última composição, a Sinfonia n.6, a "Patética", para acreditar nessa versão. Música tremenda, terminada pouco antes de sua morte.
Nada sobre os Marguerite na Biblioteca Digital Mundial em http://www.wdl.org/es/. Mas devem existir e-books deles na internet.
***
Mudando de asunto. Helô, não dá para consultar a biblioteca do Tinhorão. Está tudo encaixotado em São Paulo! O acervo está de mudança para a sede do IMS no Rio. Mas levará meses. Estou em contato com o IMS e já conversei e enviei e-mail para o responsável pelo acervo aqui no Rio. Vou tentar uma exceção. Também vou buscar contato com o próprio Tinhorão. Talvez ele possa esclarecer sobre o conteúdo do livro "Memórias de Marques Porto". Consultei os velhos da família e ninguém sabe nada a respeito. Tenho apenas algumas pistas. O "livro" não tem páginas numeradas. Se é assim não deve ter sido editado. É possível que seja edição inacabada, esteja apenas datiligrafado ou ainda que seja até um manuscrito. O livro pertencia antes ao acervo da casa Viúva Guerreiro, que tinha o nome de sua dona -também compositora- e funcionou na Rua Sete de Setembro, no centro do Rio, do final do século 19 até 1962 quando fechou. O livro é, então, antigo, e até os anos 60 só existia uma família no Brasil com esse sobrenome. Sei porque pesquiso a genealogia.
A casa Viúva Guerreiro era editora, loja de partituras e ponto de encontro de compositores e autores da revista nos anos 20 e 30. Agora é ter paciência, persistência e saber esperar. São as três deusas de quem pesquisa. Ainda mais se quem pesquisa é "independente".
Isso está ficando sério. Vamos acabar tendo que montar um projeto e sair atrás de financiamento. Aliás, a nossa pesquisa -mesmo sem metolodogia- já resultou num trabalho mais rico do que muitos que já vi por aí na internet.
beijão
Henrique Marques Porto
Comentário de Teatro de Revista em 8 junho 2009 às 20:37
Henrique
Não se avexe. Acontece com todos nós.
Quanto ao Tinhorão, já pensou em conversar com a Elizabeth aqui do Portal? Não foi ela quem escreveu a biografia do Tinhorão? Pelo que sei, ela está na Europa, mas acho que vale a pena procurá-la quando voltar.
Esqueci de lhe dizer sobre a música Chuá, chuá que coloquei no post. Fiquei na dúvida se colocava ou não o nome do Tio Agostinho :) (viu o Trivial de ontem?) Acabei deixando como estava no IMS.
Beijos. Helô.
Comentário de Teatro de Revista em 9 junho 2009 às 0:36
Helô,
Caramba! Ou como dizem os meninos, Caraca! Não vi o trivial tão carinhoso postado ontem pelo Nassif. Estava atracado nos acervos do IMS e pouco olhei o Blog. Estou vasculhando os arquivos sonoros (são mais de 14 mil gravações só no acervo do Tinhorão) e nem me dei por achado. Vai parecer falta de educação minha não ter comentado. Mas o comentário do Nassif é uma prova de que estamos fazendo um trabalho de qualidade. Já temos um painel inicial bastante completo sobre a revista. Quem conhece pouco ou nada a respeito vai ficar informado. E estamos só no começo, ein! E a sua edição está perfeita! Facilita a visualização de todo o material pelo visitante.
Vou mandar mensagem para o Nassif a respeito da postagem de ontem.
Sobre Chuá Chuá, tenho dúvidas de que essa senhora seja mesmo minha tia. Não reconheço o estilo do tio Agostinho naquela letra. Existem informações contraditórias sobre essa e outras canções. O direito autoral estava apenas nascendo na década de 20. Era tudo muito desorganizado ainda, com documentação escassa e falha. Já vi até uma parceria "Zeca Ivo e Ary Pavão" como autora de Chuá Chuá. Sei lá quem foi Zeca Ivo...deve ser peseudônimo. Só tenho uma certeza: a música é de Pedro Sá Pereira. Como foi escrita para uma revista de Marques Porto e Ary Pavão, os dois acabaram sendo indicados como autores da letra. Confusão de registro, não de autoria. Para mim, Chuá Chuá é de Sá Pereira e Ary Pavão. Os documentos que podem esclarecer isso devem existir. Difícil é descobrir onde estão.
Beijão
Henrique Marquse Porto
Comentário de Laura Macedo em 9 junho 2009 às 0:40
Helô,
Sensacional o post!!! Você retratou com maestria a trajetória de uma das grandes estrelas do teatro de revista.
Quanto mais leio sobre a nossa temática mais apaixonada fico.
Hoje estive pesquisando na biblioteca da UFPI e não encontrei quase nada. Fiquei um pouco frustrada. Ainda bem que via sebos, na internet, acabamos encontrando alguma coisa.
Helô, seu depoimento também me fez lembrar um similar contado pela minha mãe. A expressão "coisa de mulher da vida" era muito comum naquela época.
Um super beijo.
Comentário de Laura Macedo em 9 junho 2009 às 1:24
Henrique,
Assim como você, Jairo Severiano e Zuza Homem de Mello, também apontam como autores da canção "'Chuá, Chuá" - Pedro Sá Pereira e Ari Pavão. E dizem:
"Deixa a cidade formosa morena / linda pequena / e volta ao sertão..."
Estes versos sintetizam o tema de "Chuá, Chuá" - o eterno confronto cidade/sertão -, tema que se repete em vários outros clássicos do repertório nacional.
Destaca-se, porém, nesta canção um estribilho forte ("E a fonte a cantá / chuá, chuá /e a água a correr / chuê, chuê..."), fácil de cantar em terças, residindo aí, talvez, o motivo maior de sua popularidade.
"Chuá, Chuá" foi composta para a revista "Comidas, Meu Santo", encenada com sucesso no Teatro Recreio, no Rio de Janeiro, de junho a setembro de 1925.
Participantes dessa revista, os autores Pedro de Sá Pereira e Ari Pavão sempre tiveram seus nomes ligados ao meio teatral, o primeiro como maestro e compositor e o segundo como libretista.

Fonte: A canção no Tempo - 85 Anos de Músicas Brasileiras - Vol. 1: 1901-1957.
Beijos.
Comentário de Teatro de Revista em 9 junho 2009 às 18:11
Laurinha
Também estou apaixonada pelo tema. As revistas "O Malho" e "Para Todos" são fontes inesgotáveis de pesquisa. E trazem fotos das revistas da época, principalmente da década de 30.
Beijos. Helô
Comentário de Teatro de Revista em 9 junho 2009 às 20:10
Laura, Helô e Cafu
Precisamos resgatar esses dois grandes e esquecidos nomes da Revista, Ary Pavão e Pedro de Sá Pereira. Nassif pode ajudar com algumas dicas. Em 2005 ele escreveu um artigo para o Observatório da Imprensa falando sobre o esquecimento de Sá Pereira, um compositor da maior importância. Sequer fotos dos dois existem na internet. Talvez em alguma edição da "Para Todos", quem sabe.
Idem em relação a outros nomes como Carlos Bittencourt e os Irmãos Quintiliano, que continuaram de onde pararam Arthur e Aloisio de Azevedo. Sobre Marques Porto só agora (graças a essa página) estão surgindo mais informações.
Existe farta informação apenas sobre Luiz Peixoto. Já identifiquei uma coincidência trágica que com certeza terá afetado a continuidade do gênero Revista: os grandes "revisteiros" tiveram vida curta. O único longevo daquela geração foi Luiz Peixoto, que morreu em 1973 aos 85 anos. Deixou muitos depoimentos, inclusive em vídeo, mas não costumava mencionar os colegas, os parceiros e os compositores das revistas. Ele e Aracy Côrtes eram os únicos grandes nomes sobreviventes da década de 20 (Mário Lago, por exemplo, só estréia em 1933). Eram tratados pela imprensa como peças de museu.
Quer dizer, quase todos os autores e compositores dos anos 20 e 30 viveram e produziram numa época onde a palavra "mídia" nem existia! O que explica a extrema escassez de registros, a começar pela iconografia. O pouco que podemos encontrar está nos jornais e revistas da época ou então em acervos particulares que começam a se tornar públicos.
A lista de esquecidos é grande e vai dar trabalho escrever verbetes mais substanciosos sobre cada um.
beijão
Henrique Marques Porto

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