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Maria Callas (* 02/12/1923 † 16/09/1977)

Parte 2: a artista completa

 

O som de Callas - uma voz "feia"

A voz de Callas era e continua controversa; ela aborrecia e  perturbava  tanto  quanto  emocionava  e inspirava. (6) (13) Walter Legge, produtor musical inglês, afirmava que Callas possuía o ingrediente mais essencial para uma grande cantora: uma voz imediatamente reconhecível. (4) Durante o “The Callas Debate”, o crítico italiano Rodolfo Celletti afirmou que “o timbre da voz de Callas, considerado puramente como som, era essencialmente feio.: era um som  fino, o qual dava a impressão de secura, de aridez. Faltavam aqueles elementos que, no jargão do canto, são descritos como veludo e verniz ou polimento... ainda que eu realmente acredite que parte do seu apelo era precisamente devido a este fato.Por que? Porque por toda sua natural falta de verniz, veludo e sonoridade, esta voz conseguiu adquirir cores e timbres tão característicos que se tornou inesquecível.” (3)

 

Nicola Rossi-Lemeni, cantor de ópera com tessitura de baixo, relata que o mentor de Callas, Tullio Serafin costumava referir-se a ela como “Uma grande vociaccia”; ele continua, “Vociaccia é um pouco pejorativo – significa uma voz feia – mas grande significa uma soberba voz, magnífica voz. Uma magnífica voz feia, de certo modo." (15)

 

O jornalista milanês Alfonso Signorini, que pesquisou as cartas escritas por Callas ao longo da carreira para  recriar  sua  vida  no  livro  "Orgulhosa Demais,  Frágil Demais"  afirmou  que  "A  voz  não  é particularmente bonita, mas a riqueza de coloridos e sensações que transmite não tem concorrência até os dias de hoje. Se o mito Callas persiste, não custa de vez em quando a gente lembrar que Maria Callas, a mulher e artista, é muito mais humana. E interessante." (18)

 

A Callas mesma não gostava do som de sua própria voz; em uma de suas últimas entrevistas, perguntada se ela era ou não capaz de ouvir sua própria voz, ele respondeu:

" Sim, mas eu não gosto dela. Eu tenho que ouvi-la, mas eu não gosto de jeito nenhum porque eu não gosto do tipo de voz que eu tenho. Eu realmente odeio ouvir a mim mesma. A primeira vez eu ouvi uma gravação do meu canto foi quando nos estávamos gravando San Giovanni Battista de Stradella numa igreja em Perugia em 1949. Eles me fizeram ouvir à fita e eu chorei. Eu queria parar tudo, desistir de cantar... Também mesmo agora embora eu não goste de minha voz, eu me tornei capaz de aceitá-la e me distanciar e ser objetiva sobre isso então eu posso dizer, “Oh, aquilo ficou realmente bem cantado,” ou “Ficou quase perfeito.”(16)

 

Classificação vocal

A respeito da versatilidade da voz de Callas (seu repertório variava dos papéis mais pesados para soprano dramático até aqueles para os mais agudos , leves e ágeis sopranos coloratura) o Maestro Tulio Serafin disse, “Esta mulher pode cantar qualquer coisa escrita para a voz feminina”. (17) Por outro lado, o crítico musical John Ardoin argumentava que Callas era a reincarnação dos soprano sfogato ou “sopranos ilimitados” do século XIX.

 

Tamanho e extensão vocal

Sobre o tamanho da voz de Callas, o crítico italiano Rodolfo Celleti afirmou “Sua voz era penetrante. O volume era médio: nem pequeno nem poderoso.Mas a penetração  aliada  à  qualidade  incisiva  (que beirava uma voz feia, porque frequentemente tinha elementos de aspereza) garantiam que  sua  voz podia ser ouvida claramente em qualquer lugar do auditório." (3)

No seu livro, Michael Scott faz a distinção que, enquanto a voz da Callas pré 1954 era uma soprano dramático com um excepcional agudo, depois da perda de peso, ela tornou-se, uma magnífica soprano ligeiro (ou soprano dramático colaratura) (2)

 

A extensão da voz de Maria Callas

A tecla verde é o Do central e a tecla azul é o Do alto, duas oitavas mais altas que o Do central, que é a típica faixa de um soprano. As teclas vermelhas mostram a tessitura de Maria Callas que variava de um Fa sustenido abaixo do Do central até o Mi natural acima do Do alto.

 

 

 Una voce poco fa - Il Barbiere di Siviglia - de Gioachino Rossini

 Orchestra Sinfonica della Norddeutsche Runfunk

 rege Nicola Rescigno - 15/05/1959

 

A musicalidade

O Maestro Victor de Sabata confidenciou ao produtor musical inglês Walter Legge, “Se o público pudesse entender, como nós, quão profundamente e completamente musical Callas era, ele ficaria assombrado” (4)  e  o  Maestro  Tullio  Serafin  assegurava  que  a  musicalidade  de   Callas   era “extraordinária, quase assustadora”.(5) Callas possuía um  inato  senso  de  proporção (6)  e  um misterioso sentido de “timing” e para o que uma de suas colegas descreveu como  “um senso de  ritmo dentro do ritmo”.(7)

 

A mais famosa Tosca de Callas gravada com Carlo Bergonzi ilustra bem esse ponto.

 

 Ah, quegli occhi - Tosca - de Giacomo Puccini

 Orchestre de la Société des Concerts du Conservatoire

 rege George Prête

 

 

A atriz

Segundo a soprano Augusta Oltrabella, “A despeito do que falem, Callas era uma atriz na medida da expressão da música e não o contrário." (8) (9)

A própria Callas afirmou que, em Ópera, Atuar deve ser baseado na Música, citando o conselho do Maestro Tullio Serafin a ela:

“Quando alguém quer encontrar o gesto, quando você quer descobrir como atuar no palco, tudo que você tem que fazer é ouvir a música. O compositor já se encarregou disto. Se você tiver o trabalho de realmente ouvir com sua Alma e com seus Ouvidos – e eu digo ‘Alma’ e ‘Ouvidos’ porque a mente deve trabalhar, mas não em excesso também – você descobrirá cada gesto lá.” (10)            

 

Como exemplo expressivo dos recursos dramáticos de Callas, a ária Vissi d'arte da Tosca de Puccini, gravada em 1964 no Convent Garden. Essa gravação da Tosca entrou para a história do mundo operístico.

 

Vissi d'arte - Tosca - de Giacomo Puccini

Orchestra of the Royal Opera House - rege Carlo Felice Cillario

gravado ao vivo no Covent Garden, Londres - 09/02/1964

 

A artista

A maior qualidade característica de Callas era sua habilidade de infundir o sopro de vida aos personagens que ela interpretava, ou nas palavras de Mattew Gurewitsch, “o mais misterioso de seus muitos dons, Callas tinha o gênio de transportar os momentos particulares de uma vida para o tom da voz.(11)

 

 Maria Callas, Giuseppe di Stefano e Ronald Panerai

 O Soave Fanciulla - La Bohème - de Giacomo Puccini

 Orchestra e Coro della Scala - rege Antonio Votto - 1958

O crítico italiano Eugenio Gara acrescenta:

" Seu segredo estava na sua habilidade de trasnferir para o plano musical o sofrimento do personagem que ela interpretava, a saudade pela felicidade perdida, a ansiosa oscilação entre esperança e desespero, entre orgulho e súplica, entre ironia e generosidade, a qual termina dissolvida numa dor interior superumana. A mais variada oposição de sentimentos, cruéis decepções, desejos ambiciosos, ternura cálida, sacrifícios penosos, todos os tormentos do coração adquirem no seu canto aquela misteriosa verdade, eu diria, aquela sonoridade psicológica, que é o atrativo básico da ópera. "(3)

 

 Maria Callas e Alfredo Kraus

 Parigi, o cara -La Traviata - de Giuseppe Verdi

 Orquestra Sinfonica Nacional e Coro do Teatro Nacional de São Carlos

 rege Franco Ghione - Lisboa - 27/03/1958

 

 

O Maestro Giulini acreditava, “Se o melodrama é a unidade ideal da trilogia das palavras, música e ação, é impossível imaginar uma artista na qual estes três elementos estivesem mais juntos do que em Callas”.(2) Ele recordava que durante as performances de Callas de La Traviata, “a realidade estava no palco. O que ficava atrás de mim, o público, o auditório, o próprio La Scalla, parecia artificial. Somente aquilo que transpirava no palco era verdade, a vida mesma.” (6)

 

 Maria Callas e Nicolai Gedda - Viene la sera - Madama Butterfly - de Giacomo Puccini

  Orchestra del Teatro alla Scala di Milano - rege Herbert von Karajan - 1955

 

 

Rudolf Bing, empresário de ópera, expressou sentimentos semelhantes:

" Uma vez que se ouvia e se assistia a Maria Callas – ninguém pode negar isso – numa peça, era muito difícil apreciar qualquer outro artista, não importa quão grande fosse, depois, porque ela impregnava cada peça que cantava com tal inacreditável personalidade e vida. Um movimento de sua mão era mais que outro artista poderia fazer em todo um ato." (12)

 

 Maria Callas e Giuseppe di Stefano

 D'amor sull'ali rosee; Miserere... Quel suon, quelle preci 

 Il Trovatore de Giuseppe Verdi

 Coro e Orchestra del Teatro alla Scala

 rege Herbert von Karajan - Milão - 1956

 

Para o Maestro Antonio Votto, Callas era

" A última grande artista. Quando você pensa que esta mulher era quase cega e frequentemente cantava distante 45 m do tablado do maestro. Mas sua sensibilidade! Mesmo se ela não pudesse ver, ela sentia a música e sempre vinha exatamente na minha batida. Quando nós ensaiávamos, ela era tão precisa, já na nota certa... Ela não era apenas uma cantora, mas uma artista completa. É bobagem discuti-la como uma voz. Ela deve ser vista no todo – como um conjunto de música, drama, movimento. Não há ninguém como ela hoje. Ela foi um fenômeno estético." (6)

 

 

 L'altra notte in fondo al mare - Mefistofole - de Arrigo Boito

 Philharmonia Orchestra - rege Tullio Serafin - 1954

 

 O mio babino caro - Gianni Schicci - de Giacomo Puccini

 Philharmonia Orchestra - rege Tullio Serafin

   

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 Continua

 Parte 1: os anos áureos

 Parte 3: os últimos anos

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Referências:

(1)   PLADE KLASSIKEREN - http://plade-klassikeren.dk/product_info.php?manufacturers_id=244&a... - acessado em 14/09/2012

(2)    Scott, Michael (1992).Maria Meneghini Callas. Boston: Northeastern University Press. ISBN 1-55553-146-6.

(3)    "The Callas Debate". Opera. September–October 1970.

(4)    Schwarzkopf, Elisabeth (1982). On and Off the Record: A Memoir of Walter Legge. New York: Charles Scribner's Sons. ISBN 0-684-17451-0.

(5)    Serafin, Tullio, "A triptych of Singers," Opera Annual, No. 8, 1962

(6)    Ardoin, John; Gerald Fitzgerald (1974). Callas: The Art and the Life. New York: Holt, Rinehart and Winston. ISBN 0-03-011486-1.

(7)   Petsalis-Diomidis, Nicholas (2001). The Unknown Callas: The Greek Years. Amadeus Press. ISBN 1-57467-059-X.

(8)   Rasponi, Lanfranco (June 1985). The Last Prima Donnas. Limelight Editions. ISBN 0-87910-040-0.

(9)   Lebrecht, Norman (1985). The Book of Musical Anecdotes. New York: Free Press. ISBN 0-02-918710-9.

(10)  Maria Callas in conversation with Lord Harewood for the BBC, Paris, April 1968 (2004-05-04). Maria Callas: The Callas Conversations (DVD). EMI Classics.

(11)  Gurewitsch, Matthew, "Forget the Callas Legend,"The Atlantic Monthly, April 1999.

(12)  John Ardoin (writer), Franco Zeffirelli (narrator) (1978). Callas: A Documentary (Plus Bonus) (TV documentary, DVD). The Bel Canto Society.

(13)  Ardoin, John (1991). The Callas Legacy. Old Tappen, New Jersey: Scribner and Sons. ISBN 0-684-19306-X.

(14)  Siff, Ira, "I Vespri Siciliani: Verdi:, Online edition ofOpera News, March 2008

(15)  Callas by Tony Palmer, 30th Anniversary Edition, (DVD).

(16) French Radio Interview with journalist Philippe Caloni on French Radio; Maria Callas' Last Interview Part 1 of 8

(17) Stassinopoulos, Ariana (1981). Maria Callas: The Woman Behind the Legend. New York: Simon and Schuster. ISBN 0-671-25583-5.

(18)  Signorini, Alfonso (2009). Orgulhosa Demais, Frágil Demais Editora Record.ISBN-13: 9788501082404 

(19) João Luiz Sampaio, Maria Callas, a mulher, a soprano e o mito - O Estado de S. Paulo - 06/01/2010

(20) Victória Movras - Video biografia: MARIA CALLAS. LA MUJER Y LA DIVA.- agosto/2012

(21) primohomme's channel - canal do YouTube (acessado em 17/09/2012) 

 

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