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(atualizado em 17/09/2012)

  Maria Callas (* 02/12/1923 † 16/09/1977)

Parte 1: Os anos áureos

 

Há 35 anos, desaparecia aquela que foi a expressão máxima da ópera do século XX. Ela unia na mesma artista impressionante  técnica  de  bel canto,  ampla  extensão  vocal  e  grandes  dons   dramáticos, talentos que lhe deram o nome “A Divina”. Sua  arte,  por isso,  sobrevive,  cada vez com maior vigor, muitos anos depois do silêncio final, de seu adeus definitivo na cena do grande teatro da vida.

 

Maria Callas, filha de imigrantes gregos,  nasceu Anna María Cecilia Sophia Kalogeropoulou e foi registrada como Sophia Cecelia Kalos em Nova York a 2 de dezembro de 1923. O pai de Callas encurtou o sobrenome Kalogeropoulou para Kalos e depois para Callas, de forma a torná-lo mais fácil.

Em 1937, devido a dificuldades econômicas, ela viajou à Grécia com sua mãe. Ali, estudou no Conservatório de Atenas. Sua professora foi a soprano espanhola Elvira de Hildalgo, quem, além disso,  se converteu na sua conselheira fundamental. Estreou em 1941 na Ópera de Atenas com a “Tosca” de Puccini. Callas cantou nesta cidade durante alguns anos. Em 1947, estreou na Itália na Arena de Verona com "La Gioconda" de Ponchielli, sob a direção do maestro Tulio Serafin que logo se tornaria seu mentor. 

 

 Vissi d'arte - Tosca - de Giacomo Puccini

 París Conservatoire Orchestra - rege Georges Prètre 

 

O madre mia, nell' isola fatale - La Gioconda -  de Amilcare Ponchielli 

Orquestra e Coro da RAI de Turin - rege Antonio Votto - 1952

 

Callas começou a despontar no cenário lírico em 1948, com uma interpretação bastante notável para a protagonista da ópera Norma, de Bellini, em Florença. Todavia, sua carreira só viria a projetar-se em escala mundial no ano seguinte, quando a cantora surpreendeu crítica e público ao alternar, na mesma semana, récitas de I Puritani, de Bellini, e Die Walküre, de Wagner.

 

Casta Diva - Norma - de Vincenzo Bellini

Philharmonia Orchestra - rege Tulio Serafin

 

 Ah, rendetemi... Qui la voce - I Puritani - de Vincenzo Bellini

 Orchestra Sinfonica della RAI di Torino - rege Arturo Basile - 1949

 

Em 1949, Callas se casou com Giovanni  Meneghini, um importante empresário da  construção,  quase 30   anos mais velho que ela. Meneghini  junto a Tulio Serafim guiarão sua  carreira. Foi  o  amor  e  o apoio  de Meneghini que deram a Callas o tempo necessário para se estabelecer na Itália e do começo ao fim  de  sua  carreira  ela  foi  Maria Meneghini Callas.  Em  1950,  fez sua estréia  no  La Scala  de  Milão   com a representação da “Aída” de Verdi. Sua primeira aparição  em  Nova York  foi  em  1956  com  a  ópera “Norma” de Bellini. 

 

Tito Gobbi & Maria Callas - Ciel! Mio padre! - AIDA - de Giuseppe Verdi

Orchestra e Coro de Teatro alla Scala - rege Tullio Serafin - 1955

 

A partir dos anos 1950, Callas começou a apresentar-se regularmente nas mais importantes casas de espetáculo dedicadas à ópera, tais como La Scala, Convent Garden e Metropolitan. São os anos áureos, e ao passo de sua fama como cantora internacional, também vai sua fama de tigresa, muitas vezes considerada temperamental pelo seu perfeccionismo.

 

Bastidores. A foto que alimentou o mito de Callas como uma tigresa. Madame Maria Meneghini-Callas grita com o oficial de justiça americano Marshal Stanley Pringle que levou-lhe papéis de um processo contra ela após a última performance de Madame Butterfly no Civic Opera House em Chicago.

 

Ela foi a mais destacada e famosa cantora lírica, e fez jus à sua fama, pois interpretou várias dezenas de Óperas de diversíssimos estilos. Callas perpetuou-se em papéis como Medea, Norma,Tosca, Violetta, Lucia, Gioconda, Amina, entre outros, continuando, nestes papéis, a não existir nenhuma artista que lhe faça sombra.

 

 Regnava nel silenzio...Quando rapito in estasi (ato I, cena 2)

 Lucia di Lammermoor - de Gaetano Donizetti 

 Philharmonia Orchestra and Chorus - rege Tullio Serafin - 1959

 

Um dos aspectos que certamente contribuiu para a lenda que se formou em torno de Maria Callas diz respeito a sua conturbada vida pessoal. Dona de um temperamento forte, que parecia o correlato perfeito para a intensa carga dramática com que costumava abordar suas personagens no palco, tornou-se famosa por indispor-se com maestros e colegas em nome de suas crenças estéticas.

 

Final da Ópera - Medea - de Luigi Cherubini

Orchestra e Coro del Teatro Comunale di Firenze

rege Vitorio Gui - 07/05/1953

 

Em 1958, após, doente, ter abandonado uma récita de Norma na Ópera de Roma, Callas foi atacada fortemente pela imprensa italiana, que julgou que a soprano queria ofender o presidente italiano, presente na plateia. O escândalo comprometeu sua carreira na Itália e, no mesmo ano, ela entrou em disputa com Antonio Ghiringhelli, dirigente do La Scala, que não mais a queria no teatro. Somente voltou a apresentar-se no La Scala em 1960, na ópera Poliuto de Donizetti.

 

Ainda em 1958, foi sumariamente demitida do Metropolitan por Rudolf Bing, que desejava que ela alternasse apresentações de

 

La Traviata e  ...

Árias: E strano! E strano! / Ah, fors'è lui che l'anima / Follie! Follie! / Sempre libera

La Traviata - de Giuseppe Verdi

Orchestra Sinfonica della RAI di Torino - rege Gabriele Santini - 1953

 

e... Macbeth, óperas de Verdi com exigências vocais muito distintas para a soprano. À exigência de Bing, Callas deu a resposta célebre: sua voz não era um elevador.

Lady Macbeth's Letter Scene - de Giuseppe Verdi

Philharmonia Orchestra - rege Nicola Rescigno

(Studio Recording, Score Animation)

  " Um dos papéis mais desafiantes já escritos para voz feminina, Lady Macbeth requer uma diva com

 fáceis e importantes registros altos capazes de grande flexibilidade e poder; assim como requer

 poderosos registros baixos com cor escura como um contralto. Verdi escreveu este papel para

 sopranos com notas altas e flexibilidade de um soprano coloratura com o poderoso registro de peito

 de um contralto. Este papel foi totalmente dominado por algumas poucas, entre elas, a mais

 absoluta do século XX, Maria Callas. " (21)

Em 1959, separou-se de Meneghini, depois de conhecer  o  magnata  grego  Aristóteles Onassis  com quem manteve  uma  apaixonada  e  tempestuosa  relação  sentimental.  Callas  passa  a  dedicar-se integralmente ao seu amado, afirmando ter começado ali sua vida de verdade. Começou a  frequentar eventos sociais e era presença constante em noites de festas. Foi quando ela parou de ensaiar, adiou e cancelou apresentações. Paralelamente sua voz começou a apresentar sinais de declínio. A cantora diminuiu consideravelmente suas participações em  montagens  de  óperas  completas,  limitando  sua carreira a recitais e noites de gala e terminando por abandonar os palcos em 1965.

 

Spargi d'amaro pianto - Lucia di Lammermoor - de Gaetano Donizetti 

Philharmonia orchestra and chorus - rege Tullio Serafin - 1959

 

Ah! non credea mirarti - La Sonnambula - de Vincenzo Bellini 

 Orchestra del Teatro alla Scala di Milano - rege Leonard Bernstein - 1955

 

Michael Scott, fundador e diretor artístico da London Opera Society, afirma que Onassis não foi a causa de Callas ter abandonado a carreira, mas ele ofereceu a ela uma saída de uma carreira que se tornou incrivelmente dificultada por escândalos e por recursos vocais que estavam diminuindo a uma velocidade alarmante.(2)

A relação com Onassis não foi feliz e rendeu farto material para os tablóides sensacionalistas:

repórter: Sra. Callas, a senhora teve algum desentendimento em Dallas?

Callas: Eu não dou nenhuma entrevista.

repórter: A senhora teve algum problema em Dallas?

Callas: Nada, eu não dou nenhuma entrevista. Não me empurre, por favor!

repórter: Vai casar com o Sr. Onassis?

Callas: Não respondo a ninguém. Eu disse... eu não respondo a nenhuma entrevista, agora parem!

 

 Callas e Onassis - Tragédia grega

 

Em 1964, encorajada pelo cineasta italiano Franco Zefirelli, volta aos palcos em sua maior criação, Tosca, no Convent Garden, tendo como seu parceiro o amigo de longa data Tito Gobbi. Essa gravação da Tosca entrou para a história do mundo operístico. 

 

Vissi d'arte - Tosca - de Giacomo Puccini

Orchestra of the Royal Opera House - rege Carlo Felice Cillario

gravado ao vivo no Covent Garden, Londres - 09/02/1964

 

Sua última apresentação em uma ópera completa foi como Norma em Paris, 1965, e devido à sua saúde vocal debilitada, não aguentou ir até o fim, desmaiando ao cair da cortina no fim da terceira parte. Callas tinha então 41 anos.

 

Paris, Théâtre National de l'Opéra, 29 mai 1965

O anúncio diz: " Senhoras e Senhores, desde o início desta performance, Madame Maria Callas teve que superar uma doença e  uma  importante  depressão.  Lamentavelmente,  a  despeito  de  sua excepcional coragem, pela qual agradecemos,  e  conforme  seu  médico,  ela  está  em  absoluta impossibilidade de terminar esta apresentação. Ela lamenta  profundamente  e  nós  pedimos  aos senhores que desculpem-na. (Este documento é um tocante testemunho para os fãs de Callas, ele não é para os detratores da diva!) "

 

Ato I, scena prima - Norma - de Vincenzo Bellini

Paris Opera Orchestra - rege George Prêtre - 29/05/1965

 

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Continua:

Parte 2: a artista completa

Parte 3: os últimos anos

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Referências:

(1)   PLADE KLASSIKEREN - http://plade-klassikeren.dk/product_info.php?manufacturers_id=244&a... - acessado em 14/09/2012

(2)    Scott, Michael (1992).Maria Meneghini Callas. Boston: Northeastern University Press. ISBN 1-55553-146-6.

(3)    "The Callas Debate". Opera. September–October 1970.

(4)    Schwarzkopf, Elisabeth (1982). On and Off the Record: A Memoir of Walter Legge. New York: Charles Scribner's Sons. ISBN 0-684-17451-0.

(5)    Serafin, Tullio, "A triptych of Singers," Opera Annual, No. 8, 1962

(6)    Ardoin, John; Gerald Fitzgerald (1974). Callas: The Art and the Life. New York: Holt, Rinehart and Winston. ISBN 0-03-011486-1.

(7)   Petsalis-Diomidis, Nicholas (2001). The Unknown Callas: The Greek Years. Amadeus Press. ISBN 1-57467-059-X.

(8)   Rasponi, Lanfranco (June 1985). The Last Prima Donnas. Limelight Editions. ISBN 0-87910-040-0.

(9)   Lebrecht, Norman (1985). The Book of Musical Anecdotes. New York: Free Press. ISBN 0-02-918710-9.

(10)  Maria Callas in conversation with Lord Harewood for the BBC, Paris, April 1968 (2004-05-04). Maria Callas: The Callas Conversations (DVD). EMI Classics.

(11)  Gurewitsch, Matthew, "Forget the Callas Legend,"The Atlantic Monthly, April 1999.

(12)  John Ardoin (writer), Franco Zeffirelli (narrator) (1978). Callas: A Documentary (Plus Bonus) (TV documentary, DVD). The Bel Canto Society.

(13)  Ardoin, John (1991). The Callas Legacy. Old Tappen, New Jersey: Scribner and Sons. ISBN 0-684-19306-X.

(14)  Siff, Ira, "I Vespri Siciliani: Verdi:, Online edition ofOpera News, March 2008

(15)  Callas by Tony Palmer, 30th Anniversary Edition, (DVD).

(16) French Radio Interview with journalist Philippe Caloni on French Radio; Maria Callas' Last Interview Part 1 of 8

(17) Stassinopoulos, Ariana (1981). Maria Callas: The Woman Behind the Legend. New York: Simon and Schuster. ISBN 0-671-25583-5.

(18)  Signorini, Alfonso (2009). Orgulhosa Demais, Frágil Demais Editora Record.ISBN-13: 9788501082404 

(19) João Luiz Sampaio, Maria Callas, a mulher, a soprano e o mito - O Estado de S. Paulo - 06/01/2010

(20) Victória Movras - Video biografia: MARIA CALLAS. LA MUJER Y LA DIVA.- agosto/2012

(21) primohomme's channel - canal do YouTube (acessado em 17/09/2012) 

Exibições: 627

Comentário de maria auxiliadora santiago em 16 setembro 2012 às 13:17

Que belo presente estou recebendo na manhã de domingo!

É uma homenagem muito merecida.

Parabéns! Muito obrigada.Abs.

Auxiliadora Santiago

Comentário de Gilberto Cruvinel em 17 setembro 2012 às 22:52

Obrigado Auxiliadora Santiago

Que bom que você gostou. Fiz com muito carinho para todos os que gostam da Callas

Gilberto

Comentário de Luis Henrique Bueno de Oliveira em 14 março 2017 às 16:53

Obrigado Gilberto Cruvinel, é um presente precioso o teu. Muito obrigado.

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