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MARGINALIDADE: CAUSA OU EFEITO

 

Hideraldo Montenegro

 

É comum escutarmos da mídia, de uma forma geral, que para combater a marginalidade se deve atacar a violência que ela gera, como se (ela) fosse a causa da própria violência. De fato, como um ciclo infindável (a cobra mordendo o próprio rabo), a marginalidade termina gerando a crescente violência que assistimos. Mas, ela não é causa, é efeito da estrutura social em que as pessoas marginalizadas são submetidas, por conta de uma partilha econômica desumana e dos estímulos consumistas que o próprio capitalismo impõe.

Ora, para tratarmos as causas precisamos mudar a estrutura que as tem gerado. O marginal não é só um caso de polícia, mas um caso de justiça social. Isso não quer dizer que o crime (de qualquer forma) se justifica. Ele tem que ser punido, logicamente. Porém, para estancarmos o número crescente da marginalização, então, precisamos modificar as causas que o tem gerado. Ficar atacando o efeito, no caso, o crime, sem atacarmos as causas, estaremos apenas batendo prego em estopa.

Os responsáveis pelo aumento da criminalidade estão soltos e continuam a estimular as desigualdades sociais e ampliá-las. Ou seja, empresários, banqueiros, latifundiários e políticos são os responsáveis pela estrutura social e são eles, por conta de um sistema injusto e explorador, pela organização (ou desorganização) social que criam. A sociedade apenas retrata o que está ocorrendo em sua base a partir da forma em que é estimulada e como encontra (ou não) uma justiça mais equânime a todos.

Um Estado policialesco, que reprime e apenas é montado para defender uma classe dominante ou um Estado enfraquecido que permite que a classe dominante tenha o direito à exploração (ou seja, um Estado totalitário ou neoliberal), nunca vai gerar a justiça social e contribuirá, ou melhor, estimulará todo tipo de atitudes marginais. Essa classe dominante é a responsável por tudo que está ocorrendo na sociedade que ela mesma cria.

Absurdo imaginar que a propriedade não tenha uma função social ou que deva existir “liberdade de propriedade” como se todos tivessem o exercício pleno dessa “liberdade”.

Punir o crime sim, mas essa punição tem que ser em todos os planos, inclusive, da classe que o tem gerado de fato. Contar com uma mídia que apenas tem servido para combater a marginalidade, ou seja, os efeitos, e esconder e dissimular e colocar-se apenas como vítima aqueles que o estimula, parece ser o papel de uma imprensa que estar a serviço desses mesmos causadores das injustiças sociais.

Há crimes sociais, mas quem detém o poder se abstém de que os tem produzidos e jogam nas costas dos pobres toda a responsabilidade da violência que está ocorrendo.

Respondendo à pergunta inicial: não é à toa que quanto mais pobre um país, maior é o grau de marginalização e, portanto, de crimes. Sendo assim, “os donos do mundo piraram, pois, são carrasco e vítimas do próprio mecanismo que criaram”, conforme nos dizia Raul Seixas.

Consequentemente, se alguém precisa ser preso, esse alguém é aquele que tem gerado o crescente aumento de violência que assistimos, seja pelas injustiças sociais, seja pelo estímulo consumista dessa sociedade.

Enrustir esse fato é tentar enganar a verdadeira causa por traz dos efeitos. O aumento da marginalização é um indicativo do crescente grau de conflito que esta sociedade tem gerado e, portanto, para eliminar o índice de violência em nossa sociedade, é preciso eliminar os conflitos sociais, ou seja, eliminar as injustiças causadora da crescente marginalização em nossa cultura.

Então, esses argumentos de que a diminuição da maioridade penal, da melhoria tão somente do sistema prisional, da repressão policial mais severa e da aprovação de leis mais rígidas podem contribuir com a erradicação da violência não passam de um engodo e argumentos simplórios e fúteis, ou seja, não passam de falácias. A questão é muito mais profunda e envolve a estrutura social em que todos nós estamos mergulhados. Mudar significa mudarmos o sistema social que tem gerado a violência e marginalização.

Então, para estancar o surgimento da marginalização e todas as suas ramificações é preciso acabar com a miséria que a tem gerado. Sem isso, vamos enxugar gelo e, portanto, de nada adianta criar novas leis, aumentar a repressão policial e optar por um novo modelo de encarceramento.

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Comentário de Ulysses Freire da Paz Jr. em 13 agosto 2017 às 0:07

A história corrompida pereniza a corrupção, solapa a ordem social, a família e a vida, mas a verdade cura, liberta e pacifica.

Quando ninguém mais procurar e difundir a verdade, então tudo o mais estará pervertido, pois somente da verdade advém a vida, a paz, e a justiça.

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